sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias


Muitos filmes têm tratado da temática da Ditadura Militar, mas o que me chamou atenção especialmente em “O Ano em que meus Pais Saíram de Férias” foi abordar esse tema pelos olhos de uma criança. Mauro(Michel Joelsas) é obrigado a ficar de férias com o avó enquanto os pais estão em exílio por serem militantes de esquerda.


Cao Hamburger dirige este filme semi-autobiografico investindo em algo que não é muito comum em filmes que contêm essa abordagem: A Ternura o que acaba por se tornar o principal diferencial do longa. Cao tem experiência em lidar com esse público(foi diretor do “Castelo Rá-Tim-Bum” entre outros programas destinados a este publico. Isso explica a destreza com que constrói e comanda as relações entre o Menino Mauro(Michel Joelsas) com o seu interior e os outros personagens.

Estruturando a tensão dramática de forma sutil Cao investe na direção de atores de maneira afável. A tensão dramática aqui representada pelos acontecimentos que são alheios ao protagonista Mauro(Michel Joelsas) permite que Hamburger coloque o personagem em uma situação de deslocamento. Cao capta de forma hábil as reações e os sentimentos internos do personagem principal, apostando em closes e na captura de feições puramente genuínas próprias a uma criança.

Hamburger tem preocupação em captar o universo interno do protagonista abrindo espaço para o lúdico próprio do imaginário infantil. A forma particular com que trata os anseios daquele menino envolto em uma bolha de reclusão(elemento esse ressaltado de maneira sutil pela tensão dramática) é brilhante pois a interação entre Mauro(Michel Joelsas) e os outros personagens é feita de forma gradativa abrindo espaço para a reclusão e o inevitável choque de culturas oriundo da sua relação com o judeu ortodoxo Shlomo(Germano Haiut).

Cao tem extrema habilidade de explorar cada plano ao Maximo que pode. Toda e qualquer incursão feito dentro do universo fílmico tem razão de estar ali. O roteiro é bem sucinto nesse sentido e favorece o trabalho do diretor no momento de orquestrar a narrativa. Da mesma forma, todos os personagens tem razão de estar ali tendo suas funções dramáticas bem definidas e tendo seus adendos á narrativa construídas e desabrochadas no momento certo pelo diretor. Um truque de Mestre.


Hanna(Daniela Piepszyk) a outra protagonista estimula o lúdico do personagem principal sendo a responsável por “furar” a bolha de exclusão em que o personagem se acomoda.


Apesar de “O Ano” ser um filme que aborda a Ditadura Militar, aqui ela está inserida em segundo plano e de forma sutil. O foco mesmo é a infância do protagonista Mauro(Michel Joelsas) o que da margem a uma abordagem diferenciada tratando inclusive de aspectos culturais do Brasil naquela época. A Ditadura aqui está escondida nas entrelinhas e refletida na iminência da angustiante espera do Menino por seus pais.


Michel e Daniela interpretam os protagonistas Mauro e Hanna de forma genuína com graça,talento e principalmente naturalidade.

Germano Haiut reflete em sua atuação justamente o que seu personagem Shlomo representa para o filme: Um personagem de opostos que se deixa encantar por aquele menino de maneira gradativa e sincera.




“O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” é um filme terno sobre um tema pesado. Se é que é possível que isto aconteça em um filme. Mas o fato é que Cao Hamburger conseguiu construir um filme com um olhar diferente sobre um tema já tratado anteriormente (embora não tantas vezes quanto deveria). É esse o diferencial de “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” um outro olhar mais terno sobre um tema pesado, propondo reflexão. 

  

  




Um comentário:

  1. Qual é a função/linha dramática do personagem Shnomo no filme?

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