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quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Café Society


Lançando um filme por ano, Woody Allen tem o que chamamos de Estilo, ou “Cinema de Autor”, se preferirem. Suas histórias podem mudar, a ambientação pode mudar, pode ser Londres, Roma, Paris ou Los Angeles e a sempre amada e admirada Nova Iorque- como neste caso. Mas o fato é suas histórias continuam basicamente as mesmas na essência: Personagens neuróticos, entrechos amorosos, reflexões sobre o sentido da vida ou a busca pelos sonhos e objetivos.

Mesmo retrabalhando temas, Allen consegue fazer eles soarem frescos, e ainda magicamente encantadores. É o caso de “Café Society”, que se passa em 1930, durante a Era de Ouro de Hollywood.


O Jovem Bobby(Jesse Eisenberg), cansado da rotina na joalheria da família em Nova Iorque, quer se tornar um famoso roteirista em Hollywood, o que faz a mãe do rapaz, Rose(Jeannie Berlin), implorar ao tio do rapaz- e irmão desta, Phil(Steve Carell) por uma chance. Só que Bobby se apaixona pela secretária deste, Vonnie(Kristen Stewart), enquanto ela se apresenta a cidade ao jovem sonhador.


Woody Allen não mentiu quando disse que “Café Society” era como um romance, e que por está razão era o narrador da trama, desse romance. Café Society é um filme simples, mas mágico,delicioso e extremamente agradável de se assistir. Ouso dizer que é seu melhor filme desde “Meia -Noite em Paris”. O filme estrelado por Owen Wilson continua sendo o meu favorito de Allen, mas esse estrelado por um talentoso Jesse Eisenberg chegou perto, bem perto. Já garantindo um lugar entre meus favoritos.

Estruturado como um retrato, um recorte, ou mesmo como disse o próprio diretor, um romance sobre a vida de Bobby, “Café Society” é um filme sobre o fascínio, sobre o sonho dourado(afinal, a grama do vizinho é sempre mais verde, ou pelo menos aparenta ser. O longa é como aquele livro absolutamente encantador que você não quer que acabe, com aquele personagem que parece ser seu alter ego de tanto que nos identificamos com ele.

Woody construiu uma história repleta de magia, encanto e glamour. Ao assistir ao filme embarcamos numa atmosfera glamorosa de sonho. O sonho americano das mansões de Hollywood, das festas, das negociações, do ar estrelado, da magia do cinema de estrelas e diretores como Billy Wilder e Rudolph Valentino de um lado, a magia da Café Society, de outro, onde Bobby encontra o seu lugar ao sol. Allen pode rodar o mundo, Roma, Paris,Londres ou Barcelona, mas acaba sempre retornando ao seu lugar de origem. Ah, Nova Iorque, sempre Nova Iorque.


   Allen estruturou muito bem o seu enredo. De um lado, a era de ouro de Hollywood, de outro a típica família judia neurótica levemente disfuncional com seu humor irônico, sarcástico e mordaz característico. Tudo isso, unida a uma versão romanceada e satírica da máfia da época, através do irmão de Bobby, Ben(Corey Stoll).

De fato, Woody revisitou antigos trabalhos nesse novo filme. Do encanto com sonho dourado, ter uma profissão que não a sua, viver em um lugar- ou época que não os seus, remetem a “Meia-Noite em Paris”, o cinema e suas estrelas como modo de fascínio e entretenimento de “A Rosa Púrpura do Cairo”, do mundo das artes colidindo com a máfia de “Tiros Na Broadway”, ou ainda a magia e o encanto meio inocente de uma época vista com muito glamour como “A Era do Rádio”.


Allen imergiu o espectador em um universo mágico priorizando sua história muito bem construída, com pontos bem amarrados que se interligam, cuja estrutura remete ao clássico “Se Meu Apartamento Falasse” de Billy Wilder(observem o clímax do filme). Tudo isso somado a  conjunto de fatores que vão desde a montagem episódica, a belíssima fotografia que mescla um azul solar, com o dourado próprio do glamour entre outros tons, aos atores e a direção e o roteiro de Allen, que como sempre prioriza a dinâmica ator-texto, abusa dos closes e dos planos de conjunto.


O humor de situação,involuntário, mordaz, sarcástico e irônico de Allen se faz presente com Jesse Eisenberg assumindo o clássico alter ego do diretor mais uma vez. O ator faz de Bobby, um autentico jovem idealista e sonhador, mesclando a visão inocente do personagem sobre o mundo de glamour a qual sonha pertencer com um humor sarcástico, brilhando em situações em que Bobby falava com uma sinceridade desconcertante ou simplesmente agindo. O humor aqui, como grande parte dos trabalhos de Woody Allen, surge naturalmente das situações, sem grande esforço. Muitas vezes o personagem não falava nada, apenas uma pequena ação ou a constatação de um fato já provoca gargalhadas.

Os personagens estão em processo de construção ou desconstrução durante o filme. Assim, é delicioso ver Jesse Eisenberg(Bobby), Vonnie(Kristen Stewart) e Veronica(Blake Lively) e Phil(Steve Carell), desconstruírem as “personas” de seus personagens, ou apenas demonstrando novas facetas desses personagens, que afinal de contas são seres humanos, e a observação- por vezes sarcástica da alma humana é uma das matrizes da obra de Woody Allen. Talvez por isso o diretor tenha o amor e os inevitáveis encontros e desencontros amorosos como uma de suas marcas. Pois quando amamos, a alma humana fica naturalmente vulnerável, permitindo enxergar o seu interior com facilidade.


Por fim, “Café Society” é uma viagem deliciosa e mágica que Woody Allen nos proporciona. Ao nos fazer viajar para a era de ouro de Hollywood e para a efervescência da Café Society e acompanhar os sonhos de Bobby em meio ao glamour, Woody nós dá uma passagem para um universo encantador. Uma pena que a viagem é curta, como um bom livro que não conseguimos largar antes do fim, e quando acabamos, ficamos com gosto de quero mais.  Obrigado Woody, por mais uma viagem mágica, encantadora, sensível e delicada aos sonhos.     





  

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Versos de um Crime



A poesia Beat e seu incontestável legado ecoa até os dias de hoje. Pena que o cinema só recentemente tenha conseguido compreender e traduzir a essência de obras tão magníficas. “Versos de um Crime” é um filme sobre a iniciação do movimento Beat focado nos poetas Allen Grisberg(Daniel Radcliffe) e Lucien Carr(Dane DeHann).

Primeiramente, é preciso dizer que estamos diante de um filme extremamente poético, não só pela natureza literária da fonte da onde o filme bebe mas sobretudo pois o diretor John Krokidas imprimiu uma poética visual nas imagens, potencializadas pela bela fotografia de Redd Morano dotada de um granulado forte.

Com uma direção poética e introspectiva pois Krokidas se deixa valer das belas imagens e da ótima trilha para conduzir longas cenas de introspeção , retratando a união e a criação literária dos jovens poetas beats. Com planos longos e cortes certeiros, o diretor ainda consegue imprimir uma agilidade e ritmo cênico mesmo em cenas mais longas.

Com o uso de trucagens e closes , o diretor consegue retratar a aproximação desses personagens em meio aquele cenário. Conseguindo dosar a introspecção poética própria do movimento com uma agilidade narrativa própria do formato cinematográfico e da criação literária sem entretanto perder sua essência.

Naturalmente esta crítica está caminhando para uma critica da sua parte visual alinhada a narrativa mas isso é inevitável , tendo em vista a beleza cênica pela qual o filme é composto. Com uma direção de arte requintada e fotografia idem, o filme de John Krokidas também possui uma beleza e aparato visual que exala a poética contida em sua narrativa.

“Versos de um crime” é sobretudo um filme de contemplação. A poesia contida na narrativa extrapola o pensamento dos personagens e ganha a forma de cenas muito bem dirigidas por Krokidas que além de conseguir dosar a poética de sua narrativa com um ritmo(com clara intenção de não tornar o filme algo cansativo). “Versos de um crime” é sobretudo um filme visual,de contemplação e reflexão. Há uma beleza admirável em cada cena, cada close, uma poesia visual que se aproxima dos longas da diretora Sofia Coppola.

A trilha sonora repleta de jazz , de certa forma é uma aliada na construção do universo estético na qual o filme transcorre. Dessa forma, a música se revela um componente narrativo de extrema importância pois transporta e contextualiza o espaço cênico para o espectador.


Krokidas se revela também um ótimo diretor de atores , pois consegue extrair de seu elenco uma interpretação naturalmente intuitiva resultando em grandes atuações.

Daniel Radcliffe definitivamente deixou pra trás Harry Potter ao interpretar o poeta Allen Grisberg , uma figura tão controversa com tamanha entrega. Seus colegas de cena Dane DeHann(Lucien) e Jack Huston(Jack Kerouac), os únicos além de Radcliffe que ganham potencial destaque, se mostrando atores competentes e viscerais em suas atuações.

O único porém do filme ocorre em seu derradeiro terceiro ato, onde tudo é mostrado de forma muito rápida e por isso mesmo confusa. Ainda assim, “Versos de um Crime” é um filme poético e belo sendo uma iniciação para os eventos de “On The Road” e joga luz sobre uma parte desconhecida da historia da geração Beat.





sexta-feira, 4 de outubro de 2013

A Caça



Thomas Vinterberg é um diretor afoito a temas densos como o abuso e as relações familiares temas já vistos em seu longa mais famoso "Festa de Família". Agora, Vinterberg retorna a essa temática de uma outra maneira.



Lucas(Mads Mikkelsen, ótimo) um professor recém divorciado tenta retomar as rédeas da vida e estabelecer uma reaproximação com o filho Marcus(Lasse Fogelstrom,igualmente ótimo.) trabalhando em uma escola infantil ele tem uma relação de carinho com as crianças até que uma acusação de abuso transforma sua vida em um inferno.



O diretor Thomas Vinterberg estrutura a narrativa em bases solidas e fortes ressaltando o teor sombrio que a permeia. apostando muito na dinâmica ator-texto Vinterberg extrai de seus atores performances viscerais utilizando uma câmera na Mao que adentra ou melhor alastra o filme desbravando-o. O uso constante do corte seco dilacera o horizonte de expectativas do expectador envolto naquele universo repleto de densidade e tensão dramática em nível Maximo. O jogo de câmera constante que aliado a câmera na Mao deixa a imagem obviamente tremida ressaltando o aspecto perturbador da narrativa. O fato dos movimentos de câmera meramente descritivos- Álias, muito bem executados por Thomas Vinterberg com toda a capacidade técnica que lhe cabe- a câmera aqui parece ter sempre a intenção de revelar algo , rondando sempre a espreita do inevitável. 

Com a câmera sempre em movimento, mesmo nos momentos em que está focada em algo,ela nunca está estática sempre em movimento,nem que seja mínimo. depois que a acusação de abuso é formalizada a direção acompanha a virada do roteiro  e passa a apostar em cortes ainda mais abruptos abusando ainda mais do corte seco e das elipses. A densidade já está embutida e ela decorre em níveis ora brandos e ora asfixiantes.



O roteiro tem uma forte estrutura com excelentes curvas dramáticas. O roteiro evolui numa crescente com poderoso teor psicológico e pontos de virada surpreendentes. O elemento surpresa sem dúvida é um fator determinante em "A Caça" a maneira com que Vintenberg constrói as relações entre os personagens só pra depois coloca-los em posição eminente e desconstruí-los é fascinante. Seu conhecimento sobre a carpintaria dramática é admirável sobretudo a maneira com que expõe seus  personagens em situaçoes-limite e aparentemente irreversíveis e o uso de metáforas


Agora, o mais tecnicamente impressionante em "A Caça" é a sua belíssima  fotografia. É onde os preceitos do Dogma 95 ficam mais evidentes. A iluminação natural e o contraluz funcionam perfeitamente estética e plasticamente. De certa maneira a fotografia funciona como um reflexo da intensa dramaticidade do longa.




O resultado de "A Caça" é um filme de altíssimo nível e de densidade extrema. Thomas Vinterberg nos entrega um filme de extremos. Intenso,forte e de enorme tensão dramática, Vinterberg experimenta outros caminhos para desvendar a psicologia humana.
 É impossível afirmar que este "A Caça" é ou não superior ao longa mais famoso do diretor "Festa de Família" por se tratar de temas similares mas o fato é que Thomas Vintenberg evolui na forma e na temática nos entregando um filme com características próprias mas igualmente perturbador.






quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O Bandido da Luz Vermelha




Em seu primeiro filme, “O Bandido da Luz Vermelha” Rogério Sganzela já deixava claro a sua adoração pela arte cinematográfica.

Contando a história do Bandido(Paulo Vilaça) um criminoso de incrível destreza que trava um verdadeiro jogo de gato e rato com a policia provocando medo e admiração na população da boca do lixo paulistana.



Com uma narrativa ágil e frenética o diretor construiu uma obra ao mesmo tempo autoral e referencial ao mesmo tempo. Com influencias dos gêneros policial e Noir, Sganzerla produziu um filme que representava a sua leitura desses gêneros combinando agilidade a uma estética propositalmente suja e utilizando-se de um anarquismo e uma acidez na construção dos diálogos e das situações. Ao construir as situações em que o Bandido se envolvia o diretor não temeu exagerar na dose adicionando comédia pastelão, humor negro, sensacionalismo barato e situações non-sense pois ao descaracterizar totalmente o gênero Sganzerla deu uma nova costura e garantiu sua marca própria ao seu filme.

O sensacionalismo barato citado acima é mais uma das brincadeiras de gênero que o diretor propôs no seu longa. Ao adicionar uma narração própria dos programas policiais o diretor promove um resgate do gênero aqui utilizado de forma cômica e satírica desconstruindo-o ao optar pelo exagero proposital e  um sotaque carregado dos narradores com muito humor-intencional diga-se de passagem- o diretor consegue que a narração atinja dois objetivos distintos: imprima uma espécie de frenesi ao longa e carregue o nível de humor satirizando os próprios signos da sétima arte.

O longa é essencialmente o intenso jogo de gato e rato que decorre entre o bandido o diretor imprimiu um dinamismo impressionante nas sequencias além de uma boa dose de humor escachado é claro, isso contribui para manter o espectador ligado no enredo durante sua uma hora e meia de duração.



A grande diferença está na forma que Sganzerla trabalha esses clichês convertendo-os ao seu tributo de forma pessoal estilística e principalmente autoral.
Munido desse arsenal de referências Sganzerla prestou tributos ,citações e fez críticas acidas(sempre de forma satirizada é claro) ao cinema novo e a estilização das artes como um todo.

Quantos aos tributos inseridos aqui de forma muito inteligente diga-se de passagem,

pode-se notar claramente referências ao “Acossado” de Jean-Luc Godard e a “Psicose” de Alfred Hitchcock. Ao primeiro pode se perceber tanto pela estética e plástica de ambos os filmes,os trejeitos dos protagonistas e algumas cenas similares. Do segundo a referência é clara quando o Bandido(Paulo Vilaça) literalmente faz uma vitima em baixo do chuveiro,tal qual a famosa cena do longa do diretor inglês.



O diretor adotou um modo de direção ágil e com muito frenesi, com cortes secos e sobreposições além de jogos de câmera habilidosos e movimentos de câmera descritivos mantendo o nível de suspense combinado com o frenesi e a agilidade latente.



O resultado de “ O Bandido da Luz Vermelha” é um filme divertido, estilístico ,pessoal e com ótimas sacadas. Não importa o que você faz mas sim a maneira como você faz diferente.
 



    

sábado, 20 de abril de 2013

Jogada de Risco




 Ambientado no mundo dos jogos de azar e dos cassinos “Jogada de Risco” primeiro longa metragem de Paul Thomas Anderson acaba revelando não só um brilhante diretor, mas temas que marcariam seus trabalhos subsequentes.


John Finnegan (John C. Reilly) é um jogador azarado que acaba de perder tudo após uma noite em Las Vegas. Entretanto, John que acaba de perder a mãe e precisa pagar o seu funeral encontra em Sydney (Philip Baker Hall) um expert em jogatina o mentor que precisa. Agora um jogador experiente John se mete em uma verdadeira jogada de risco ao se envolver com Clementine (Gwyneth Paltrow).

O primeiro longa de Paul Thomas Anderson (realizado em função do prêmio recebido no festival de Sundance por seu curta-metragem “Cigarettes and Coffee”) revela-se um trabalho bem realizado esteticamente e com um roteiro primoroso.

Com duas partes distintas, “Jogada de risco” se estabelece na sua primeira metade como um filme plano-sequência apostando em planos descritivos com um movimento circular habilidoso e planos mais fechados de maneira a privilegiar os atores e o texto primoroso que tinha em mãos. Com planos de longa duração o diretor consegue ainda assim embutir agilidade narrativa ao longa.

(Com um interessante jogo de câmera Paul acaba fazendo um uso inteligente do zoom ao utilizar isso para destacar determinado ator e seu respectivo personagem em cena.)

Na segunda parte do filme Paul insere ao longa alguns poucos cortes e sobreposições de planos sem, entretanto deixar de privilegiar a dinâmica “ator-texto” ao longo de todo o filme.

Mesmo na segunda parte quando o filme ganha ares de policial a violência não é algo que predomine na narrativa aparecendo apenas de maneira implícita na maioria do tempo.

O roteiro de Paul Thomas Anderson é essencialmente calçado nas relações interpessoais que cercam os personagens. Paul concentrou suas forças em construir diálogos poderosos de modo que a as relações que cercam os personagens e á própria trama se tornasse crível. Outro aspecto interessante a ser analisado é que a música é utilizada aqui como um elemento narrativo de modo que auxilia o desenrolar da trama como pano de fundo.

Por falar em música, ela exerce aqui um papel essencial como já foi dito. Anderson controla a música de modo a elas exercerem impacto sobre as cenas de maior e menor tensão dramática. Assim, nas cenas de menor tensão a música funciona apenas de pano de fundo e nas cenas de maior tensão a música se sobrepõe aos diálogos dando o tom á cena.
Anderson investiu forte em uma mistura de Jazz e Blues que se encaixam perfeitamente ao cenário enérgico e virtuoso que compõe o filme.

John C. Reilly e Phillip Baker Hall encabeçam o elenco, construindo uma relação fraternal e verdadeira entre seus personagens. Philip imprime uma segurança cênica no seu personagem do inicio ao fim do filme, construindo um personagem forte, carregado e ao mesmo tempo dotado de muito controle psicológico. John ao contrário expõe um personagem em “ciclo de crescimento”. John começa o filme imprimindo ao personagem uma atuação comedida e vai se “soltando” gradualmente sobretudo após a segunda parte onde a timidez inicial da lugar á uma atuação expansiva.

Gwyneth Paltrow constrói sua personagem Clementine com a força dramática que o papel exige. Tendo em mãos uma personagem ambígua e essencialmente marginal Gwyneth carrega sua personagem com tintas fortes. É interessante salientar também que Gwyneth se encaixa perfeitamente entre seus colegas de cena John C. Reilly e Phillip Baker Hall. A atriz se iguala rapidamente ao mesmo nível cênico de seus colegas, atuando de igual pra igual.


O debut de Paul Thomas Anderson como diretor é uma produção caprichosa e um filme muito bem executado tanto do ponto de vista técnico quanto narrativo. É interessante observar que em “Jogada de Risco” permeiam temas e inovações técnicas que se tornariam recorrentes á sua obra.










quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Tropa de Elite 2 : O Inimigo Agora é Outro


Filme evoluiu em comparação ao primeiro filme tanto na proposta, narrativa quanto na construção dos personagens.





Em Tropa de Elite 2, a dedicação extrema do capitão nascimento (agora coronel) ao trabalho tem seus bônus e ônus. O bônus é que graças a uma operação malsucedida aos olhos da sociedade, mas bem sucedida aos olhos do governo. Tal fato lhe garante o cargo de subsecretário de segurança o que o coloca em posição melhor para defender o que acredita, mas lhe custa à relação com Mathias (André Ramiro) e principalmente a relação com a ex-mulher Rosane (Maria Ribeiro) e o filho adolescente Rafael (Pedro Van Held). O fato é que Rosane agora está casada com Fraga (Irandhir Santos), o antagonista de Nascimento tanto na vida pessoal quanto profissional.


Tropa de Elite 2 não é apenas uma simples continuação com a intenção de explorar um filão de destaque no cinema nacional. Pelo contrário. É uma evolução ao primeiro filme, tanto na proposta e temas abordados quanto na construção dos personagens. ( o que talvez tenha faltado ao primeiro filme).


É interessante observar alguns aspectos ali presentes. A questão do tempo na narrativa, à agilidade e a dilatação do mesmo (quando necessário). De fato tropa de elite é um filme ágil tal como foi o primeiro. A diferença aqui é que há uma maior preocupação com os diálogos e a humanização dos personagens (mérito dos roteiristas José Padilha e Bráulio Mantovani). A opção pela montagem paralela que percorre todo o filme com ênfase nas cenas de Fraga (Irandhir Santos) e Nascimento (Wagner Moura) reforça o antagonismo ideológico, mais do que pessoal presente entre eles.


A fotografia de Lula carvalho reforça o contraste entre a milícia e o lado honesto da policia representado por Nascimento (Wagner Moura). Se de um lado há um interessante jogo de luzes e sombras de outro há uma clareza visual representando Nascimento.


Colocar o filme sobre a perspectiva de nascimento conferindo a ele a figura do narrador contribuiu para humanizar o personagem de modo que entendemos suas razões por ele expor seus pensamentos.


  Aliás um dos principais motivos que tornou o personagem mais humano nessa sequência é o fato de que agora coronel Nascimento é pai. A relação atribulada que possui com o filho Rafael (Pedro Van Held). Dois personagens explosivos (cada um a sua maneira) que encontram na luta um elo em comum, uma forma de comunicação. A propósito a cena em que pai e filho lutam juntos expondo o amor e suas fragilidades já vale o ingresso tamanha emoção e verdade cênica transmitida pelos dois atores. É neste momento que Nascimento se permite sair da “casca” que se formou em torno dele mesmo e se expor sem armaduras. A química entre Wagner Moura e Pedro Van Held transcende a tela de modo que não é exagero apontar o jovem ator como a revelação do longa.



Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro evoluiu consideravelmente em relação ao primeiro filme. Não se tratando de uma simples sequencia feita por motivos comerciais. Pelo contrario é uma sequencia que tem razão de existir pela amplitude de temas que apresenta em seu enredo. É uma outra vertente desse tema tão rico, além do filme apresentar uma constante evolução no que diz respeito à estética, narrativa e construção de personagens. É um filme de contrastes temáticos e de extremo cuidado técnico e artístico. Só uma palavra pode exprimir o que “Tropa 2” representa: Perfeição.   



sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Intocáveis





 
Segunda maior bilheteria da história da frança, filme exalta as diferenças, o valor da amizade e tem no seu roteiro e em seus dois protagonistas o seu maior trunfo.

 

Driss (Omar Sy) um jovem que acaba de sair da prisão parisiense é expulso de casa pela mãe adotiva. Desmotivado ele vai em busca do seu seguro-desemprego na mansão do rico empresário Philippe (François Cluzet), um viuvo que ficou paraplegico logo após a morte da esposa. Ao contratar Driss como seu enfermeiro eles constroem uma amizade pautada pela verdade , esquecendo as limitaçoes fisicas e sociais que os separam.

 

 

O filme de Olivier Nakache e Éric Toledano começa com o flashforrard evidenciando a amizade dos protagonistas, criando uma expectativa no espectador sobre o que acontecer. Após esse prólogo a ação salta para o tempo presente com o objetivo de construir a relação de amizade que une os personagens.

 

Os diretores Olivier Nakache e Éric Toledano intercalaram em seu filme planos curtos (sobretudo no primeiro ato) e longos (no segundo ato em diante).

 


Olivier e Éric fizeram bom uso da interpretação naturalista dos atores ao abusar (no bom sentido) do uso de closes na narrativa. O uso de contra plongee acompanhado do movimento de câmera panorâmica também é frequente.

 

O roteiro de Olivier Nakache e Éric Toledano concentrou suas forças em construir a relação de amizade entre Driss (Omar Sy) e Philippe (François Cluzet) e suas respectivas trajetórias pessoais. Entretanto essa escolha acaba deixando os demais personagens à margem na trama.

 

O enredo é centrado principalmente nos personagens Driss (Omar Sy) e Philippe (François Cluzet) foram necessários que os atores tivessem duas principais coisas: química para que houvesse um entrosamento natural quando juntos em cena e intensidade dramática para que pudessem trabalhar as nuances de cada um, além das características pessoais de cada um.

 

A julgar pelo desempenho dos atores em cena eu afirmo que a confiança depositada neles foi um grande acerto. François Cluzet (Philippe) soube transmitir com veracidade em interpretação as diversas mudanças que seu personagem passa, já que cabe a François a trama mais dramática do filme sem duvida.

 

Omar Sy (Driss) por sua vez é responsável pelo humor do filme, ainda que seu personagem tivesse um “passado” dramático. É interessante observar como Omar deixou aflorar sua interpretação, deixando seu personagem mais leve conforme o filme avança.

 

A habilidosa fotografia de Mathieu Vadepied se sobressai nas sequencias noturnas. Mathieu adicionou as suas lentes um granulado suave que dão um brilho especial às sequencias.

 

A trilha sonora a cargo de Ludovico Einaudi possui duas vertentes distintas que representam os protagonistas. Enquanto a música clássica representa Philippe (François Cluzet) e sua personalidade mais fechada e reclusa, a musica “pop” representa a juventude de Driss (Omar Sy) e sua personalidade expansiva.

 

 

O cinema já é uma arte mágica por natureza, o cinema francês por sua vez tem um charme todo especial. Partindo desse principio, eu lhes digo: Assista “Intocáveis” e se permita-se se deixar levar pelos encantos desse filme, pois certamente você sairá modificado da sala de cinema.

 

 

 

 


 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Elizabethtown



Nesta comédia dramática, Cameron Crowe continua suas tramas de personagens focados em suas jornadas pessoais. Desta vez, porém, ele enfoca a busca pelo autoconhecimento e a relação do ser humano com a morte.

 

Drew (Orlando Bloom) é um bem-sucedido designer de calçados, todavia um dos calçados que projetou apresenta problemas, causando sua demissão. Ao mesmo tempo seu pai falece e ele é obrigado a viajar para cuidar do sua cremação, no avião conhece Claire (Kristen Dunst), uma comissária de bordo com quem desenvolve uma relação fraternal ao mesmo tempo em que conhece uma parte da família-e de si mesmo que desconhecia.

 

Cameron Crowe fez de Elizabethtown um filme sobre busca interior em paralelo ao sucesso pessoal. Para tanto optou por alternar sua característica sucessão rápida de planos (sobretudo no primeiro ato) e diminuir o ritmo do segundo ato em diante, ainda que mantivesse certa agilidade natural.

 

Crowe fez uso de closes e do plano próximo em conjunto com a panorâmica com o objetivo de trilhar a trajetória pessoal do protagonista Drew (Orlando Bloom), além disso, o movimento de câmera circular também aparece com frequência.

 

Uma grande sacada de Crowe foi dar ao protagonista Drew (Orlando Bloom), a função de “Contar” a própria historia. Dessa maneira Drew assume a função de narrador Over. Mais tarde Claire (Kristen Dunst) também assume essa função no terceiro e ultimo ato do filme.

 

Quem conhece Cameron Crowe e seus trabalhos como diretor sabe como a música tem papel fundamental na sua vida profissional e pessoal. Em Elizabethtown Crowe não foge a regra e permeia o filme com uma trilha que vai do pop rock a canções com um cunho poético.

 

O roteiro escrito por Cameron Crowe centralizou-se no protagonista Drew (Orlando Bloom) e na sua jornada pessoal. Crowe foi hábil na construção do personagem principal de modo que seu processo de evolução foi evidente ao longo do filme. Cameron também construiu a relação de Claire (Kristen Dunst) e Drew de forma gradativa. Entretanto Crowe não deu o mesmo embalsamento dramático aos personagens coadjuvantes. (nada que prejudique o resultado final do filme).

 

A fotografia de John Troll utilizou-se de luzes naturais a maior parte do tempo, entretanto em alguns momentos evidenciamos a presença de um granulado em contraponto a luz natural.

 

Utilizando um tema que poderia render uma abordagem mais soturna (a morte), Crowe fez um filme muito particular sobre as relações humanas e o crescimento. É o tipo de filme em que as pequenas coisas dão o tom da trama  ao tomarem grandes proporções.

 

 

  

 

 

 

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Compramos um Zoológico



Em Compramos um zoológico, Cameron Crowe fez um filme carregado de sutilezas sobre a difícil missão de recomeçar. Assim como seus personagens Crowe da um novo sentido a carreira com este filme.





Benjamin Mee (Matt Damon) é um viúvo e pai de família que tenta se reerguer após a recente morte de sua esposa. Ele luta contra as lembranças (físicas e emocionais) da perda da esposa enquanto se encarrega de criar seus filhos, a doce menina Rosie (Maggie Elizabeth Jones) e o adolescente Dylan (Colin Ford), que enfrenta uma fase de revolta e negação pela recente morte da mãe. Após Dylan ser expulso do colégio, Benjamin resolve dar um novo rumo as suas vidas: Compra um zoológico a beira da falência e se emprenha em reconstruí-lo, ao mesmo tempo em que ele e seus filhos reconstroem suas vidas.



Nós compramos um zoológico é o retorno de Cameron Crowe aos filmes de ficção (do qual estava longe desde Elizabethtown de 2005). Trata-se da adaptação cinematográfica do diretor para o livro homônimo de Benjamin Mee, ou seja, é uma historia baseada em fatos reais.



Crowe inicia o filme de modo magistral: em flashforward e com uma narração em off feita pelo personagem Dylan (Colin Ford), que em um epilogo narra um breve introdução sobre o pai Benjamin (Matt Damon), antes de o tempo fílmico iniciar de fato.


Cameron Crowe investiu em uma direção orgânica, privilegiando os atores e seus respectivos diálogos na narrativa. Há sim o dinamismo característico da maneira de filmar do diretor, porém o dinamismo não se sobrepõe sobre o que é mais importante: Os personagens e a historia.


Como disse acima, Cameron Crowe priorizou o poderoso roteiro e os competentes atores que tinha em mãos. Por isso, investiu em planos próximos e closes, tornando a narrativa a mais realista possível.



A fotografia de Rodrigo Prieto se destacou pela naturalidade e pelo magnetismo visual. O uso de um granulado suave em determinado momento expos sua força a favor da narrativa.


O roteiro de Cameron Crowe e Aline Brosh McKenna baseado na obra homônima de Benjamin Mee é repleto de sutilezas. Crowe e Aline concentraram suas forças em criar uma historia que tivesse força visual e diálogos simples, porém carregados de intensidade.


Uma coisa interessante a se observar nos filmes de Cameron Crowe são os arcos de evolução. Seus personagens sempre trilham uma jornada pessoal e evoluem conforme os filmes avançam. Esta característica pode ser observada aqui principalmente nos personagens Benjamin Mee e Dylan Mee (Matt Damon e Colin Ford respectivamente).


O elenco dá a impressão de ter sido cuidadosamente escalado. Matt Damon revela outra faceta de seu trabalho ao interpretar o protagonista. Ele e Colin Ford (Dylan) são responsáveis por alguns dos melhores momentos do filme.


Como eu disse acima, Colin Ford (Dylan), é um dos principais destaques do filme. O ator construiu um personagem complexo com uma interpretação ora carregada, ora sutil. Suas cenas com Matt Damon que interpreta seu pai são o ponto alto do filme.


Maggie Elizabeth Jones (Rosie) tem uma interpretação pautada na inocência e nas singelas nuances infantis. Maggie imprime em sua personagem uma interpretação quase pueril. É interessante observar o contraponto dramático entre Maggie e Colin Ford que interpreta seu irmão, o revoltado Dylan.


Elle Fanning (Lily) é outro destaque. É impressionante o crescimento da atriz conforme o filme avança. Sua parceria com Colin Ford é excelente. Eis uma atriz que vale acompanhar o trabalho daqui pra frente.



A trilha sonora de “nós compramos um zoológico” é uma agradável surpresa para os fãs do diretor, pois todos sabem o papel que a musica exerce tanto nos seus filmes, quanto na sua vida pessoal.


A trilha sonora a cargo de Jónsi tem ares de renovação: ao contrario do rock n´roll vigoroso de filmes como Vanilla Sky e Quase Famosos, aqui o rock e o folk marcam presença se encaixando perfeitamente no contexto do filme.


É inevitável não ser transformado pela experiência cinematográfica de assistir “Compramos um zoológico”.  Cameron Crowe fez um filme carregado de sutilezas e metáforas a respeito do relacionamento humano. Posso afirmar que Crowe deu outro sentido a sua carreira com este filme.







segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Losers


 

 
O bullying sempre existiu, porém nos últimos anos ganhou a devida atenção. Trata-se de qualquer forma de exclusão, intimidação, violência física e psicológica. É mais comum ocorrer no ambiente escolar, porém pode ocorrer fora dele também.

 

Particularmente, o tema me desperta grande interesse pelo fato de que eu fui vitima de bullying (algo que deixei claro na minha crítica de Elefante, outro filme sobre o tema).

 

O curta metragem dirigido pelo grupo Everynone, apresenta uma série de jovens no ambiente escolar e em momentos de lazer, colocando em foco a exclusão e os atos dos bullys.

 

O curta utiliza-se da montagem paralela e da sucessão rápida de planos para demonstrar os atos de violência e intimidação.

 

 
Como o objetivo do curta é tratar o tema de forma realista e crível possível, a direção optou pela predominância de closes dos rostos dos atores durante os atos de violência física, verbal e psicológica, dessa forma coloca as potenciais vitimas em primeiro plano.

 

Um fato interessante é que durante as cenas de agressão verbal, o bully, não é colocado em foco, sua voz vem de fora de campo (talvez para evidenciar o poder agressor de simples palavras).

 

 

Concluindo, eu acredito que este curta cumpriu seu papel de alertar e fazer as pessoas refletirem sobre o problema (sem, entretanto ser didático). A qualidade do curta e a forma como o assunto foi tratado é de grande valia para conscientizar as pessoas para este problema.