sexta-feira, 12 de abril de 2013

Grey Gardens








  
O apego ao passado aristocrático e o retrato de uma decadência que chega ao limite da loucura é o tema do documentário “Grey Gardens” dirigido por Albert e David Mayles. O documentário foca na vida de duas socialites decadentes parentes de Jaqueline Kennedy que vivem em condições precárias, mas se negam a abandonar o ultimo símbolo de uma riqueza perdida.

Ao abrir a portas de suas casas e expor sua vida decadente, as duas protagonistas ambas chamadas Edith mãe e filha se permitem expor suas lembranças do passado aristocrático sem rodeios.

No primeiro momento os diretores Albert e David Mayles investem em um travelling com o claro objetivo de resaltar a decadência da casa onde vivem mãe e filha para assim, expor a decadência cotidiana do modo de vida delas. Após esse primeiro momento, “Grey Gardens” se transforma em um documentário puramente observacional deixando a narrativa livre para ser conduzida pelas protagonistas sem qualquer interferência dos realizadores, cabendo a eles apenas acompanhar a dinâmica das atrizes sociais dessa maneira passando pra elas “o controle narrativo” do filme.

Ao realizar esse documentário basicamente observacional os diretores se empenham em “penetrar” no ambiente bem como não desacreditar nenhuma das suas protagonistas.
O documentário propõe um interessante “jogo de câmera” ao estabelecer uma dinâmica de modo a privilegiar as duas protagonistas igualmente.

Um aspecto que com o decorrer do filme se torna cada vez mais claro é que apego ao passado que mãe e filha possuem (cada uma a sua maneira) contribui para o agravamento dos distúrbios psiquiátricos da senhora Edith, personagem esta de personalidade extremamente dominadora e é quem mais mostra um apego ao passado que deve ter sido fundamental no desenvolvimento de sua doença mental. Tal fato leva o espectador a uma importante reflexão: até que ponto o ambiente degradante que aquelas pessoas vivem contribuiu para o aparecimento dos distúrbios psiquiátricos na senhora Edith que também se mostram refletidos na filha Eddie. Tal abordagem provoca no espectador uma inquietude quase asfixiante, pois quanto mais nos envolvemos com o filme e a história mais percebemos que tal situação retratada é insustentável e que aquelas mulheres estão no limite principalmente a filha Eddie que se “abre” para os realizadores do documentário de modo á expressar (e aliviar) a angustia causada pela situação iminente.

Eddie estabelece uma relação confessional com a câmera se colocando em primeira pessoa, de modo que se cria um “um jogo” fílmico em que os documentaristas estimulam a abertura dessas duas “personagens” pelo fato de compreender a riqueza de material que a vida dessas mulheres pode representar.

Mãe e filha expõe frente às câmeras uma relação de contrastes. Enquanto a mãe expõe seu desequilíbrio mental e emocional a filha se vê presa àquela realidade limitada e com vontade (porém sem qualquer perspectiva de mudança).

O documentário leva o espectador a refletir a respeito do efeito de um apego emocional exacerbado ao passado e uma relação familiar desestruturada pode ter contribuído para o desequilíbrio mental das protagonistas bem como se questionar de que maneira a situação física (de espaço) e emocional de mãe e filha chegou a tal ponto.









quarta-feira, 3 de abril de 2013

A Hospedeira


Após o sucesso dos filmes da saga Crepúsculo a autora Stephenie Meyer se tornou uma espécie de referencia quando se trata de filmes para o público infanto-juvenil e por esse e tantos outros motivos que mais uma adaptação de um romance de sua autoria ganha às telas, nesse caso “A Hospedeira”.

Ambientado em um universo futuro, “A Hospedeira” trata de uma caça a raça humana pelos “Buscadores” um grupo que tenta escravizar os humanos implantando almas mecanizadas em seus corpos os impedindo de ter vontade própria.

A jovem Melanie Stryder (Saiorise Ronan) se esconde de ser capturada pelos buscadores em uma fazenda afastada ao lado do irmão Jamie (Chandler Canterbury) e do namorado Jared (Max Ions).

Entretanto, em uma tentativa de conseguir itens para a sobrevivência Melanie é capturada e os buscadores realizam nela a implantação da invasora. Porém, Melanie é dona de uma personalidade tão forte que não só não se deixa domar pela hospedeira como desperta em sua invasora sentimentos humanos. Juntas (isto é com Peregrina, a invasora dominando seu corpo, mas não sua mente elas iram se tornar clandestinas junto à família de família de Melaine.com a dificuldade de Melanie provar que esta viva dentro daquele corpo e da invasora provar sua boa índole).

O diretor Andrew Niccol foi extremamente engenhoso e habilidoso ao construir um universo fílmico convincente, mas infelizmente não se pode se dizer o mesmo da sua direção e roteiro totalmente falhos e inverossímeis.

Andrew imprime uma agilidade às cenas, porém, essa mesma agilidade depõe contra o próprio filme, pois é utilizada e demasia e quebra a tensão dramática, impedindo assim que o longa transmita ao espectador expectativa em torno daquele enredo e dos rumos do mesmo. Além de utilizar cortes bruscos, o diretor é seriamente prejudicado pela montagem capenga que compromete o bom andamento do filme.

Niccol só mostra a sua força á frente das câmeras nos flashbacks muitíssimos bem construídos e executados. Do contrário, sua presença é quase invisível o que nos faz pensar que o filme está no piloto automático.

O roteiro também assinado por Niccol constrói um universo fílmico convincente, mas peca pelas situações non-sense e mal explicadas além de não aprofundar o enredo e os personagens como deveria.
Junto a esse já desastroso fator, alguns atores do longa atua de maneira mecanizada principalmente a Buscadora(Diane Kruger) e seus companheiros que atuam sem dar nenhuma veracidade e humanismo aos seus personagens.

O mesmo não pode se dizer de Saiorise Ronan que interpreta Melanie com a veracidade e a duabilidade necessárias a uma personagem tão conflitante. Assim como, expor o humanismo da invasora que tomou seu corpo.

Max Ions interpreta Jared com vigor expondo a paixão que envolve seu personagem ao mesmo tempo reticente ao acreditar que a alma da sua amada possa coexistir no corpo tomado pela invasora.

Chandler Canterbury atua de maneira genuína como Jamie o irmão da protagonista. A inocência que Chandler imprime a o seu personagem (e também ao longa garantem um ar de esperança a esse enredo apocalíptico).

Jake Abel confere a Ian seu personagem uma duabilidade bem interessante. De inicio é um personagem com um objetivo claro: aniquilar os buscadores. Porém Ian se vê apaixonado pela invasora Peg. Jake soube demonstrar as nuances do personagem de maneira crescente.
William Hurt compõe o seu “Tio Jeb” de forma transcendente. Sua expressão cênica transmite a serenidade e a liderança que o personagem exige. Por isso, Hurt é um dos maiores destaques do filme.

A fotografia a cargo de Roberto Schaefer é outro elemento que prejudica o resultado final do filme. Schaefer não consegue imprimir em suas lentes a neutralidade. Ora as imagens estão claras demais, ora escuras demais não conseguindo atingir o conceito de uma imagem neutra.

A trilha sonora do Brasileiro Antonio Pinto é a grande responsável pelo componente emocional do filme e consequentemente dos personagens. O score dá o tom às cenas e muitas vezes “carrega o filme nas costas engrandecendo as cenas função que deveria pertencer a direção de Andrew Nicool, mas como ele preferiu dirigir o longa no modo piloto automático”...

Se “A Hospedeira” foi feito com foco nos órfãos de “Crepúsculo” é de se lamentar. Pois, ao contrário da história de Bella e companhia (que não era perfeita), mas ao menos possuía algum enredo mais ou menos plausível. Não é o que ocorre em “A Hospedeira que tenta se vender como o filme da autora de crepúsculo”. Agora é rezar que os fãs do vampiro tenham crescido e adquiro algum censo crítico pra ficar BEM longe desse filme.







quarta-feira, 27 de março de 2013

Especial Diretores:Quentin Tarantino




Nascido no dia 27 de março de 1963 em Knoxville no Tennessee Quentin Tarantino é hoje um dos mais populares diretores da geração dos anos 90 com um cinema exclusivamente autoral ainda que munido de referências Tarantino incorpora essas referencias ao seu estilo fílmico.
Criando um universo estético em seus filmes onde predominam as referências que ajudam a definir o estilo dos seus filmes. Estão lá à violência exacerbada, diálogos rápidos, menções a cultura pop, aos quadrinhos e animes.

Tarantino é conhecido pelos seus roteiros não lineares e enredos com varias tramas que convergem além de ser autor de grandes e poderosos diálogos e cenas marcantes. Seus filmes são carregados de força visual e de personagens e situações marcantes.

Seu primeiro filme foi “Cães de aluguel” (1992) escrito durante o período em que Tarantino trabalhava em uma locadora de vídeo-o que o influenciou fortemente.

Antes de lançar “Cães de Aluguel” Tarantino escreveu roteiros de filmes com “Amor a Queima Roupa” dirigido por Tony Scott, “Assassinos por Natureza” de Oliver Stone e “Um Drink no Inferno” dirigido por seu amigo e parceiro habitual Robert Rodriguez.

Em 1992 “Cães de Aluguel” finalmente é lançado revitalizando o cinema independente e colocando Tarantino no topo da lista dos cineastas em que se devia prestar atenção.

A consagração final veio com “Pulp Fiction” (1994) com uma historia com varias narrativas que se entrelaçam entre si e dividida em capítulos “Pulp Fiction” garantiu o primeiro Oscar da carreira do diretor o de melhor roteiro original (estatueta que ganhou novamente pelo seu mais recente filme “Django Livre” na mesma categoria).

Tarantino faz parte de uma geração de cineastas que aprendeu sobre a arte de se fazer um filme como espectador os assistindo e não em escolas de cinema, o que fez que ele se apaixonasse cada vez mais pela sétima arte – paixão essa visível em cada filme seu, pois em todos os filmes há um tributo à arte cinematográfica e aos seus múltiplos gêneros.

Abaixo, vamos conhecer mais sobre a sua filmografia aproveitando a data especial de hoje- hoje, dia 27 de março Tarantino faz 50 anos de vida e com uma carreira MUITO bem sucedida.


Cães de Aluguel (1992)

Na estreia de Tarantino na direção, ele nos apresenta a uma trama sobre um grupo de ladrões na preparação para se realizar um assalto e os conflitos decorrentes do mesmo. Um filme constituído principalmente de flashbacks e intersecções fílmicas e narrativas. Destaca-se pelo roteiro não linear, o uso da violência como método narrativo (que se tornaria uma de suas marcas) e inúmeras referências á cultura pop.

Pulp Fiction- Tempo de violência (1994)

Em seu segundo filme, Tarantino continua investindo em narrativas não lineares e no uso da violência como um artifício dramático. Ele aposta em tramas paralelas que se entrelaçam em um dado momento. Ao contar principalmente a história de Vicent Vega (John Travolta) e Mia Wallace (Uma Thurman) utilizando-se de flashbacks e FlashForwards além do usual travelling.
 Vale resaltar que aqui a violência é usada de forma verborrágica e as inúmeras citações a cultura pop presentes no roteiro-que vão de Eminem a Madonna.

Jackie Brown (1997)

Neste terceiro filme, Tarantino retorna ao gênero policial- ele já tinha realizado “Cães de Aluguel” em um tributo ao gênero Blaxploitation. Optando pela desconstrução da montagem e do roteiro e apostando nos flashbacks e FlashForwards com cortes certeiros e um travelling bem utilizado. “Jackie Brown” é um filme no mínimo interessante, ainda que sentimos falta da violência exacerbada de seus outros filmes, pois em “Jackie Brown ela aparece de forma implícita”.


Concebido originalmente como um único filme e dividido em duas partes devido à longa duração, “Kill Bill” nos apresenta a saga de vingança da “Noiva” (Uma Thurman). Tarantino apresenta uma narrativa não linear como é comum em seus filmes. No “primeiro volume”, Tarantino investe mais na ação e nas intersecções fílmicas em detrimento dos diálogos. Porém, no “segundo volume” investe mais nos diálogos e da maior embalsamento dramático aos personagens e a própria história. Tarantino confere ao filme uma direção coreografada e se revela um excelente diretor de atores.

Grindhouse: A Prova de Morte (2007)

Nesse longa, parte integrante do projeto Grindhouse, Tarantino presta homenagem aos filmes de horror dos anos 70. O diretor nos apresenta uma história que começa tímida, mas se desenvolve de maneira surpreendente. Uma direção de atores excelente e com o uso inteligente do corte seco. A construção de outro universo fílmico que de certa forma é uma representação da primeira história funciona, mas no inicio deixa o espectador meio perdido. Além das inúmeras referências e citações a outros filmes o destaque fica para a auto referência que Tarantino faz á própria obra.


A primeira vista pode parecer que “Django” é um filme “normal” em relação aos filmes anteriores do diretor no sentido que “Django” conta uma única historia (embora com diversos plots). Mas a força do filme esta na historia e personagens impactantes.  Apostando em uma direção ágil e em flashbacks bem constituídos ele realiza um filme nada menos do que épico ao prestar tributo ao gênero “Western”.



Curta metragem "Tarantino´s Mind" com Selton Mello e Seu Jorge onde eles divergem sobre as teorias de ligação entre os filmes de Tarantino.
     



  




terça-feira, 26 de março de 2013

Coração Vagabundo





Desmistificar um artista do porte de Caetano Veloso não é uma tarefa das mais fáceis, mas esse parece ser o principal mote de “Coração Vagabundo” o documentário sobre o artista dirigido por Fernando Grostein Andrade durante a turnê internacional “A Foreign Sound”.
Ao acompanhar Caetano em sua turnê internacional Fernando estabelece com o cantor (que aqui desempenha o papel de “ator social”) e consequentemente com o espectador uma relação de proximidade com o seu protagonista, buscando assim a identificação do publico com o material que é exibido.

Conferindo á o próprio Caetano a função de "guiar" o filme, o documentário estabelece assim uma relação próxima com o seu público seja ele o espectador como já foi dito ou o próprio público do artista que foi assisti-lo durante a sua turnê internacional.

O artista (aqui o “ator social”) desconstrói a todo o tempo qualquer imagem de mito que os longos anos de carreira possam ter lhe trazido. Pelo contrário, Caetano se expõe com naturalidade o que permite ao diretor Fernando Grostein Andrade possa conferir ao filme um aspecto mais intimista.
A opção de Fernando de construir o filme como sendo um documentário observacional de sua parte (e não participativo), isto é a figura do realizador (no caso Fernando) de não aparecer frente à câmera garante maior foco e destaque na figura de Caetano, apesar de nós quanto espectadores sabermos que Fernando está ali presente observando e registrando tudo.

Há em “Coração Vagabundo” uma agilidade e sobreposições de planos que acompanham o ritmo do cantor. Nesse sentido, Caetano “comanda” a narrativa fílmica, pois é através dos seus depoimentos que determinam a ordem das imagens na tela.


 O documentário possui uma estrutura narrativa muito dinâmica. Cobre o lado artístico do cantor, incluindo ensaios para a turnê, bastidores, a relação de Caetano com o público (e do público para com ele), as influências e como o músico se relaciona com a crítica. Todos estes fatores garantem ao documentário uma perspectiva muito pessoal e permitem que Caetano se exponha tal como é: uma pessoa humilde, um artista criativo e uma pessoa como uma ideologia muito clara á respeito do papel da música na sua vida e consequentemente na sociedade.

O fato de o próprio perfilado ser o “guia” do filme garante ao cantor um ambiente confortável para que possa se expor com naturalidade e discursar sobre vários temas que cercam o seu universo musical: o tropicalismo, a relação com a crítica e suas inspirações por exemplo.

O documentário se revela muito “aberto” no sentido de que abre espaço para o público discursar sobre a importância de Caetano Veloso, este, aliás, é um dos melhores momentos do filme com depoimentos mais que especiais de personalidades como Pedro Almodóvar e Michelangelo Antonioni (sobretudo considerando que Antonioni deu uma de suas ultimas entrevistas, vindo a falecer posteriormente).


Com um Caetano totalmente aberto e acessível, Fernando Andrade criou uma atmosfera intimista no longa que permitiu ao espectador encontrar uma narrativa passível de identificação ao grande público (sendo fã do cantor ou não).

O resultado de “Coração Vagabundo” é uma experiência cinematográfica agradável e reveladora no sentido de que exibe todas as inúmeras nuances de um artista de talento e carismas imensos com propriedade e leveza.












sábado, 23 de março de 2013

Grindhouse:Planeta Terror




Grindhouse é a alcunha dada aos filmes B de terror produzidos nos anos 70. Em foi com o intuito de prestar uma homenagem a esse gênero hoje em franca decadência que nasceu o projeto homônimo dirigido por Quentin Tarantino e Robert Rodriguez, contendo dois filmes sendo o primeiro “Planeta Terror” dirigido por Rodriguez.

A dançarina Cherry Darling (Rose Mcgowan) decide largar seu trabalho em um clube de strip-tease para perseguir o sonho de ser comediante. Após pedir demissão cherry vai ao encontro do ex-namorado El Way (Freddy Rodriguez). Porém, cherry é atropelada e atacada por zumbis. O mesmo acontece com Dakota (Marley Shelton) que sofre constantes ataques do marido William (Josh Brolin), sobretudo depois que ele foi contaminado com o vírus zumbi. Juntos os sobreviventes terão que lutar pela sua sobrevivência, cuja única alternativa é o extermínio da raça dos zumbis.

Há um certo “descuido” estético em “Planeta Terror”. O diretor Robert Rodriguez construiu um universo narrativo quase inverosímel para ambientar seu filme bem como reproduzir cenários marcados pela falta de cuidado visual para ser captado pela sua “câmera nervosa” marcada pelos cortes bruscos.
Ao produzir planos ágeis e utilizar elipses, Rodriguez tinha a intenção de provocar tensão dramática e mexer com o horizonte de expectativas do espectador ao dar ao enredo (bem como criar um “suspense”). Mas não é isso que acontece, pois o diretor executa o corte dos planos bem em momentos chave quebrando assim o clímax das cenas.

Robert Rodriguez “jogou nas onze” em “Planeta Terror”. Dirigiu, escreveu o roteiro, foi o responsável pela trilha sonora bem como pela fotografia. E foi nesse ultimo quesito que Robert realizou bem sua função (ainda que modestamente). Ao efeito de desfoque nas suas lentes (especialmente nas cenas de invasão zumbi) em meio ao fundo negro predominante. Esse efeito “borrado” dá ao filme uma característica “de baixo orçamento”, indo de encontro com a proposta do projeto “Grindhouse”: revitalizar o cinema de gênero.

O roteiro escrito pelo diretor Robert Rodriguez lembra muito os primeiros filmes de seu parceiro de projeto “Grindhouse” Quentin Tarantino, especialmente “Cães de Aluguel” e “Pulp Fiction” no sentido de que a estrutura do roteiro de ambos os filmes são muito semelhantes. Acontece que enquanto Tarantino utilizava suas referências à exaustão, porém convertendo-as á sua marca própria, Robert Rodriguez usa essas referências, não só de Tarantino como de outros filmes e diretores como uma colagem sem imprimir seu estilo.

O roteiro também tem muitas falhas de continuidade, (fato que se agrava com os cortes bruscos e elipses excessivas do filme) deixando o espectador confuso em muitos momentos. Além disso, o roteiro é recheado de momentos nonsense que prejudicam ainda mais o desenrolar do filme, bem como seu desempenho.

Se há algo que realmente salve (se é que á essa altura o filme tenha salvação) é o elenco. Os atores desempenham com afinco seus respectivos personagens por mais fora do normal que eles pareçam ser.

Rose Mcgowan embarca nas “viagens” do diretor atuando com afinco. Rose imprime a cherry um trejeito teatral, como se a personagem tivesse saído dos quadrinhos, sem, entretanto soar risível. Pelo contrário, cabe perfeitamente na personagem.

Freddy Rodriguez compõe El Way acentuando as diversas nuances do personagem de modo que transmite ao espectador uma duvida a respeito do caráter do personagem. Sua química com Rose Mcgowan é algo louvável, pois os dois atores tem empatia quando juntos.

Marley shelton interpreta Dakota com uma atuação que vai em uma crescente ao longo do filme. Da mulher reprimida, medrosa que sofre com os ataques do marido Dr. Brock (Josh Brolin) e as consequências das ações dele á uma lutadora no sentido literal da palavra.
Por sinal, Josh é outro que atua de maneira excelente, sendo a perfeita personificação de “O médico e o Monstro” atual.

“Planeta Terror” acaba se tornando a tentativa (QUASE) fracassada de Robert Rodriguez prestar um tributo a um gênero cinematográfico em decadência. No entanto, Rodriguez acaba entregando ao espectador uma colagem de tudo o que viu em sua vida cinéfila. Faltou ao diretor à genialidade de saber extrair das suas referências um estilo próprio como faz o parceiro Tarantino (parceiro esse que Rodriguez copia a exaustão). Espero o diretor nos apresentar um trabalho autoral em uma próxima oportunidade não apenas uma “colagem”.        




sexta-feira, 15 de março de 2013

Kill Bill Vol. 2



“Kill Bill” foi concebido para ser um único filme por seu diretor, Quentin Tarantino. Porém, devido à longa duração do filme (quase 4 horas) e por uma jogada de marketing de sua distribuidora, o longa foi dividido em duas partes.
Kill Bill Vol. 2 começa onde a Vol.1 terminou. Após se vingar de O-Ren Ishii (Lucy Liu), a Noiva (Uma Thurman) continua a sua vingança contra os que restam: Budd (Michael Madsen) e Elle Driver (Daryl Hannah) até conseguir chegar ao seu objetivo principal, Matar Bill (David Cerradine).

Nesta “segunda parte”, Tarantino se aprofunda no universo estilístico abordado em “Kill Bill”. Bem como garante embalsamento psicológico aos seus personagens e consequentemente ao enredo.

Com suas narrativas não lineares características, o filme se inicia com um flashback onde podemos conhecer o passado da Noiva que na realidade se chama Beatrix Kiddo. Tarantino promove aqui um interessante jogo de câmera, focalizando assim o rosto de seus atores. É necessário salientar, o magnífico trabalho de fotografia em preto e branco nesse momento. Além de um interessante contra luz que confere um suspense a respeito dos personagens.
O estilo Tarantino de filmar está aqui. O filme é recheado de elipses, sobreposições de planos, plongeê e contra-plongeê, zoom in/out e telas divididas para evidenciar os momentos da “Noiva”, além de um travelling muito bem executado.

Com um filme dividido em capítulos, Tarantino se apoia em flashbacks construídos com perfeição para demonstrar as origens da Noiva. Elipses de tempo e um corte seco e preciso dos planos garantem agilidade a história.
As cenas de luta nessa “parte do filme” acontecem em menor número. Mas quando ocorrem são cenas muito bem coreografadas, Tarantino garante ao longa uma excelente direção cênica.

A montagem sempre é o principal aliado da direção em um filme (ou pelo menos deveria ser). Em Kill Bill ela é essencial funcionando como elo entre a parte 1 e 2 e entre os capítulos do filme. A montagem em flashback. Além disso, a montagem em flashback é um dos principais pilares do enredo, funcionando como um potente recurso narrativo.

 A música é anti-diegetica (fora do universo ficcional do filme). A trilha como é comum nos filmes de Tarantino é bastante eclética. Indo desde o country ate trilhas incidentais de suspense, muitas inclusive de outros filmes famosos, funcionando como uma espécie de tributo.

O roteiro de Quentin Tarantino nesse “segundo volume” garante maior embalsamento dramático aos personagens. Inclusive humanizando o principal vilão Bill (David Cerradine). Há uma maior construção de personagens, tornando-os ainda mais criveis.
Há também uma maior preocupação do diretor em contrabalançar as cenas de batalha com o diálogo. O que acaba resultando em ótimos diálogos cheios de ironia, afinal estamos falando do criador de diálogos de humor cortante como visto em “Cães de Aluguel” e “Pulp Fiction”, por exemplo.

    A fotografia de Robert Richardson é extremamente eficiente no sentido que colabora para construir um universo fílmico impactante. Os flashbacks em preto e branco, assim como o prólogo inicial acentuam a grandiosidade do enredo.

O elenco é encabeçado por Uma Thurman que mantém uma interpretação magnífica apoiada nas diversas nuances da personagem. Uma “encarna” a personagem com perfeição.
Daryl Hannah (Elle) viu seu papel crescer consideravelmente em comparação ao “Volume 1”. Daryl compôs sua personagem com a frieza necessária, atuando com brilhantismo. Uma antagonista á altura da “Noiva” (Uma Thurman).

David Cerradine compõe um “Bill” frio e humano ao mesmo tempo. As cenas com Uma e Perla Haney-Jardine interprete de B.B a filha dos dois. 
David empresta ao personagem todo o seu talento,carregando-o de múltiplas nuances, permitindo ao espectador quase ter compaixão pelo principal vilão do filme (veja bem, eu disse QUASE).

Aliás, Perla é a grata surpresa desse “volume” atuando de forma genuína como é comum a crianças da sua idade. Mas Perla tem um magnetismo diferente no olhar o que permite a ela estar no mesmo nível cênico de Thurman e Cerradine. Um fato notável, visto que ela era apenas uma criança na época.

Michael Madsen (Budd) interpreta o irmão de Bill com uma nuances que beiram a marginalidade. Michael se destaca pela maneira que resalta os trejeitos marginais, vingativos e ambiciosos de seu personagem.


Tarantino realizou em “Kill Bill” mais um fantástico longa, o meu filme favorito dele. Em “Kill Bill” Tarantino fez mais do que um tributo a um gênero, fez um filme estilizado mesmo cheio de referências, que consagraria de vez o seu estilo de filmar.  







  

quinta-feira, 14 de março de 2013

Kill Bill Vol 1



Quentin Tarantino faz parte de um grupo de diretores que teve a sua formação no cinema na “raça” e com base intelectual inteiramente no home vídeo. Para tanto, é natural que carregado dessas inúmeras referências fílmicas Tarantino faça um tributo á esses gêneros em seus filmes. Como no caso de Kill Bill onde faz um tributo (ainda que a sua maneira) aos filmes de artes marciais japoneses.

 Construído em uma narrativa não linear, Kill Bill nos apresenta á “Noiva” (Uma Thurman).  Grávida é noiva é vitima de uma tentativa de homicídio pelo grupo do esquadrão assassino de víboras mortais do qual ela fazia parte. Após ficar quatro anos em coma à noiva vai em busca da sua vingança.

O diretor imprimiu ao filme uma direção coreografada, com planos longos, intersecções e sobreposições de planos.
Com flashbacks bem construídos e cortes secos permeados pelo empolgante jogo de câmera imprimido pelo diretor, que investe em planos mais fechados de modo a construir uma tensão dramática no filme.

Fazendo uso inteligente das elipses e dos flashbacks, Tarantino coloca o espectador a par das motivações da motivações da noiva para realizar a sua vingança. Ao mesmo tempo confere uma agilidade narrativa em contraponto os planos de longa duração.
Além da violência exacerbada característica de seus filmes, Tarantino inseriu em “Kill Bll” um intercambio de mídias ao inserir flashbacks no estilo anime. contribuindo assim, para criar um universo estético estilizado condizente com a narrativa proposta pelo filme.
Auxiliado pela montagem competente, o diretor imprime ao filme uma força visual intensa, com flashbacks muito bem posicionados de forma a criar um horizonte de expectativas no espectador.


O roteiro de Tarantino é contado de forma não linear como eu já disse. O diretor investiu na ação e na atuação performática de seus atores nas cenas em detrimento do dialogo. Construindo cenas intensas de ação com flashbacks momentâneos o roteiro prima pela desconstrução do padrão narrativo usual ao “contar” o enredo do filme fora de ordem cronológica.

A fotografia de Robert Richardson é marcada pelo abuso de cor ou pela ausência dela. Ao apostar em cores quentes e vivas para as cenas de luta e flashbacks da noiva (Uma Thurman). Há dois flashbacks em especial que é feito em preto e branco (o prólogo inicial e nas cenas em anime que explicam a origem de O-Ren Ishii).

Ao dar a Noiva (Uma Thurman) à função de narradora, com uma interessante narração em “Off”. Permitindo assim a possibilidade do espectador compreender as motivações de vingança da noiva.

Ao fazer uso da música anti-diegética (fora do universo fílmico), apropriando-se de outras trilhas sonoras, o diretor faz um tributo sétima arte.

O elenco é extenso, mas Tarantino fez questão de dar ao seu elenco uma importante função narrativa, por menor que seja sua participação.
Uma Thurman interpreta a “Noiva” com desenvoltura e segurança cênica em uma personagem especialmente criada pra ela. Os méritos da atriz em cena são inúmeros, mas o maior deles é Uma ter humanizado a personagem de modo que o espectador torce para que a “Noiva” termine a sua vingança.


Vivica A. Fox (Vernita Green) e O-Ren Ishii (Lucy Liu), as oponentes da noiva nessa primeira parte interpretam suas personagens de forma impressionante resaltando em seus olhares e movimentos cênicos a falta de humanidade de suas personagens.
Chiaki Kuriyama (Go-Go Yubari) surge de forma surpreendente na tela ao encenar com afinco o braço-direito de O-Ren ishii (Lucy Liu). A atriz protagoniza uma das melhores e mais bem coreografadas cenas do longa.

“Kill Bill” já mostra a nessa primeira parte a que veio. Com inúmeras referências o longa escapa de ser uma “colcha de retalhos” e se torna um filme com visão autoral de Tarantino sobre esse gênero cinematográfico.
Além de confirmar Tarantino como um excelente diretor de atores, o filme acaba resultando no melhor exemplo do universo autoral e estilizado do seu diretor.