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domingo, 20 de novembro de 2016

BR 716




Em dado momento de “BR 716”, o protagonista Felipe(Caio Blat) diz algo como “Eu não sei o que vivi ou imaginei”. É bem assim que se desenrola “BR 716”, o novo filme de Domingos Oliveira. Como uma doce e intensa lembrança, com todos os ingredientes contidos nessa deslumbrante memória convertida em um belo filme.

Espécie de auto ficção sobre a juventude de Oliveira nos anos 60, onde tudo o que tinha era um belo e espaçoso apartamento na RUA Barata Ribeiro em Copacabana, amigos, amores e o desejo de ser escritor, “BR 716” é um filme festa. Intenso, fugaz, nostálgico, vivo e atual, muito atual.


Como todo “filme festa”, BR 716” é dotado de intensidade e agilidade em todos os momentos. Seus personagens aproveitam as famosas festas de Felipe(Blat) para viver o momento como se fosse o ultimo. Nesse terreno, os personagens vivem tudo a flor da pele, a plenitude do momento. Amores, paixões, ambições, desavenças e ideologias, sejam elas políticas ou artísticas. O Longa, dotado de uma vivacidade impressionante, reflete bem o “Seize The Day” e sua filosofia hedonista ao máximo. Constituído de pequenos fragmentos, "BR 176” se revela um mosaico, um pequeno retrato daqueles personagens essencialmente e excessivamente bêbados,envoltos naquele terreno, onde vivem, sentem e aproveitam cada segundo como se fosse o ultimo. Como se fosse preciso viver cada momento, de cada festa e eternizar lós. Como se os momentos fossem pó que escorrem da palma da mão.


Domingos Oliveira é do tipo de artista que não separa o amor da arte, o trabalho da vida. Tal qual  François Truffaut, Woody Allen e Roger Vadim, só para citar alguns. E assim como os filmes destes acima citados, “BR 176” exala paixão e poesia. Oliveira envolta seus personagens essencialmente e excessivamente bêbados- de álcool e de paixão, numa atmosfera de embriaguez e num mundo á parte.  Mas não confunda, “mundo á parte” com alienação. Pelo contrário, a revolução de Felipe e sua turma se dá através da arte, da poesia, do amor e ás vezes, da política, tal qual o jovem trio protagonista  de “Os Sonhadores”.

Envolto nessa atmosfera de embriaguez do álcool e das paixões, Domingos Oliveira instala e desnuda seus personagens com tamanha delicadeza e poesia, munido de movimentos de câmera circulares e panorâmicos. Assim, o diretor nos proporciona cenas de tamanho deleite. Como se o que estamos assistindo não fosse “real”, como se estivéssemos em um sonho e pudéssemos acordar a todo o momento mesmo não querendo.  Oliveira capta a intensidade de cada segundo da paixão que acomete seus personagens naquela atmosfera de embriaguez, captando e revelando a beleza de seus corpos em uma dança, a beleza de seus rostos, apostando em closes de tamanha beleza de seu elenco que iluminam, dominam e encantam a tela. Como os personagens de Sophie Charlotte, Glauce Guma(Melhor atriz coadjuvante em Gramado merecidamente. Pois interpretou com brilhantismo uma personagem que vive na linha tênue entre a paixão e a loucura), Maria Ribeiro, Gabriel Antunes e Álamo Facó. Maria, Caio,Sophie e Álamo interpretam um duelo amoroso que nasce e morre, pra depois renascer em outros rostos, pois assim são as paixões que nascem naquele terreno, naquela atmosfera que é o apartamento de Felipe, fugazes e efêmeras. Mas que seja eterno enquanto dure.

A câmera de Oliveira capta esses momentos, tanto os da alegria esfuziante da festa(os personagens passando por baixo de uma corda é impagável), quanto os de entrega de amor, do sexo, da embriaguez, das discussões políticas e das crônicas de bêbados de personagens totalmente embriagados, de álcool , de amor, de filosofia e de poesia como um voyeur, um voyeur da própria festa, ali a espreita observando a própria vida renascer diante da câmera, para depois brotar na tela. Momentos estes que o cineasta captura com destreza e agilidade, antes que sejam tomados por outros, como de fato sempre são. Tamanha a quantidade de histórias, tramas, discussões e amores que nascem naquele apartamento e nos arredores da onde os amores de Felipe e sua turma nos levar. Domingos mergulha nas histórias de amores, ideologias, emoções e discussões filosóficas sobre amor, arte e vida com tamanha intensidade para depois submergir em rápidos e intensos mergulhos em seu baú de memórias que se tornou ficção.

O Cineasta construiu um filme moderno, arrojado, intenso e vivo. Seus personagens e seu filme são dotados de uma jovialidade, de um frescor e de um despudor impressionantes. Só quem carrega a juventude na alma como Domingos Oliveira poderia construir personagens e um filme tão intensos e frescos quanto esses.

A vertente pela qual a obra de Domingos Oliveira é mais conhecida, a verborragia, se faz presente em altas doses em “BR 716”. Poesias, filosofias, amores, declarações, ideologias e lamentos saem da boca de seus personagens de forma entregue e apaixonada, com um despudor característico que só o álcool, de preferência, whisky bebido como água, a ressaca e as lembranças que restam da noite anterior no dia seguinte podem proporcionar.


Oliveira, um jovem na alma tal como é, não se contentou em retratar a juventude da sua e de todas as épocas em “BR716”, o diretor também adotou escolhas estéticas que podem ser consideradas modernas,arrojadas. A começar pela metalinguagem, o que leva o espectador a questionar se aquilo que assistimos ocorre no “tempo fílmico real”, é uma lembrança ou uma nostalgia rememorada? 
Como Ernest Hemingway em “Paris é Uma Festa”, aquela que Woody Allen representou tão bem em “Meia Noite Em Paris” e que nos fez refletir em qual dos dois mundos gostaríamos de viver, a nostalgia, sendo ela nada mais que a fantasia ou a realidade? A quebra da “quarta parede” confere um tom confessional e aumenta a sensação de intensidade , despudor e entrega daqueles personagens aos momentos e as paixões.  A fotografia ora luminosa e solar, mas na maioria do tempo, um preto e branco elegante, quase como um retrato se não vivo, muito bem conservado. O uso de drones e câmeras no teto, a trilha sonora, clássica e atemporal(que foi responsável por dar ao filme um dos seus 4 Kikitos no Festival de Gramado).

Para um cineasta como Domingos Oliveira, as experiências, os amores, servem de combustível para a vida pra arte, já que não existe divisão entre arte e vida, amor e trabalho.  Assim, pudemos conferir as experiências que serviram de inspiração para a criação de clássicos como “Todas As Mulheres do Mundo”, um clássico do nosso cinema. Se o combustível foram essas experiências retratadas em “BR 716’ ou pelo menos, uma fração fantasiosa delas, não é de se espantar de que Domingos Oliveira tenha se tornado o melhor cineasta brasileiro. Posso afirmar, mesmo sem ter visto “Infância”, que “BR 716”, é um dos melhores filmes de Domingos Oliveira na presente década, na qual sua obra passa por uma fase nostálgica, vide “Juventude”, “O Primeiro Dia de Um Ano Qualquer”, “Infância” e este “BR 716”.  

Se a intenção de Domingos Oliveira era deixar o espectador com vontade de participar de algumas de suas festas, de alguns de seus filmes , com vontade de sonhar, posso dizer que o objetivo foi atingido com êxito, pois quero atuar nos seus filmes, ser seu amigo e frequentar as suas festas, já que sonhar não custa nada, como bem sabem os personagens deste filme.  “BR 716” é como um sonho lúcido e bom, um deleite do qual você nunca quer despertar.

Não importa mais se o que é mostrado foi real, uma lembrança, pura ficção ou um hibrido das coisas, a magia do cinema tornou tudo eterno. Corram para a sala de cinema mais próxima.














  


domingo, 22 de dezembro de 2013

Cine Holiúdy



O Longa-Metragem “Cine Holiúdy” é acima de tudo uma homenagem ao Cinema e os seus mais diversos gêneros. O filme de Halder Gomes retrata a luta do exibidor Francisgleydisson(Edmilson Filho) para manter o cinema vivo frente a popularização da TV na década de 70 no interior do ceará.


“Cine Holliúdy” é construído para ser uma grande e divertida sátira ao universo cinematográfico e cumpre seu objetivo com louvor emanando graça e magia.

O Diretor Halder Gomes aposta na simplicidade e na imaginação ao dirigir este grande e divertido tributo a sétima arte. Com uma direção de atores delicada e uma grande habilidade em compor e trabalhar os planos dotado de uma grande agilidade( não só no que diz respeito a direção mas também ao domínio da narrativa) Gomes surpreende o espectador a todo o momento pelo elemento surpresa que acomete o longa. Acontece que o diretor, tendo já brilhantemente conquistado o espectador já nos primeiros minutos de filme dado a riqueza da história, a delicada construção de cenas e o carisma de seus atores se dá o direito de ousar. Ousar em vários aspectos: No corte rente dos planos, na sobreposição de cenas e na inclusão de efeitos provenientes do desenho animado causando uma quebra na estrutura dramática e no fluxo narrativo da história.


Para administrar todas estas “quebras de fluxo” e dar sustento narrativo á história, o longa possui uma montagem paralela poderosa que mantêm o espectador inerte aquele determinado plot narrativo para depois voltar a elas. Voltando a questão da agilidade na composição fílmica , o diretor adota uma agilidade muito perspicaz nas cenas apostando em uma miscelânea de linguagens e signos audiovisuais incorporado a trucagens fílmicas e a um humor característico do ceará.

     Halder Gomes brinca com os gêneros e signos do cinema a todo o momento em “Cine Holiúdy”. Essencialmente uma comédia metalinguística e um tributo a sétima arte o longa se converte ao explorar outros gêneros incorporando-os a sua narrativa. De comédia satírica a um Road Movie passando pelo cinema de ação, o longa desafia o espectador a decodificar os signos do cinema a todo o momento se tornando uma interessante brincadeira entre o filme e os personagens- bem como ao espectador.


A fotografia do longa a cargo de Carla Sanginitto explora as belezas naturais da paisagem bem como um Road Movie exige. Utilizando um granulado na maioria do tempo que realça a beleza das imagens convertendo-as em um elemento narrativo poderoso para a construção fílmica do longa. Essa conversão fica explicita em uma cena em especial no qual Graciosa(Miriam Freeland) a esposa de  Francisgleydisson(Edmilson Filho) tem sonhos. Considerado um “Ponto de Virada” do filme estes sonhos envoltos em uma atmosfera onírica possuem um tom azulado especial para demarcar a sua importância para o andamento do filme.


O roteiro escrito por Helder Gomes tem um humor muito característico. Os diálogos e referencias possuem uma forte veia cômica acentuada. A linguagem adotada no longa(que apresenta legendas por contêm expressões características do povo cearense) é fortemente “carregado nas tintas” da comédia se tornando uma experiência engraçada, emocionante e (muito) divertida.

  
O elenco inteiro esteve exímio em suas interpretações e confortável em seus devidos papéis mas é necessário destacar quatro nomes: A começar por Edmilson Filho, a graça e o talento que o ator dispõe para a comédia que surge aqui de maneira natural aliado a sua habilidade criativa de fonética e imitação. Além disso, Edmilson a forma com que o ator humaniza Francisgleydisson nos faz embarcar no sonho do personagem de maneira impar e acompanhar sua saga vidrados no enredo do longa.


Miriam Freeland faz de Graciosa a esposa de Francisgleydisson o esteio do filme. Miriam interpreta uma mulher forte e batalhadora e ao mesmo tempo dotada de um humor muito sutil. A atriz soube trabalhar todas as nuances de sua personagem com maestria resultando em uma atuação emocionante.

Joel Gomes que interpreta Francisgleydisson Filho o filho dos personagens de Edmilson Filho e Miriam Freeland impressiona pela graciosidade e pela rapidez de sua veia cômica. Articulado e de raciocínio ágil o ator faz uma boa dupla com Edmilson além de estabelecer uma relação cênica com ele e Miriam Freeland baseada na afetividade.


Roberto Bomtempo é um show á parte do filme. Interprete do prefeito Olegário Bomtempo atua de maneira demasiada cômica e de forma deliciosamente caricatural o que cai muito bem ao personagem resultando em uma performance divertida e altamente engraçada que com o imenso talento e carisma que o ator empresta ao personagem conquista o público logo de cara.




“Cine Holiúdy” é um ótimo filme. Leve e despretensioso é uma grande homenagem a arte cinematográfica e os seus gêneros. O filme nos conquista pela sua simplicidade e emoção e nos faz querer mais. Além disso, “Cine Holiúdy” é a prova de que pode(e deve) haver uma abertura no Cinema Brasileiro para explorar outras praças além do habitual Rio- São Paulo e uma amostra do mais competente Cinema Autoral.




sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias


Muitos filmes têm tratado da temática da Ditadura Militar, mas o que me chamou atenção especialmente em “O Ano em que meus Pais Saíram de Férias” foi abordar esse tema pelos olhos de uma criança. Mauro(Michel Joelsas) é obrigado a ficar de férias com o avó enquanto os pais estão em exílio por serem militantes de esquerda.


Cao Hamburger dirige este filme semi-autobiografico investindo em algo que não é muito comum em filmes que contêm essa abordagem: A Ternura o que acaba por se tornar o principal diferencial do longa. Cao tem experiência em lidar com esse público(foi diretor do “Castelo Rá-Tim-Bum” entre outros programas destinados a este publico. Isso explica a destreza com que constrói e comanda as relações entre o Menino Mauro(Michel Joelsas) com o seu interior e os outros personagens.

Estruturando a tensão dramática de forma sutil Cao investe na direção de atores de maneira afável. A tensão dramática aqui representada pelos acontecimentos que são alheios ao protagonista Mauro(Michel Joelsas) permite que Hamburger coloque o personagem em uma situação de deslocamento. Cao capta de forma hábil as reações e os sentimentos internos do personagem principal, apostando em closes e na captura de feições puramente genuínas próprias a uma criança.

Hamburger tem preocupação em captar o universo interno do protagonista abrindo espaço para o lúdico próprio do imaginário infantil. A forma particular com que trata os anseios daquele menino envolto em uma bolha de reclusão(elemento esse ressaltado de maneira sutil pela tensão dramática) é brilhante pois a interação entre Mauro(Michel Joelsas) e os outros personagens é feita de forma gradativa abrindo espaço para a reclusão e o inevitável choque de culturas oriundo da sua relação com o judeu ortodoxo Shlomo(Germano Haiut).

Cao tem extrema habilidade de explorar cada plano ao Maximo que pode. Toda e qualquer incursão feito dentro do universo fílmico tem razão de estar ali. O roteiro é bem sucinto nesse sentido e favorece o trabalho do diretor no momento de orquestrar a narrativa. Da mesma forma, todos os personagens tem razão de estar ali tendo suas funções dramáticas bem definidas e tendo seus adendos á narrativa construídas e desabrochadas no momento certo pelo diretor. Um truque de Mestre.


Hanna(Daniela Piepszyk) a outra protagonista estimula o lúdico do personagem principal sendo a responsável por “furar” a bolha de exclusão em que o personagem se acomoda.


Apesar de “O Ano” ser um filme que aborda a Ditadura Militar, aqui ela está inserida em segundo plano e de forma sutil. O foco mesmo é a infância do protagonista Mauro(Michel Joelsas) o que da margem a uma abordagem diferenciada tratando inclusive de aspectos culturais do Brasil naquela época. A Ditadura aqui está escondida nas entrelinhas e refletida na iminência da angustiante espera do Menino por seus pais.


Michel e Daniela interpretam os protagonistas Mauro e Hanna de forma genuína com graça,talento e principalmente naturalidade.

Germano Haiut reflete em sua atuação justamente o que seu personagem Shlomo representa para o filme: Um personagem de opostos que se deixa encantar por aquele menino de maneira gradativa e sincera.




“O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” é um filme terno sobre um tema pesado. Se é que é possível que isto aconteça em um filme. Mas o fato é que Cao Hamburger conseguiu construir um filme com um olhar diferente sobre um tema já tratado anteriormente (embora não tantas vezes quanto deveria). É esse o diferencial de “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” um outro olhar mais terno sobre um tema pesado, propondo reflexão. 

  

  




terça-feira, 12 de novembro de 2013

Amarelo Manga



Ligia(Leona Cavalli), Kika(Dira Paes),  Wellinton(Chico Diaz), Dunga(Matheus Nachtergaele) e Issac(Jonas Bloch) tem suas vidas cruzadas tendo como pano de fundo um pequeno hotel no Recife.


Conheço muito pouco do trabalho do Cineasta Cláudio Assis conhecido pelos personagens marginais e pela estética repleta de hiper violência visual elementos presentes nesse ótimo “Amarelo Manga”.

Calçado na força visual para retratar(ou justificar a escória pessoal dos personagens).Assis situa o espectador naquelas situações que envolvem seus personagens marginais através de planos gerais oferecendo assim ao espectador uma visão privilegiada “Vista de Cima” da ação. Além de situar o espectador na vida daqueles personagens abjetos o diretor situa-nos naquele ambiente execrável certo de que o ambiente em que vivem tem sua “Parcela de Culpa” na personalidade daqueles personagens. Pra evidenciar o ambiente como um espelho dos personagens o diretor investe em planos descritivos e na interação ator-texto(os personagens de Chico Diaz e Dira Paes são bons exemplos disso).  Os planos descritivos representados principalmente pelos Travellings executados com perfeição que captam a sujeira visual daquelas  ruelas- aspecto ressaltado por uma fotografia igualmente suja.

Aliás , a natureza crua da fotografia realça os planos descritivos que servem como apresentação dos personagens em cenas comandadas com destreza pelo diretor Cláudio Assis que impressionam pelo realismo visual e dramático. Um excelente exemplo do elo de ligação entre a fotografia e a direção.

As cenas ganham uma certa poesia pelas mãos do diretor. Mesmo abusando da ultra violência(aqui mais visual do que propriamente física) e da sexualidade exacerbada que estão encaixadas dentro do contexto do filme. Assis converte esses elementos a favor da dramaturgia e do impacto visual de seu Longa.


Dois outros elementos também inteiramente ligados em “Amarelo Manga” são o Roteiro e a Montagem. O roteiro de Hilton Lacerda possuiu um aspecto semelhante a um recorte de modo que apresenta aqueles personagens tão dispares de modo a introduzir seus plots e deixa-lós em “Banho Maria” só pra poder emergir os personagens do “limbo dramático” no momento certo. Lacerda ainda construiu personagens marginais de transição,mutação. Estando sempre passiveis a mudar como realmente se transformam. A Montagem de Paulo sacramento sabe organizar esses plots de forma orgânica e compreensível ao espectador assim como “prepara o terreno” para os pontos de virada do filme.


O elenco realmente atua de forma visceral ,estando todos em uma espécie de incorporação de seus respectivos papéis tamanha a naturalidade com que interpretam estes tipos ambíguos. Todo o elenco está perfeito mas três nomes chamaram a minha atenção particularmente: Jonas Bloch como o necrófilo Issac pelo modo impar que conduz a patologia de seu personagem. Chico Diaz como o açougueiro Wellinton pela frieza e deste modo a profissão do personagem é um reflexo de sua personalidade que me remeteu muito ao açogueiro dos filmes “Carne” e “Sozinho contra Todos” do cineasta argentino Gaspar Noé.



“Amarelo Manga” é um filme extremamente repulsivo e ao mesmo tempo hipnotizador sendo que o espectador é intimado a assistir aquele universo execrável até o fim e assim acabando por gerar compaixão no espectador por aqueles personagens. Com este filme maldito me rendo á Cláudio Assis. 



quinta-feira, 24 de maio de 2012

2 Coelhos





 




Primeiro longa-metragem de Afonso Poyart inova ao utilizar elementos visuais em um filme de ação tipicamente brasileiro com um desfecho surpreendente.

 

Após aparentemente ter perdido sua mulher e filhas em um acidente, ser julgado por isso e condenado, Edgar (Fernando Alves pinto), retorna ao Brasil após passar um tempo em Miami com um plano para desarticular a corrupção brasileira. No meio desse processo ele se envolve com Julia (Alessandra Negrini), que se torna sua aliada. Infelizmente nem tudo sai como o esperado.

 

Afonso Poyart resolveu inovar em seu primeiro longa. Construiu um enredo de suspense e ação que se diferem dos produzidos atualmente no Brasil e também não seguem a estética hollywoodiana. 2 coelhos têm estilo próprio e o diretor Afonso Poyart utiliza referencias visuais na obra, instituindo ao filme uma estética diferenciada.

 

Lançando mão de elementos de animação, entre outros elementos gráficos, Poyart construiu um roteiro não linear e narrativo em flashback com um enredo forte e a sucessão rápida de planos, o que da ao filme uma dinâmica interessante.

O roteiro também escrito por Afonso Poyart construído de forma não linear e narrativa em flashback evidencia uma aparente quebra de continuidade na narrativa. Fato este que aliado à direção ágil que imprime ao longa resulta em um filme reflexivo com diversos sub-plots que se interligam entre si em um dado momento do longa. Poyart utiliza-se da montagem paralela para englobar os diversos sub-plots que o filme apresenta.

 

O enredo ágil e dinâmico como já dito acima, usa e abusa de palavras de baixo calão em seus diálogos e de situações em que faz uma leve sátira ao próprio cinema atual, seja ele brasileiro ou não. Com diversos enredos que se entrelaçam entre si.

A sucessão rápida de planos se encaixa perfeitamente no enredo contribuindo para os já citados dinamismo e agilidade presentes no longa. Além disso, o roteiro diferenciado e a montagem fazem o filme tomar a forma que possui.

 

O narrador over se faz presente no filme através dos pensamentos do personagem Edgar (Fernando Alves Pinto) que acaba por interligar o enredo ao espectador.

 

No elenco (que estão todos em atuações potentes), destaca-se Fernando Alves Pinto (Edgar), um papel particularmente difícil devido aos malabarismos do roteiro.

 

Alessandra Negrini também se destaca como a promotora pública Julia.

Caco Ciocler se sobressai na trama (sobretudo no terceiro e ultimo ato). Também se destacam Marat Descartes, o bandido Maicon, Neco Villa Lobos como o advogado picareta Henrique, marido de Julia (Alessandra Negrini) e Roberto Marchese como o deputado federal Jader.

 

 

O resultado de 2 Coelhos é extremamente positivo. Afonso Poyart bebeu de todas as fontes possíveis e mesmo assim conseguiu imprimir a sua marca em seu longa de estreia. O filme possuiu uma crítica à política subtendida no seu enredo. 2 coelhos é uma grata supressa no atual cenário do cinema brasileiro, inovando pela maneira de trabalhar elementos já utilizados anteriormente.

 


 



quarta-feira, 9 de maio de 2012

Paraisos Artificiais





Paraísos artificiais foca em um tema muito discutido sempre, mas que atualmente tem recebido atenção especial no cinema nacional atualmente: As drogas. E o foco dado ao tema acontece das mais variadas formas. No longa de marcos prado, o foco dado é o da relação jovens-drogas, tendo como palco o universo da musica eletrônica.







O filme aborda a vida de três jovens: o jovem Nando (Luca Bianchi), envolvido com o trafico internacional de entorpecentes, a DJ Erika, uma jovem mãe solteira e Lara (Lívia de Bueno), amiga de Erika com quem acaba tendo uma relação que transcende os limites da amizade.







Constituído em flashbacks, o filme possui um prólogo que mostra o que ocorreu dois anos antes do tempo fílmico-quando o filme inicia de fato. Nele é mostrado Nando (Luca Bianchi) saindo da prisão onde cumpriu pena por trafico internacional de entorpecentes e Erika (Nathalia Dill) como uma DJ de relativo sucesso e jovem mãe solteira.







Já no tempo corrente é mostrado o encontro dos personagens Erika, Nando, Lara e Patrick (Bernardo Mello Barreto) em um festival de musica no nordeste brasileiro. Nando preocupa a mãe Márcia (Divana Brandão) e o irmão Lipe (César Cardadeiro) com seus negócios escusos.







A narrativa do filme é feita de maneira diferente: em modo flashback, o que causa certo estranhamento no inicio, mas é um dos seus grandes acertos depois que você compreende o enredo. Com suas idas e vindas no tempo, com um frequente uso de flashbacks para evidenciar o ponto de vista dos personagens, sendo que cada um trás contribuições importantes ao enredo.



O enredo provocador é mérito da direção dinâmica de Marcos Prado e do roteiro de Cristiano Gualda, Pablo Padilla, além do próprio Marcos Prado. A opção de começar o filme pelo final com um frequente uso de flashbacks com uso de montagem paralela para englobar os mais diversos núcleos dramáticos, de modo descresente até chegar ao clímax final.



A montagem paralela, frequentemente utilizada em todo o filme fica evidente nas cenas dos efeitos do uso de ecstasy. Enquanto Erika (Natalia Dill) vive os picos de excitação da droga durante uma cena de sexo (cenas de sexo alias são frequentes em todo o filme, muito bem cuidadas sem nunca pesar a mão, mais um mérito para Prado), Lara (Lívia de Bueno) vive os efeitos devastadores do uso dos entorpecentes.







O diretor Marcos Prado dirige o filme de modo que se monte um quebra-cabeça na mente de quem assiste: é preciso ficar atento a todas as manobras do roteiro e da direção para não ficar perdido.



A trilha sonora é um elemento essencial no filme e não decepciona, trazendo variados estilos de musicas dentro da cena eletrônica, condizente com o universo ficcional do filme.







A fotografia a cargo de Lula carvalho acompanha a vibe do filme utilizando de planos gerais e cores vivas e vibrantes em suas lentes, mas a fotografia fica desfocada em alguns momentos como nas cenas de transe das personagens Erika (Nathalia Dill) e Lara (Lívia de Bueno), porém isso é proposital já que a cena pede esse desfoque. Importante salientar também, o jogo de luzes utilizado por carvalho nas cenas da rave.







O elenco possui muitos destaques, a começar por Nathalia Dill, neste que arrisco dizer é o papel mais ousado da sua carreira até agora. Ela trabalhou bem as diversas nuances da sua personagem: De um lado uma jovem mãe de família, de outro a DJ descolada e liberal.



Lívia de Bueno impressiona pela veracidade que deu a jovem Lara. Bernardo Mello Barreto se destaca como Patrick, sua presença é sempre marcante nas cenas das quais participa, sem, entretanto ofuscar os demais atores. Roney Villela marca presença como o hippie Mark, responsável pela viagem psicodélica das protagonistas. César Cardadeiro como o jovem Lipe, irmão de Nando (Luca Bianchi) é outro que tem merecido destaque, sobretudo no terceiro e ultimo ato, quando seu papel, ganha maior intensidade dramática. Porém é Luca Bianchi quem tem o maior destaque já que o seu personagem é o que apresenta maior curva dramática e ele se mantém sempre com uma interpretação excelente.







Paraísos artificiais é uma grata supressa no universo cinematográfico brasileiro. Com uma direção, roteiro e elenco afinados. Não é didático e em nenhum momento procura passar uma lição. Pelo contrario, apoia-se apenas em intensos personagens para contar uma historia comovente, além disso, revela-se um painel realista da juventude.