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domingo, 20 de novembro de 2016

BR 716




Em dado momento de “BR 716”, o protagonista Felipe(Caio Blat) diz algo como “Eu não sei o que vivi ou imaginei”. É bem assim que se desenrola “BR 716”, o novo filme de Domingos Oliveira. Como uma doce e intensa lembrança, com todos os ingredientes contidos nessa deslumbrante memória convertida em um belo filme.

Espécie de auto ficção sobre a juventude de Oliveira nos anos 60, onde tudo o que tinha era um belo e espaçoso apartamento na RUA Barata Ribeiro em Copacabana, amigos, amores e o desejo de ser escritor, “BR 716” é um filme festa. Intenso, fugaz, nostálgico, vivo e atual, muito atual.


Como todo “filme festa”, BR 716” é dotado de intensidade e agilidade em todos os momentos. Seus personagens aproveitam as famosas festas de Felipe(Blat) para viver o momento como se fosse o ultimo. Nesse terreno, os personagens vivem tudo a flor da pele, a plenitude do momento. Amores, paixões, ambições, desavenças e ideologias, sejam elas políticas ou artísticas. O Longa, dotado de uma vivacidade impressionante, reflete bem o “Seize The Day” e sua filosofia hedonista ao máximo. Constituído de pequenos fragmentos, "BR 176” se revela um mosaico, um pequeno retrato daqueles personagens essencialmente e excessivamente bêbados,envoltos naquele terreno, onde vivem, sentem e aproveitam cada segundo como se fosse o ultimo. Como se fosse preciso viver cada momento, de cada festa e eternizar lós. Como se os momentos fossem pó que escorrem da palma da mão.


Domingos Oliveira é do tipo de artista que não separa o amor da arte, o trabalho da vida. Tal qual  François Truffaut, Woody Allen e Roger Vadim, só para citar alguns. E assim como os filmes destes acima citados, “BR 176” exala paixão e poesia. Oliveira envolta seus personagens essencialmente e excessivamente bêbados- de álcool e de paixão, numa atmosfera de embriaguez e num mundo á parte.  Mas não confunda, “mundo á parte” com alienação. Pelo contrário, a revolução de Felipe e sua turma se dá através da arte, da poesia, do amor e ás vezes, da política, tal qual o jovem trio protagonista  de “Os Sonhadores”.

Envolto nessa atmosfera de embriaguez do álcool e das paixões, Domingos Oliveira instala e desnuda seus personagens com tamanha delicadeza e poesia, munido de movimentos de câmera circulares e panorâmicos. Assim, o diretor nos proporciona cenas de tamanho deleite. Como se o que estamos assistindo não fosse “real”, como se estivéssemos em um sonho e pudéssemos acordar a todo o momento mesmo não querendo.  Oliveira capta a intensidade de cada segundo da paixão que acomete seus personagens naquela atmosfera de embriaguez, captando e revelando a beleza de seus corpos em uma dança, a beleza de seus rostos, apostando em closes de tamanha beleza de seu elenco que iluminam, dominam e encantam a tela. Como os personagens de Sophie Charlotte, Glauce Guma(Melhor atriz coadjuvante em Gramado merecidamente. Pois interpretou com brilhantismo uma personagem que vive na linha tênue entre a paixão e a loucura), Maria Ribeiro, Gabriel Antunes e Álamo Facó. Maria, Caio,Sophie e Álamo interpretam um duelo amoroso que nasce e morre, pra depois renascer em outros rostos, pois assim são as paixões que nascem naquele terreno, naquela atmosfera que é o apartamento de Felipe, fugazes e efêmeras. Mas que seja eterno enquanto dure.

A câmera de Oliveira capta esses momentos, tanto os da alegria esfuziante da festa(os personagens passando por baixo de uma corda é impagável), quanto os de entrega de amor, do sexo, da embriaguez, das discussões políticas e das crônicas de bêbados de personagens totalmente embriagados, de álcool , de amor, de filosofia e de poesia como um voyeur, um voyeur da própria festa, ali a espreita observando a própria vida renascer diante da câmera, para depois brotar na tela. Momentos estes que o cineasta captura com destreza e agilidade, antes que sejam tomados por outros, como de fato sempre são. Tamanha a quantidade de histórias, tramas, discussões e amores que nascem naquele apartamento e nos arredores da onde os amores de Felipe e sua turma nos levar. Domingos mergulha nas histórias de amores, ideologias, emoções e discussões filosóficas sobre amor, arte e vida com tamanha intensidade para depois submergir em rápidos e intensos mergulhos em seu baú de memórias que se tornou ficção.

O Cineasta construiu um filme moderno, arrojado, intenso e vivo. Seus personagens e seu filme são dotados de uma jovialidade, de um frescor e de um despudor impressionantes. Só quem carrega a juventude na alma como Domingos Oliveira poderia construir personagens e um filme tão intensos e frescos quanto esses.

A vertente pela qual a obra de Domingos Oliveira é mais conhecida, a verborragia, se faz presente em altas doses em “BR 716”. Poesias, filosofias, amores, declarações, ideologias e lamentos saem da boca de seus personagens de forma entregue e apaixonada, com um despudor característico que só o álcool, de preferência, whisky bebido como água, a ressaca e as lembranças que restam da noite anterior no dia seguinte podem proporcionar.


Oliveira, um jovem na alma tal como é, não se contentou em retratar a juventude da sua e de todas as épocas em “BR716”, o diretor também adotou escolhas estéticas que podem ser consideradas modernas,arrojadas. A começar pela metalinguagem, o que leva o espectador a questionar se aquilo que assistimos ocorre no “tempo fílmico real”, é uma lembrança ou uma nostalgia rememorada? 
Como Ernest Hemingway em “Paris é Uma Festa”, aquela que Woody Allen representou tão bem em “Meia Noite Em Paris” e que nos fez refletir em qual dos dois mundos gostaríamos de viver, a nostalgia, sendo ela nada mais que a fantasia ou a realidade? A quebra da “quarta parede” confere um tom confessional e aumenta a sensação de intensidade , despudor e entrega daqueles personagens aos momentos e as paixões.  A fotografia ora luminosa e solar, mas na maioria do tempo, um preto e branco elegante, quase como um retrato se não vivo, muito bem conservado. O uso de drones e câmeras no teto, a trilha sonora, clássica e atemporal(que foi responsável por dar ao filme um dos seus 4 Kikitos no Festival de Gramado).

Para um cineasta como Domingos Oliveira, as experiências, os amores, servem de combustível para a vida pra arte, já que não existe divisão entre arte e vida, amor e trabalho.  Assim, pudemos conferir as experiências que serviram de inspiração para a criação de clássicos como “Todas As Mulheres do Mundo”, um clássico do nosso cinema. Se o combustível foram essas experiências retratadas em “BR 716’ ou pelo menos, uma fração fantasiosa delas, não é de se espantar de que Domingos Oliveira tenha se tornado o melhor cineasta brasileiro. Posso afirmar, mesmo sem ter visto “Infância”, que “BR 716”, é um dos melhores filmes de Domingos Oliveira na presente década, na qual sua obra passa por uma fase nostálgica, vide “Juventude”, “O Primeiro Dia de Um Ano Qualquer”, “Infância” e este “BR 716”.  

Se a intenção de Domingos Oliveira era deixar o espectador com vontade de participar de algumas de suas festas, de alguns de seus filmes , com vontade de sonhar, posso dizer que o objetivo foi atingido com êxito, pois quero atuar nos seus filmes, ser seu amigo e frequentar as suas festas, já que sonhar não custa nada, como bem sabem os personagens deste filme.  “BR 716” é como um sonho lúcido e bom, um deleite do qual você nunca quer despertar.

Não importa mais se o que é mostrado foi real, uma lembrança, pura ficção ou um hibrido das coisas, a magia do cinema tornou tudo eterno. Corram para a sala de cinema mais próxima.














  


quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Café Society


Lançando um filme por ano, Woody Allen tem o que chamamos de Estilo, ou “Cinema de Autor”, se preferirem. Suas histórias podem mudar, a ambientação pode mudar, pode ser Londres, Roma, Paris ou Los Angeles e a sempre amada e admirada Nova Iorque- como neste caso. Mas o fato é suas histórias continuam basicamente as mesmas na essência: Personagens neuróticos, entrechos amorosos, reflexões sobre o sentido da vida ou a busca pelos sonhos e objetivos.

Mesmo retrabalhando temas, Allen consegue fazer eles soarem frescos, e ainda magicamente encantadores. É o caso de “Café Society”, que se passa em 1930, durante a Era de Ouro de Hollywood.


O Jovem Bobby(Jesse Eisenberg), cansado da rotina na joalheria da família em Nova Iorque, quer se tornar um famoso roteirista em Hollywood, o que faz a mãe do rapaz, Rose(Jeannie Berlin), implorar ao tio do rapaz- e irmão desta, Phil(Steve Carell) por uma chance. Só que Bobby se apaixona pela secretária deste, Vonnie(Kristen Stewart), enquanto ela se apresenta a cidade ao jovem sonhador.


Woody Allen não mentiu quando disse que “Café Society” era como um romance, e que por está razão era o narrador da trama, desse romance. Café Society é um filme simples, mas mágico,delicioso e extremamente agradável de se assistir. Ouso dizer que é seu melhor filme desde “Meia -Noite em Paris”. O filme estrelado por Owen Wilson continua sendo o meu favorito de Allen, mas esse estrelado por um talentoso Jesse Eisenberg chegou perto, bem perto. Já garantindo um lugar entre meus favoritos.

Estruturado como um retrato, um recorte, ou mesmo como disse o próprio diretor, um romance sobre a vida de Bobby, “Café Society” é um filme sobre o fascínio, sobre o sonho dourado(afinal, a grama do vizinho é sempre mais verde, ou pelo menos aparenta ser. O longa é como aquele livro absolutamente encantador que você não quer que acabe, com aquele personagem que parece ser seu alter ego de tanto que nos identificamos com ele.

Woody construiu uma história repleta de magia, encanto e glamour. Ao assistir ao filme embarcamos numa atmosfera glamorosa de sonho. O sonho americano das mansões de Hollywood, das festas, das negociações, do ar estrelado, da magia do cinema de estrelas e diretores como Billy Wilder e Rudolph Valentino de um lado, a magia da Café Society, de outro, onde Bobby encontra o seu lugar ao sol. Allen pode rodar o mundo, Roma, Paris,Londres ou Barcelona, mas acaba sempre retornando ao seu lugar de origem. Ah, Nova Iorque, sempre Nova Iorque.


   Allen estruturou muito bem o seu enredo. De um lado, a era de ouro de Hollywood, de outro a típica família judia neurótica levemente disfuncional com seu humor irônico, sarcástico e mordaz característico. Tudo isso, unida a uma versão romanceada e satírica da máfia da época, através do irmão de Bobby, Ben(Corey Stoll).

De fato, Woody revisitou antigos trabalhos nesse novo filme. Do encanto com sonho dourado, ter uma profissão que não a sua, viver em um lugar- ou época que não os seus, remetem a “Meia-Noite em Paris”, o cinema e suas estrelas como modo de fascínio e entretenimento de “A Rosa Púrpura do Cairo”, do mundo das artes colidindo com a máfia de “Tiros Na Broadway”, ou ainda a magia e o encanto meio inocente de uma época vista com muito glamour como “A Era do Rádio”.


Allen imergiu o espectador em um universo mágico priorizando sua história muito bem construída, com pontos bem amarrados que se interligam, cuja estrutura remete ao clássico “Se Meu Apartamento Falasse” de Billy Wilder(observem o clímax do filme). Tudo isso somado a  conjunto de fatores que vão desde a montagem episódica, a belíssima fotografia que mescla um azul solar, com o dourado próprio do glamour entre outros tons, aos atores e a direção e o roteiro de Allen, que como sempre prioriza a dinâmica ator-texto, abusa dos closes e dos planos de conjunto.


O humor de situação,involuntário, mordaz, sarcástico e irônico de Allen se faz presente com Jesse Eisenberg assumindo o clássico alter ego do diretor mais uma vez. O ator faz de Bobby, um autentico jovem idealista e sonhador, mesclando a visão inocente do personagem sobre o mundo de glamour a qual sonha pertencer com um humor sarcástico, brilhando em situações em que Bobby falava com uma sinceridade desconcertante ou simplesmente agindo. O humor aqui, como grande parte dos trabalhos de Woody Allen, surge naturalmente das situações, sem grande esforço. Muitas vezes o personagem não falava nada, apenas uma pequena ação ou a constatação de um fato já provoca gargalhadas.

Os personagens estão em processo de construção ou desconstrução durante o filme. Assim, é delicioso ver Jesse Eisenberg(Bobby), Vonnie(Kristen Stewart) e Veronica(Blake Lively) e Phil(Steve Carell), desconstruírem as “personas” de seus personagens, ou apenas demonstrando novas facetas desses personagens, que afinal de contas são seres humanos, e a observação- por vezes sarcástica da alma humana é uma das matrizes da obra de Woody Allen. Talvez por isso o diretor tenha o amor e os inevitáveis encontros e desencontros amorosos como uma de suas marcas. Pois quando amamos, a alma humana fica naturalmente vulnerável, permitindo enxergar o seu interior com facilidade.


Por fim, “Café Society” é uma viagem deliciosa e mágica que Woody Allen nos proporciona. Ao nos fazer viajar para a era de ouro de Hollywood e para a efervescência da Café Society e acompanhar os sonhos de Bobby em meio ao glamour, Woody nós dá uma passagem para um universo encantador. Uma pena que a viagem é curta, como um bom livro que não conseguimos largar antes do fim, e quando acabamos, ficamos com gosto de quero mais.  Obrigado Woody, por mais uma viagem mágica, encantadora, sensível e delicada aos sonhos.     





  

domingo, 27 de março de 2016

Batman vs Superman: A Origem da Justiça


Uma das coisas que mais me incomodavam nos personagens da DC Comics é que eles eram muito “perfeitos”. Eles não tinham até então, problemáticas reais , erros, defeitos como todos nós. “Em Batman vs Superman: A Origem da Justiça” os personagens são humanizados, tonando-os mais interessante aos olhos do público.

O conceito de moralidade , dos “dois lados de uma mesma moeda” , permeia todo o filme. Bruce Wayne/Batman( Ben Affleck)e Clark Kent/Superman(Henry Cavill) estão de lados opostos com um cada um responsabilizando o outro pelas consequências que seus atos trouxeram para a sociedade. Porém , eles tem uma ameaça em comum:Lex Luthor(Jesse Eisenberg) que pretende usar a Krypitonita de um navio naufragado em seus planos, forçando assim os dois heróis a superarem as diferenças e lutarem juntos pelo bem comum.
O filme pode ser classificado tanto como uma narrativa de grande impacto visual, quando um grande estudo de personagens que fogem do maniqueísmo, desconstruindo uma “perfeição aparente” que costumamos ver nos personagens dos quadrinhos.

Zack Snyder dirige o filme com grandiosidade,destreza e agilidade  impressionantes Dando as sequencias de ação , o impacto , o dinamismo e a força bruta que elas exigem. Tudo na tela parece grandioso- e realmente é.

Com  uma atmosfera densa e soturna, auxiliada é claro, por uma excelente fotografia, o cineasta imprime um clima sombrio e de violência ao longa metragem no qual o realismo cênico das cenas impressiona. Apostado em cenas longas e cortes bruscos.  O resultado é uma narrativa visualmente instigante que impressiona não só pelo retrato sombrio de suas lentes , mas sobretudo pela capacidade de surpreender o público a todo o momento com elementos surpresa de grandiosidade, potencia visual e sonora ao nível máximo. Fazendo os desprevenidos pularem da cadeira a cada ataque inesperado.
 Sim, há destroços, há catástrofes e explosões(observem uma das sequências finais do filme), mas tudo é grandioso mas veromissel, por mais fantástico que o filme possa ser(afinal, estamos falando de super-heróis), o que quero dizer é que todas as sequências do filme, registradas de forma impactante pelo diretor que não economiza em retratar a brutalidade inserida naquele universo de forma ágil.

Por falar em brutalidade, é nos duelos corpo a corpo dos heróis que Snyder , um admirador do culto ao corpo se sai melhor .Nas cenas de luta, comandadas pelo diretor de forma excepcional é que podemos evidenciar não só o impacto da força bruta dos personagens, com duelos de tirar não só o fôlego mas também sangue e faíscas. Lá além de observarmos pela primeira vez a força dos personagens , percebemos também os seus diferentes conceitos de moral. Com um Bruce Wayne /Batman (Ben Affleck) , sanguinário , mas também amargurado e solitário e um Clark Kent/Superman(Henry Cavill) idealista e ético(seguindo sua própria ética, é claro).

Essa questão da moralidade e da ética é uma questão que percorre toda a narrativa. Evidenciando os dois lados , “Batman VS Superman” é um filme de opostos. Opostos esses muito bem caracterizados por Snyder na sua competente forma de dirigir , evidenciados pela montagem eficiente, imprimidos pela competente dupla de roteiristas Chris Terrio e David S. Goyer e defendidos por Affleck e Cavill de forma competente e verdadeira.

Mas os heróis desse filme, são personagens em camadas. Como se Batman e Superman fossem só mais uma das muitas personas de Bruce Wayne e Clark Kent. O Wayne impressionante de Affleck é sim um sanguinário, sim um milionário solitário com uma certa amargura, alguém que só no Mordomo Alfred de um Jeremy Irons seguro e inspirado confia. Bruce é um milionário amargo, solitário que começa a repensar as consequências mesmo que indiretas dos seus 20 anos de atuação como o homem-morcego de Gothan. Mas também é um milionário que sabe aproveita as boas coisas da vida, galanteador, principalmente diante da misteriosa Diana Principe(Gal Gadot). Affleck calou lindamente a boca dos hatters que protestaram contra sua escalação como o homem-morcego, construindo um personagem cheio de nuances e narrativamente mais interessante que o Superman da Cavill. Louco pra ver ele no filme solo do Batman que ele vai atuar, dirigir e escrever o roteiro. Além de bom ator, Aflleck é um talentoso roteirista e diretor(vide “Gênio Indomável” e “Argo”).

Jeremy Irons como o Mordomo e confidente Alfred , sábio para aconselhar Bruce/Batman mas estrategista e inteligente o suficiente para tomar o comando da ação quando necessário, e a bela e destemida jornalista Lois Lane de Amy Adams funcionam como a consciência de Batman e Superman respectivamente, os levando a refletir sobre as consequências de suas ações, sejam elas boas ou ruins. O Único personagem que não apresenta uma “outra face” é Lex Luthor , o maníaco inimigo do Super-homem e do Batmam por tabela. O Personagem não possui uma “outra face”, o que não quer dizer que o Vilão defendido por Jesse Eisenberg de forma brilhante não tenha camadas. Só que a sua loucura e insanidade está presente ali a todo o momento, desde o inicio. O Personagem não tenta esconde-la com uma outra persona, pelo contrário mostra ela a todo o custo, o que garante alguns dos melhores momentos de humor do longa metragem. Sua personalidade louca e insana só se agrava ao longo do filme até seu clímax.

No fim , Zack Snyder e sua equipe e elenco fizeram de “Batman VS Superman: A Origem da Justiça”, um filme bom , muito bom. Visualmente,tecnicamente e narrativamente falando. Só senti falta de duas coisas: A edição poderia ter um pouco mais de dinamismo, isso teria tornado o filme ainda mais empolgante do que já é. Mas a bela direção de Snyder faz esse trabalho com maestria , mas não custava nada uma ajudinha né? E de uma cena pós créditos. Mas a falta dela é proposital. Para aumentar nossa ansiedade para o filme da Liga da Justiça.




domingo, 14 de junho de 2015

Aloha


Acho que ninguém esperou tanto “Aloha”(Sob o Mesmo Céu no Brasil) quanto este que vos escreve. Fã confesso e admirador incondicional do trabalho do cineasta Cameron Crowe( que rendeu até um fan film sobre sua obra(veja no fim da página), minhas expectativas para este novo filme estavam potencialmente altas.

“Aloha” nos apresenta a Brian Gilcrest(Bradley Cooper), um piloto da aeronáutica a quem é dada uma nova chance de recomeçar no Hawaii após falhar na sua ultima missão.

Todo o estilo cinematográfico de Cameron Crowe está presente em “Aloha”. Personagens uncool, frases marcantes, trilha sonora afinada(embora aqui ela assuma uma vertente mais intimista, o que requer atenção para nota-lá). Incluindo ainda, citações a cultura pop e uma criança carismática com inteligência emocional acima da média, Mitchell(Jaeden Lieberher).

A diferença deste novo trabalho dos demais filmes de Cameron Crowe é que o cineasta segue seu estilo, incluindo elementos conhecidos de trabalhos posteriores ao mesmo tempo que o subverte.

Dessa vez,o silêncio tem o mesmo peso que os diálogos na narrativa, resultando em um filme mais contemplativo, sensorial e intimista, a exemplo do seu trabalho anterior , “Nós Compramos um Zoológico" só que aqui numa potência ainda mais elevada.

O longa nos introduz a um estudo de personagem, no caso o protagonista Brian Gilcrest(Bradley Cooper), são as emoções dele que nos guiam, sua jornada pessoal dita o rumo do filme.

Se a intenção de Cameron Crowe era dar um novo rumo a sua carreira, ou pelo menos se permitir experimentar, digo que ele cumpriu seu objetivo com louvor. Ao alterar o mix do seu trabalho, proporcionou ao espectador- e a ele mesmo acredito, um desafio. As sensações , os sentimentos escondidos são a matriz de “Aloha”. Dessa forma, o cineasta desafia o espectador a conhecer os sentimentos do personagem , e por que não dizer coloca o espectador em um estado de autoconhecimento a cerca dos seus próprios sentimentos.

Cameron Crowe fez aqui mais do que um estudo de personagem. Ao deslocar o já deslocado Brian(Bradley Cooper) para o Hawaii, botou o personagem em um estado de reinicio pessoal, o expondo as suas relações interpessoais e aos sentimentos do personagem, deixando-o em uma posição no qual ele deve escolher entre o antigo amor, Tracy, (interpretada por Rachel McAdams de forma excepcional. McAdams tem uma cumplicidade cênica com Cooper que exala beleza e sentimentalismo ao longa, e Allison(Emma Stone), deixa o personagem na posição de escolher entre o velho e novo. Como se os interesses românticos do personagem fossem uma analogia para os caminhos que ele deve percorrer em sua jornada pessoal. Jornada essa deveras solitária, diga-se de passagem.

A jornada pessoal de Brian se assemelha a de outro protagonista de Cameron Crowe, Drew(Orlando Bloom) de “Tudo Acontece em Elizabethtown”(2005). Aliás, os dois filmes tem muitas semelhanças. É Cameron Crowe revisitando a própria obra com outro olhar, um olhar mais maduro.

A imagem tem força dramática em “Aloha”. O fato do filme se passar na bela paisagem havaiana coloca o personagem em posição de autorreflexão e exala sentimentalismo a quem assiste. Mas não um sentimentalismo barato e superficial, o diretor consegue imprimir compaixão e ternura ao seu trabalho, proporcionando assim um festival de bons sentimentos ao espectador.

A frase “os melhores perfumes estão nos menores frascos” se encaixa com perfeição em “Aloha”. Enquanto eu assistia, impaciente como sou, fiquei a espera do “pequeno grande momento” presente nos seus trabalhos como diz um dos personagens de “Crowe´s World”, o meu curta-metragem em homenagem ao diretor. Impaciente que o tal grande momento não havia chegado e o filme já estava perto do fim. Na verdade,”os pequenos grandes momentos” estavam e estiveram ali o tempo todo, nos mínimos detalhes. a imagem e o cenário e a musica  traduzem os sentimentos não ditos, elas constituem esses tais momentos e dão a tônica do longa.

Ter o Hawaii como cenário não foi uma escolha aleatória. De certa forma, a pureza, a musicalidade e os rituais daquele povo são um combustível para a trajetória de recomeço de Brian(Bradley Cooper), sua força interior se personifica nas belezas daquele lugar paradisíaco, mesmo que pra recomeçar ele precise se livrar de algumas pedras pelo caminho. Ao mesmo tempo que Cameron Crowe presta uma bonita e singela homenagem a cultura e povo havaiano com toda a beleza, musicalidade e rituais presentes.

Todos os personagens principais são ao meu ver representação de algum sentimento na jornada do protagonista Brian Gilcrest. Allison(Emma Stone) representa muito além do interesse romântico do personagem de Cooper. Ela é a vitalidade, a novidade que faltava na vida de Brian, o problema é que ele é solitário como ele mesmo diz. Mas Allison certamente interfere na dinâmica da rotina do personagem com seu humor e personalidade solar.

Tracy(Rachel McAdams) representa aquela ligação forte do passado que ele deixou pra trás.  Woody(John Krasinki), representa o silencio narrativo, a capacidade de dizer muito não falando nada e seu rival amoroso(uma cena dotada de humor deixa claro essa opção). General Dixon(Alec Baldwin), que repete a parceria com Crowe de “Elizabethtown” representa a volta as raízes. Uma cena em particular lembra o personagem do ator naquele filme.

O sempre sensacional Bill Murray está ótimo como Carson Welsh. Sua presença ilumina a tela é do ator uma das melhores sequências do longa ao lado de Emma Stone(Allison).

Bradley Cooper está magnífico como o “uncool”/”Underdog” da vez Brian Gilcrest. O ator tem carisma e emana sentimentalismo e emoção nas nuances mais simples. A escolha de Cameron Crowe em escolher o big close para muitas das cenas dele, representa a força interna, as emoções e sentimentos do personagem. É preciso salientar a química do ator com Jaeden Lieberher  (Mitchell), o filho caçula de Tracy(McAdams) é linda de ver. Os personagens constrói uma relação afetiva muito bonita de ver, apesar das poucas cenas juntos.   É impressionante como Cameron Crowe consegue sempre crianças carismáticas em seus filmes , extraindo delas uma sensibilidade pueril e encantadora.


“Aloha” é um filme sobre segundas chances, sobre recomeços. Um filme onde a imagem possui múltiplos significados e é repleta de simbolismos. Me lembrou de dois filmes particularmente, “Boyhood” de Richard Linklater, um filme que tal como esse o diálogo, a imagem muitas vezes silenciosa e a musica tem todos mesmo peso e significado e “Encontros e Desencontros” de Sofia Coppola onde o silencio traduz sentimentos e a imagem é repleta de significados e mensagens subliminares(reparem numa cena em especial no fim do filme, representa muito bem essas mensagens nas entrelinhas)

“Aloha” é um feel good movie de primeira grandeza. Repleto de mensagens subliminares,emana sentimento , força, esperança a quem o assiste. É o filme certo na hora pra hora certa. “Aloha” é um filme edificante que reestabelece nossa fé e esperança na vida e nas pessoas. Sempre é possível recomeçar.

Muito obrigado Cameron Crowe por este lindo e reconfortante filme, valeu a espera.     



·        Pra quem é fã do cineasta, reparem numa musica utilizada no longa por poucos segundos. Nela está a prova que o diretor revisitou o próprio trabalho neste filme.


“Crowe´sWorld”, o fan film que escrevi , dirigi e fiz uma participação em homenagem ao Cameron Crowe , sua filmografia através das referências da sua filmografia presentes no seriado “Entourage”. Assistam,comentem e compartilhem. 


quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Se eu Ficar

O que acontece quando o rock e a música clássica se unem? Uma combustão no mínimo. “Se eu Ficar” , baseado no romance homônimo de Gayle Forman é a história de amor da violoncelista Mia(Chloé Grace Moretz) e do roqueiro Adam (Jamie Blackley).

Dirigido por R.J Curtier,  “Se eu Ficar” é um filme de opostos. Não só por abordar mundos completamente opostos quanto a música clássica e o rock(embora o rock não seja assim tão estranho assim para Mia, por causa de sua família), mas principalmente por balancear o melodrama, o romance agridoce e uma certa dose de humor.

Um grande acerto de Curtier enquanto diretor foi envolver o espectador na história dos personagens principais e suas personalidades antagônicas , Adam(Jamie Blackley) e sua rebeldia e melancolia e Mia(Chloé Grace Moretz) e sua doçura , entretanto se sentindo uma “estranha no ninho”. O longa serve perfeitamente como uma alegoria sobre as diferenças se prestarmos atenção.

E por falar em atenção, esse é um fator que o filme exige de seu espectador. Pelo fator da narrativa se desenrolar principalmente em flashbacks e a montagem se utilizar do cansativo-mas eficiente artifício de “idas e vindas temporais”.

A musica é o principal diferencial de “Se eu Ficar”, sobretudo o fato do diretor e sua equipe torna-la um personagem do filme, uma peça fundamental na engrenagem da narrativa.

A direção de R.J Curtier é segura e o diretor se mostra competente em criar uma narrativa que envolva o espectador na tela, demonstrando eficácia ao administrar os inúmeros flashbacks que o filme possui. Curtier demonstra uma destreza impecável ao comandar as cenas de performances musicais do longa, com uma direção ora livre porém segura( nas cenas de Adam) e uma direção intimista e poética (nas cenas de Mia).

A fotografia talvez seja o único aspecto que deixa a desejar- além é claro do final decepcionante, mas vamos deixar isso pro final do texto. Voltando a fotografia, embora as cenas com uso de um granulado que remete a um por do sol extramente belo. Por outro lado, o flashback inicial é tomado por um “nevoeiro” que torna quase imperceptível enxergarmos a cena em sua totalidade. Felizmente, nada que prejudique a narrativa.

Vou tentar falar sobre o roteiro e a música do filme no mesmo parágrafo, por acreditar que estes elementos estão extremamente relacionados no longa.

Primeiramente o roteiro. Adaptado por Shauna Cross do livro homônimo de Gayle Forman, Cross soube imprimir nas entrelinhas questões pertinentes ao público-alvo do longa tais como identidade, sonhos e perspectivas de futuro, além das diferenças.

O fato de os pais de Mia(Chloé Grace Moretz) e seus irmãos serem “roqueiros natos” e a incentivarem a seguir um caminho totalmente oposto, assim como o seu romance com Adam (Jamie Buckley) ser do tipo “os opostos se atraem”.

A construção dos personagens e a próprias referencias musicais , além é claro da trilha sonora composta de um mix de musica clássica e punk tornam-se o diferencial do filme , o impedindo de se tornar “um filme água com açúcar chato”. A trilha do brasileiro Heitor Pereira conta com nomes como Sonic Youth e The Orwells, misturados a musica clássica e as referencias vão de Iggy pop a Bad Religion passando pelos clássicos Beethoven e Bach.

Chloe Grace Moretz construi uma Mia sensível e sonhadora, porém dotada de uma forma interior imensa. Já seu parceiro de cena Jamie Buckley faz de Adam um artista rebelde mas que esconde uma certa melancolia por trás de toda aquela rebeldia e personalidade. Sem dúvida um personagem antagônico em sua personalidade e Buckley arrebentou na construção e interpretação do personagem.

Preciso deixar uma menção honrosa para Jakob Davies como o doce e precoce Teddy, “um roqueirinho de carteirinha”, e Joshua Leonard como o carinhoso pai de Mia , Denny que conserva sua alma roqueira. É através de Leonard que o filme ganha pinceladas de humor irônico, suavizando a dramaticidade da narrativa.

Não tenho muito o que falar sobre “Se eu Ficar”, até porque, ainda estou materializando o filme. mas lhe digo uma coisa: se deem uma chance de ver este filme poético e singelo que trata de temáticas universais como sonhos, diferenças e musica. Lembra-se: as vezes , os melhores perfumes vem nos menores frascos.





domingo, 24 de agosto de 2014

Sex Tape- Perdido na Nuvem



A exposição na internet da intimidade de um casal é algo corriqueiro no mundo atual, e as sex tapes podem alçar pessoas a fama, render prestigio(e estigma) mas também pode dar muita dor de cabeça. Esse é o mote principal da comédia “Sex Tape: Perdido na Nuvem” trata do tema sobre a ótica despudorada do humor.

Um casal, Annie(Cameron Diaz) e Jay(Jason Seguel) tentam “reacender a chama” após anos de casamento com uma sex tape registrando sua maratona sexual e bam , adivinhem, a tal sex tape cai em mãos erradas é claro.

Pronto. Isso é tudo o que você precisa saber sobre o filme dirigido por Jake Kasdan. Falar mais seria entregar o pouco que o filme reserva. Embora, super previsível, o filme consegue divertir – por favor não confunda isso com risadas soltas. “Sex Tape” é um filme divertido e engraçado e sem muitas pretensões.

Mas talvez esteja na falta de intenções ambiciosas a maior força do filme. abusando de toda e qualquer gag pra fazer rir e todo o tipo de efeito sonoro que possa soar cômico o fato é que o filme consegue envolver o espectador mesmo com toda a sua previsibilidade  o diretor consegue de alguma maneira tornar o seu filme uma opção atraente.

Kasdan precisa ser reverenciado em dois pontos, embora tenha nos entregado um filme mais do mesmo(nenhum trocadilho com o titulo deste blog por favor) mas sim, o cineasta soube trabalhar os clichês do gênero de forma eficiente conferindo um ritmo cômico ao longa, o tal tempo da comédia. Kasdan foi um bom diretor de atores garantindo performances cômicas interessantes do seu elenco, sobretudo do seu casal protagonista Annie e Jay( Cameron Diaz e Jason Seguel).

É Seguel, que também um dos roteiristas do longa quem tem o melhor desempenho. Atua com naturalidade e está confortável em papel mais sujo proferindo obscenidades naturalmente e trabalhando de forma confortável no humor negro. E quanto a Cameron Diaz? Bom, a atriz demora um tempo pra estar no mesmo nível cômico do colega mas desde o inicio se mostra a perfeita personificação da porque não “mulher perfeita”: Gostosa, voluptuosa, exuberante e com ótimo senso de humor. Ela e Seguel conseguem ser um casal atraente(em todos os sentidos).

Embora a ação esteja exclusivamente centrada no “dilema” dos protagonistas, o filme ainda tem espaço para que bons personagens coadjuvantes se sobresaiem. O Casal amigo Robbie e Tess(Rob Corddry e Ellie Kemper) são um bom exemplo disso que estou falando. Os atores são um espetáculo à parte no filme , com ótimas gags.

Jack Black, um comediante de primeira linha, também da o ar de sua graça com uma participação pequena mas muito divertida como o dono do site pornô “You Porn”. É hilário, a lição de moral que personagem de Black da em Annie e Jay ao falar das consequências de se fazer um vídeo pornô e citando “estrelas” do pornô caseiro como Paris Hilton e Pamela Anderson. Porra, esqueceu da Kim Kardashian. Rsrs.

E o irreparável Rob Lowe como o chefe pervertido de Annie(Cameron Diaz) em uma empresa do ramo infantil- percebam a analogia , haha. Lowe é incrível ao encarnar estes tipos tarados, pervertidos e despudorados sem nenhum juízo( quem lembra do inesquecível Eddie Nero de “Californication” , sabe do que estou falando).


No fim, “Sex Tape – Perdido na Nuvem” é uma comédia divertida e descompromissada com um tom mais “sujo” e libertário. Não parece a primeira vista atrair muito, mas ganha o espectador pelo seu notável despudor e o desenrolar interessante da sua trama. E por deus, Cameron Diaz é como vinho , fica mais gostosa a cada ano que passa.



  

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Devil´s Knot



É uma tortura psicológica e emocional ler ou assistir qualquer coisa relacionada ao caso “West Memphis Three” onde 3 crianças foram brutalmente assassinadas e três jovens foram falsamente acusados em Arkansas nos EUA.

Foi duro assistir a trilogia de documentários da HBO “Paradise Lost” , assistir ao documentário produzido por um dos acusados Damien Echols depois de deixar a prisão. E certamente, não foi fácil assistir a este caso sendo dramatizado aqui neste “Devil´s Knot” ainda que de maneira esdrúxula e excessivamente estereotipada.

Primeiro, porque a direção de Atom Egoyan começa de maneira promissora nos induzindo ao que seria um “grande filme” , ledo engano, Egoyan nos induz ao suspense com seus movimentos de câmera descritivos e uso da sonoridade, das cenas do pós crime buscando um choque no espectador mas tudo o que consegue é uma repulsa breve e uma incessante vontade de vomitar.

A forma com que o cineasta conduz o filme, conferindo um tom de fábula macabra, descaracteriza totalmente a história séria e poderosa que tinha em mãos.  A impressão que se da é que o diretor tenta suavizar o enredo e “poupar o espectador” para assim atingir maior fatia do público. Ora, é impossível suavizar algo de tamanha monstruosidade, a história do caso merecia uma reprodução digna e não uma história medrosa, rasa e com medo de se aprofundar na realidade.
É tudo retratado de forma rápida demais , não dando chances para o enredo se desenvolver como deveria. Entretanto, o diretor não deixa de chocar com o teor macabro do próprio caso que ele acrescenta aqui , mas tudo a conta gotas, superficial demais.

Além de ser raso e inconclusivo no que se propõe ao não se aprofundar na história , convertendo-a em uma novelinha mexicana, Atom Egoyan tem uma parceria na construção dessa história inverossímil dotada de cortes bruscos e superficiais: A montagem. A montagem deixa o espectador confuso pois utiliza de tantos recursos narrativos como flashbacks fora de hora que a acaba por confundir o espectador e tornar o filme uma bagunça.

O roteiro escrito a quatro mãos por Paul Harris Boardman e Scott Derrickson é o maior problema de “Devil Knot”.  Em primeiro lugar, eles- os roteiristas descaradamente privilegiam um plot da história - a da mãe de Stevie Brunch um dos garotos assassinados. Pam(Reese Withespoon) em detrimento das outras famílias.

Em segundo lugar , os roteiristas pecaram de maneira severa na construção dos três jovens acusados Damien Echols, Jason Baldwin e Jessie Miskelley (James Hamrick,Seth Meriwether e Kristopher Higgins respectivamente). Construíram um retrato estapafúrdio dos três reais protagonistas do longa. Baseando-se em clichês os retrataram como malucos e débil mentais, claramente se aproveitaram desse retrato errôneo para jogar-los para escanteio dentro da narrativa e fazer deles meros coadjuvantes dentro da própria historia. De modo que a atuação do trio não tem nem chance de se sobressair.

Paul Harris Boardman e Scott Derrickson parecem ter esquecido -ou não leram mesmo que o livro de Mara Leveritt na qual o roteiro deles se baseia ou ao menos deveria se basear, cobre o caso por um todo e da destaque a clemência por inocência dos três jovens.

Reese Withespoon e Colin Firth são os únicos a se destacar verdadeiramente. Primeiro pelo talento da dupla segundo, porque o próprio roteiro os condiciona para isso.

Reese tem uma atuação comovente como Pam Hobbs , mãe de Stevie Brunch e Colin Firth nos presenteia com sua brilhante e obstinada atuação como o investigador particular Ron Lax, obstinado em provar a inocência dos três adolescentes. Firth atua de forma segura , firme e imponente , cativando o público.

Como espectador ou como qualquer pessoa minimamente inteligente, é inaceitável o retrato do caso  “West Memphis Three” pintado aqui. Não só pela sua direção e narrativa rasas, pelo favorecimento de suas estrelas Reese Withespoon e Colin Firth ou por tentar emular sem sucesso a estética da trilogia de documentários “Paradise Lost” , mas sobretudo por sua falta de imparcialidade e por retratar Jason Baldwin , Jesse Miss Kelly e Damien Echols de maneira tão estapafúrdia, rasa e envolta em clichês.

Seria cômico se não fosse trágico, a história do caso não precisava disso e muito menos, o magnífico trabalho de Mara Leveritt não merecia tal retratação.








quinta-feira, 24 de julho de 2014

Transcendence- A Revolução


“As pessoas temem aquilo que não conseguem entender” essa é a principal mensagem da ficção cientifica “Transcendence- A Revolução” primeira incursão do aclamado diretor de fotografia Wally Pfister na direção cinematográfica e estrelado por Johnny Depp.

Will Caster(Johnny Depp) é um cientista famoso por suas pesquisas e experiências no ramo da inteligência artificial e auto consciência. Entretanto, sua fama atrai a ira de extremistas que tentam mata-lo. O que o leva a uma experiência de consciência coletiva e regeneração celular.

Em primeiro lugar, “Transcendence- A Revolução” é o filme certo em todos os aspectos. É o primeiro filme de Wally Pfister na direção e certamente ele é a pessoa certa pra dirigir um filme tão visualmente tridimensional quanto essa ficção cientifica cyberpunk. A forma com a qual Pfister introduz o visual cibernético gradativamente – mérito também dos roteiristas tornando capaz de o espectador compreender a gênese do enredo antes de desenvolver a narrativa sci-fi presente no enredo.

A direção de Pfister acompanha o ritmo do próprio filme. por isso mesmo, começa de maneira tímida, com o cineasta mantendo sua câmera a espreita , utilizando de agilidade quando necessário , mas sabendo dosar estes elementos muito bem elaborados no roteiro de Jack Paglen e transmiti-los visualmente para que o espectador compreenda a raiz da trama antes de evoluir para a ficção cientifica propriamente dita.

É impossível dissociar o trabalho de direção tão visualmente “real” com a direção de fotografia – função exercida pelo diretor anteriormente, e ainda, acredito num trabalho em conjunto entre Pfister e Jess Hall. A forma com a qual a fotografia cria a ambientação externa para que o “universo paralelo” possa coexistir é sensacional. Com cores frias e um uso habilidoso da luminosidade que a fotografia permite , se criou um ambiente, um universo onde a ficção cientifica presente no enredo pode se desenvolver de forma mais realista possível. Como o subgênero de Sci-fi na qual o filme se encaixa-o cyberpunk, o universo cibernético e online é de grande importância para o desenvolvimento da narrativa, o grafismo virtual se torna parte integrante do “real”.

Toda essa unidade cientifica onde o filme se desenvolve, ganha tons mais frios na fotografia de Jass Hall. O resultado desse trabalho de ambientação do espaço fílmico permite ao diretor Wally Pfister que consegue traduzir e incorporar na narrativa os elementos tecnológicos. A maneira com a qual o cineasta desenvolve o filme permite que os elementos ali expostos soam naturais e principalmente, Pfister consegue quebrar a “quarta parede” presente no filme permitindo assim que a inteligência artificial de Will Caster(Johnny Depp) exista, permitindo ao personagem uma existência mais visual materialmente do que só pela voz.

Um grande acerto do longa foi utilizar a tecnologia da maneira certa a favor da narrativa. Ao utilizar de computadores e outros aparelhos tecnológicos, a câmera consegue captar o grafismo virtual de forma a incorpora-la naturalmente na narrativa. O que quero dizer, é que a maneira com a qual esses elementos são captados e inseridos no filme de forma tão visceral , viva como um espelho para o mundo virtual, quebrando assim a barreira existente entre os dois mundos. As cenas são captadas de forma orgânica e natural e por isso mesmo se encaixam perfeitamente a narrativa.

Parece que coexistir traduz a experiência fílmica de “Transcendence”. Pois, além de criar este “universo inteligente” , o diretor precisou imprimir visualmente o outro extremo do filme. O dos extremistas que são contrários a experiência artificial e usam a violência para tal liderados por Bree(Kate Mara). Para tal, a direção cinematográfica e de fotografia se mostraram alinhados mais uma vez criando um ambiente hostil e evidenciando a luz natural e os granulados. A experiência é tão visceral e sensorial cinematograficamente que o menor grão se desenvolve de maneira inacreditável visualmente. Resultado é claro, das experiências de Will Caster(Johnny Depp) e muito bem recriadas visualmente. Vemos partículas se dissolverem pelo ar e regerarem literalmente. Tudo isso, aliado a um trabalho de união entre direção , fotografia , sonoridade, pois o aspecto sensorial é de grande importância para o longa e direção de atores naturalista, permitindo atuações criveis mesmo controlados por uma inteligência artificial.

Tudo parece perfeito em “Transcendence” de modo que eu não consigo entender porque o público não aceitou bem a história. Talvez porque requer paciência e necessita pensar e as pessoas tem preguiça de pensar, querem tudo mastigado.

Wally Pfister conseguiu usar de sua experiência anterior como diretor de fotografia para criar um universo tecnológico crível visualmente. Jack Paglen criou um roteiro utilizando com inteligência e destreza os elementos da sci-fi cyberpunk pura. Porém antes induziu seu espectador para o universo retratado de maneira gradual. Um acerto. Depois, desenvolveu a sci-fi e os universos presentes de forma crível e imaginativa, sempre mantendo um pé na realidade. O problema é que as pessoas não tem paciência pra esperar o filme se desenvolver. Nem tem o olhar apurado pra entender “além dos olhos” e as metáforas sobre regeneração vital muito bem colocadas por Paglen. Povo preguiçoso e alienado.

Johnny Depp volta a escolher bons papeis e mais uma vez nos mostra porque é um dos melhores atores da atualidade ao construir todas as fases do personagem com intensidade e mais, conseguir dar vida ao papel quase que inteiramente pela voz a maior parte do tempo.

Rebecca Hall faz de Evelyn Caster , a mulher de Will uma mulher totalmente multifacetada. Por um lado, ela quer recriar o marido e a atriz demonstra a obstinação do papel, por outro se revela em conflito com os caminhos da ciência e por fim, duvida do próprio marido. Em todas essas fases, Hall conseguiu dar o tom exato ao papel.

No extremo oposto, está Kate Mara no papel de Bree, personagem terrorista que vai contra os ideais de inteligência artificial. Mara expõe toda a força dominadora da personagem, sua obstinação em aniquilar muito só com o olhar. É lindo ver em uma das sequências finais do longa, a personagem “desarmar” ao ver que nem tudo é como ela acreditava. A atriz deu show.


“Transcendence” veio pra mim no momento certo no qual estou me interessando por Sci-fi principalmente Cyberpunk. E acabou se revelando um filme incrível. Por sua visceralidade visual, pela forma com a qual elabora e desenvolve seus universos, por tudo. “Transcendence” , como o próprio filme diz e é a frase de abertura da crítica, as pessoas temem aquilo que não conseguem entender.




sábado, 19 de julho de 2014

Festim Diabólico

*Contêm informações do enredo, só leia após assistir ao filme.



Desde a primeira vez que ouvi falar da trama da novela “O Rebu”, muito antes da Globo anunciar a nova versão da novela no ar atualmente, fiquei encantado pela narrativa não-linear que se passa em um único dia e rapidamente associei a este clássico de Alfred Hitchcock “Festim Diabólico”.

Embora aqui não haja o recurso do flashback presente na nova versão da novela de Bráulio Pedroso, temos temáticas narrativas semelhantes.

O filme se concentra na história de dois amigos, Brandon(John Dali) e Philip(Farley Granger) que assassinam um antigo colega de classe e dão uma festa aos amigos e familiares do falecido.

Duas coisas chamam a atenção primeiramente em “Festim Diabólico”. Primeiro é a habilidade dos roteiristas Hume Cronyn e Arthur Laurents tiveram em construir uma narrativa pautada em atos assim como a história original na qual o filme é baseada. Cronyn e Laurents construíram a ação em três tempos narrativos: O antes da festa- na qual eles cometem o assassinato, o durante a festa, que ocupa o maior tempo do filme e o depois da festa. Isso tudo sem utilizar flashbacks em nenhum momento. Roteiristas gênios e Hitchcock gênio.

Aliás, é preciso reverenciar o exultante trabalho do diretor, não é a toa que ele era conhecido como “ o mestre do suspense”. Hithcook trabalhou o suspense apostando nos closes e planos descritivos para fortalecer a tensão dramática do enredo. De fato, o cineasta demonstrou incrível destreza e inteligência cênica ao costurar o suspense da narrativa pautando-se por recursos mais simples e orgânicos como closes, movimentos de câmera como a panorâmica, além é claro, do uso potente do jogo de câmera e do uso da música instrumental tocada pelo personagem Philip( Farley Granger) em um diálogo especifico com o Sr Cadell (James Stewart) no qual o professor sonda o antigo aluno sobre o seu “brilhante feito”. Nessa cena em especifico, a música tocada por Philip ao piano eleva a tensão dramática do longa a níveis inimagináveis.

Alfred Hitchcock era mesmo um diretor com o domínio cênico. A maneira brilhante com a qual ele induz o telespectador nesse grande “jogo psicológico” que é festim diabólico – fonte que claramente beberam George Moura e Sérgio Goldenberg , autores dessa nova versão de “O Rebu”, além é claro de Bráulio Pedroso autor da novela original. Pois, a construção da tensão dramática da narrativa é alta e de semelhante efeito em ambos os casos.

A interessante observar alguns pontos no filme. Primeiro que a narrativa se desenvolve em um único ambiente e a direção de Hitchcock imprime o suspense inerte a narrativa sem entretanto torna-la engessada. Sua direção explora muito bem o ambiente cênico , reforçando o clima noir do enredo. Em segundo lugar, a inteligência do diretor em utilizar simbolismos e dar pistas ao espectador. Um exemplo disso, é o fato de Brandon(John Dali) amarrar os livros com a mesma corda que usou pra enforcar David, ou quando a câmera faz o caminho inverso e através de uma panorâmica vai da mesa de jantar(onde David- o morto está deitado no caixão) para a mão de Brandon.

Outros dois pontos importantes que pude perceber e faço questão de ressaltar. Primeiro, a destreza da construção narrativa da dupla de roteiristas que a todo o momento colocam os personagens principais em situação-limite de serem descobertos, propondo assim um jogo com o espectador e elevando ainda mais a tensão dramática. Segundo, a construção tanto dos dois protagonistas Brandon(John Dali) e Philip(Farley Granger) quanto do professor Cadell(James Stewart).

Brandon e Philip são dois personagens completamente antagônicos. Enquanto Brandon é intelectualmente forte e dominador, envolvendo seu amigo nessa “teia psicológica”, Philip é o elo mais fraco entre os dois, medroso e suscetível a pressões , estando ao passo de se entregar em vários momentos do filme.

Os atores compõe seus personagens de forma excelente , resultando em interpretações puramente naturalistas.

Sr. Cadell(James Stewart) representa a força maior nesse jogo psicológico, aquele ao qual Brandon e Philip buscam impressionar com o seu “grande feito”. Stewart interpreta o inteligente professor de maneira astuta, ressaltando a magnitude e a força e influencia dominante que o personagem exerce sobre o psicológico de Brandon e Philip.

“O Festim Diabólico”continua um clássico irreparável. Uma verdadeira aula de direção, execução e construção de uma narrativa. A destreza com o qual o filme toma forma impressiona e torna este clássico do mestre do suspense continuamente servindo de fonte de inspiração para diretores e roteiristas até hoje , mesmo estando em tempos que quaisquer ousadia narrativa já é um grande avanço, tamanha a falta de criatividade que assola os diretores e roteiristas atuais.




terça-feira, 8 de julho de 2014

O Grande Hotel Budapeste



Um deslumbre visual. Assim eu defino “O Grande Hotel Budapeste” novo filme do cineasta Wes Anderson.



“O Grande Hotel Budapeste” a principio trata das memórias de um velho concierge M. Gustave(Ralph Fiennes) contadas a um escritor (Tom Wilkinson) mas o longa vai muito além disso.


Admito que não conheço nada do trabalho de Wes Anderson mas esse “Grande Hotel” me deixou impressionado e curioso pra conhecer seu trabalho. Em grande parte pelo requinte e beleza visual imprimidas em seu longa. É admirável o inteligente uso das mais diferentes tonalidades no que diz respeito a paleta de cores que compõe a arte de um filme bem como a sua fotografia.

Embora, a primeira vista o longa possa parecer dotado de uma narrativa mais estática, é só uma primeira impressão pois Wes Anderson desenvolve seu filme como o desenrolar de um grande flashback- muito telegrafado é verdade, mas ainda assim um grande recurso narrativo.

Seu filme se desenvolve em duas bases distintas que se complementam: O Concierge M Gustave(Ralph Fiennes) contando ao escritor(Tom Wilkinson) suas aventuras e o flashback propriamente dito com as aventura de Gustavo e o jovem concierge Zero.

Adotando diferentes formas de filmar em ambos “tempos narrativos”, Anderson utiliza de uma direção mais contemplativa na primeira parte, com poucos movimentos de câmera, priorizando o plano contraplano e destacando ao máximo o exuberante cenário.
Ao passo que do segundo ato em diante, o diretor utiliza de uma forma de dirigir hiper movimentada, com trucagens e movimentos super ágeis, o que lembra muito os primeiros filmes de Tarantino e Guy Ritchie. Até a forma de desenrolar a narrativa em capítulos, lembra os filmes do primeiro acima citado.

Interessante observar a ousadia do cineasta não só por converter uma narrativa aparentemente estática e contemplativa em algo dotado de agilidade e inteligência dramatúrgica impar mas sobretudo, pela ousadia que demonstra logo no inicio do filme ao quebrar a “quarta parede” e se dirigir diretamente ao espectador, recurso que ele volta a utilizar algumas vezes durante o filme.

É preciso enaltecer o incrível trabalho de arte do longa. A maneira como constituíram o requinte da cenografia com muito brilho e “exagero” é exuberante. O uso da paleta de cores foi muito bem pensada na construção da arte pois nota-se que o uso de cores quentes e objetos refinados ajudam a carregar a importância do hotel para a narrativa do longa.

Se há algo em que Wes Anderson pecou severamente em seu filme, foi subestimar a inteligência do espectador. O fato de evocar um narrador em muitos momentos do longa o torna cansativo, sobretudo porque já estamos assistindo a uma narrativa super ágil e tal escolha de “contar a história” muito formalmente quebra a narrativa e a tensão dramática. Outro porém, são os diálogos excessivamente telegrafados, realmente não precisava mas nada que tire a beleza do filme de Anderson.



 “O Grande Hotel Budapeste” é um filme de tamanha beleza , deslumbrante, aliado a uma narrativa dinâmica ao extremo e ao carisma talento e química de dois atores excepcionais, Ralph Fiennes e Tony Revolori. Admito que estava com o pé atrás com esse filme, mas ao final lhes digo: Wes Anderson ganhou um fã e está a um passo de entrar pra minha seleta lista de cineastas favoritos. Quero mais dele.