sexta-feira, 15 de março de 2013

Kill Bill Vol. 2



“Kill Bill” foi concebido para ser um único filme por seu diretor, Quentin Tarantino. Porém, devido à longa duração do filme (quase 4 horas) e por uma jogada de marketing de sua distribuidora, o longa foi dividido em duas partes.
Kill Bill Vol. 2 começa onde a Vol.1 terminou. Após se vingar de O-Ren Ishii (Lucy Liu), a Noiva (Uma Thurman) continua a sua vingança contra os que restam: Budd (Michael Madsen) e Elle Driver (Daryl Hannah) até conseguir chegar ao seu objetivo principal, Matar Bill (David Cerradine).

Nesta “segunda parte”, Tarantino se aprofunda no universo estilístico abordado em “Kill Bill”. Bem como garante embalsamento psicológico aos seus personagens e consequentemente ao enredo.

Com suas narrativas não lineares características, o filme se inicia com um flashback onde podemos conhecer o passado da Noiva que na realidade se chama Beatrix Kiddo. Tarantino promove aqui um interessante jogo de câmera, focalizando assim o rosto de seus atores. É necessário salientar, o magnífico trabalho de fotografia em preto e branco nesse momento. Além de um interessante contra luz que confere um suspense a respeito dos personagens.
O estilo Tarantino de filmar está aqui. O filme é recheado de elipses, sobreposições de planos, plongeê e contra-plongeê, zoom in/out e telas divididas para evidenciar os momentos da “Noiva”, além de um travelling muito bem executado.

Com um filme dividido em capítulos, Tarantino se apoia em flashbacks construídos com perfeição para demonstrar as origens da Noiva. Elipses de tempo e um corte seco e preciso dos planos garantem agilidade a história.
As cenas de luta nessa “parte do filme” acontecem em menor número. Mas quando ocorrem são cenas muito bem coreografadas, Tarantino garante ao longa uma excelente direção cênica.

A montagem sempre é o principal aliado da direção em um filme (ou pelo menos deveria ser). Em Kill Bill ela é essencial funcionando como elo entre a parte 1 e 2 e entre os capítulos do filme. A montagem em flashback. Além disso, a montagem em flashback é um dos principais pilares do enredo, funcionando como um potente recurso narrativo.

 A música é anti-diegetica (fora do universo ficcional do filme). A trilha como é comum nos filmes de Tarantino é bastante eclética. Indo desde o country ate trilhas incidentais de suspense, muitas inclusive de outros filmes famosos, funcionando como uma espécie de tributo.

O roteiro de Quentin Tarantino nesse “segundo volume” garante maior embalsamento dramático aos personagens. Inclusive humanizando o principal vilão Bill (David Cerradine). Há uma maior construção de personagens, tornando-os ainda mais criveis.
Há também uma maior preocupação do diretor em contrabalançar as cenas de batalha com o diálogo. O que acaba resultando em ótimos diálogos cheios de ironia, afinal estamos falando do criador de diálogos de humor cortante como visto em “Cães de Aluguel” e “Pulp Fiction”, por exemplo.

    A fotografia de Robert Richardson é extremamente eficiente no sentido que colabora para construir um universo fílmico impactante. Os flashbacks em preto e branco, assim como o prólogo inicial acentuam a grandiosidade do enredo.

O elenco é encabeçado por Uma Thurman que mantém uma interpretação magnífica apoiada nas diversas nuances da personagem. Uma “encarna” a personagem com perfeição.
Daryl Hannah (Elle) viu seu papel crescer consideravelmente em comparação ao “Volume 1”. Daryl compôs sua personagem com a frieza necessária, atuando com brilhantismo. Uma antagonista á altura da “Noiva” (Uma Thurman).

David Cerradine compõe um “Bill” frio e humano ao mesmo tempo. As cenas com Uma e Perla Haney-Jardine interprete de B.B a filha dos dois. 
David empresta ao personagem todo o seu talento,carregando-o de múltiplas nuances, permitindo ao espectador quase ter compaixão pelo principal vilão do filme (veja bem, eu disse QUASE).

Aliás, Perla é a grata surpresa desse “volume” atuando de forma genuína como é comum a crianças da sua idade. Mas Perla tem um magnetismo diferente no olhar o que permite a ela estar no mesmo nível cênico de Thurman e Cerradine. Um fato notável, visto que ela era apenas uma criança na época.

Michael Madsen (Budd) interpreta o irmão de Bill com uma nuances que beiram a marginalidade. Michael se destaca pela maneira que resalta os trejeitos marginais, vingativos e ambiciosos de seu personagem.


Tarantino realizou em “Kill Bill” mais um fantástico longa, o meu filme favorito dele. Em “Kill Bill” Tarantino fez mais do que um tributo a um gênero, fez um filme estilizado mesmo cheio de referências, que consagraria de vez o seu estilo de filmar.  







  

quinta-feira, 14 de março de 2013

Kill Bill Vol 1



Quentin Tarantino faz parte de um grupo de diretores que teve a sua formação no cinema na “raça” e com base intelectual inteiramente no home vídeo. Para tanto, é natural que carregado dessas inúmeras referências fílmicas Tarantino faça um tributo á esses gêneros em seus filmes. Como no caso de Kill Bill onde faz um tributo (ainda que a sua maneira) aos filmes de artes marciais japoneses.

 Construído em uma narrativa não linear, Kill Bill nos apresenta á “Noiva” (Uma Thurman).  Grávida é noiva é vitima de uma tentativa de homicídio pelo grupo do esquadrão assassino de víboras mortais do qual ela fazia parte. Após ficar quatro anos em coma à noiva vai em busca da sua vingança.

O diretor imprimiu ao filme uma direção coreografada, com planos longos, intersecções e sobreposições de planos.
Com flashbacks bem construídos e cortes secos permeados pelo empolgante jogo de câmera imprimido pelo diretor, que investe em planos mais fechados de modo a construir uma tensão dramática no filme.

Fazendo uso inteligente das elipses e dos flashbacks, Tarantino coloca o espectador a par das motivações da motivações da noiva para realizar a sua vingança. Ao mesmo tempo confere uma agilidade narrativa em contraponto os planos de longa duração.
Além da violência exacerbada característica de seus filmes, Tarantino inseriu em “Kill Bll” um intercambio de mídias ao inserir flashbacks no estilo anime. contribuindo assim, para criar um universo estético estilizado condizente com a narrativa proposta pelo filme.
Auxiliado pela montagem competente, o diretor imprime ao filme uma força visual intensa, com flashbacks muito bem posicionados de forma a criar um horizonte de expectativas no espectador.


O roteiro de Tarantino é contado de forma não linear como eu já disse. O diretor investiu na ação e na atuação performática de seus atores nas cenas em detrimento do dialogo. Construindo cenas intensas de ação com flashbacks momentâneos o roteiro prima pela desconstrução do padrão narrativo usual ao “contar” o enredo do filme fora de ordem cronológica.

A fotografia de Robert Richardson é marcada pelo abuso de cor ou pela ausência dela. Ao apostar em cores quentes e vivas para as cenas de luta e flashbacks da noiva (Uma Thurman). Há dois flashbacks em especial que é feito em preto e branco (o prólogo inicial e nas cenas em anime que explicam a origem de O-Ren Ishii).

Ao dar a Noiva (Uma Thurman) à função de narradora, com uma interessante narração em “Off”. Permitindo assim a possibilidade do espectador compreender as motivações de vingança da noiva.

Ao fazer uso da música anti-diegética (fora do universo fílmico), apropriando-se de outras trilhas sonoras, o diretor faz um tributo sétima arte.

O elenco é extenso, mas Tarantino fez questão de dar ao seu elenco uma importante função narrativa, por menor que seja sua participação.
Uma Thurman interpreta a “Noiva” com desenvoltura e segurança cênica em uma personagem especialmente criada pra ela. Os méritos da atriz em cena são inúmeros, mas o maior deles é Uma ter humanizado a personagem de modo que o espectador torce para que a “Noiva” termine a sua vingança.


Vivica A. Fox (Vernita Green) e O-Ren Ishii (Lucy Liu), as oponentes da noiva nessa primeira parte interpretam suas personagens de forma impressionante resaltando em seus olhares e movimentos cênicos a falta de humanidade de suas personagens.
Chiaki Kuriyama (Go-Go Yubari) surge de forma surpreendente na tela ao encenar com afinco o braço-direito de O-Ren ishii (Lucy Liu). A atriz protagoniza uma das melhores e mais bem coreografadas cenas do longa.

“Kill Bill” já mostra a nessa primeira parte a que veio. Com inúmeras referências o longa escapa de ser uma “colcha de retalhos” e se torna um filme com visão autoral de Tarantino sobre esse gênero cinematográfico.
Além de confirmar Tarantino como um excelente diretor de atores, o filme acaba resultando no melhor exemplo do universo autoral e estilizado do seu diretor.  



quarta-feira, 6 de março de 2013

Colegas




Igualdade social, preconceito e Road Movies são tramas que frequentemente aparecem no cinema, mas nunca foram tão bem tratados como em “Colegas”. Stallone (Ariel Goldenberg), Márcio (Breno Viola) e Aninha (Rita Pokk) são três jovens portadores de síndrome de Down. Eles vivem em uma instituição para portadores de necessidades especiais comandada pelo casal Arlindo (Lima Duarte) e Esmeralda (Amélia Bittencourt). Eles crescem ativos e cheios de energia passando por cima das suas limitações.
Um dia, inspirados pelo filme “Thelma e Louise” eles “roubam” o carro de seu Arlindo e partem em uma emocionante aventura.

O filme é construído de maneira delicada por Marcelo Galvão. O diretor investe nos planos mais abertos, sobretudo após a “fuga” dos protagonistas com o objetivo de demonstrar o poderoso enredo e os talentosos atores que tem em mãos. Ao mesmo tempo em que imprime na tela a sensação de liberdade vivenciada pelos seus personagens.
Trabalhando em um habilidoso jogo de câmera em conjunto a um corte rápido e delicado de planos, Marcelo confere ao filme uma dinâmica muito interessante, conseguindo intercalar diferentes espaços fílmicos que coexistem nesta narrativa poética e bela.

A montagem tropeça em um único momento: no prólogo inicial tornando confuso o primeiro momento da narrativa, antes do filme iniciar de fato. Depois desse pequeno equivoco, a montagem se iguala ao restante do filme, tornando-se um aliado competente da direção na tarefa de estabelecer o dinamismo da trama.

A fotografia é um elemento importante do filme. Se tratando de um “Road Movie”, possuiu um tom naturalista em suas lentes, com o objetivo de captar o espaço percorrido por seus protagonistas. Utilizando uma luz natural que realça o cenário/espaço fílmico mesmo em cenas noturnas.

O roteiro de Marcelo Galvão é extremamente sutil e é ai que está o seu ponto forte. Repleto de situações cômicas ao expor estes personagens a uma aventura e a maneira como eles á encaram. Diálogos naturalistas dão o tom do filme, juntos a citações cinematográficas. Além de “Thelma e Louise”, o fim tem referências a filmes como “Cidade de Deus”, “Tropa de Elite”, “Jules e Jim-Uma Mulher para Dois”. E também referencias a cineastas como Jean-Luc Godard e Pedro Almodóvar.

Aliás, é bom resaltar que conforme a narrativa avança, as referências cinematográficas e o amor de Marcelo Galvão pela sétima arte ficam mais evidentes no filme. Inclusive quando o diretor opta por um “intercambio de mídias” em seu filme ao colocar um telejornal como um elemento de suma importância no filme e seus atores que interpretam os jornalistas atuantes no mesmo.   
 
Os atores protagonistas Ariel Goldenberg (Stallone), Breno Viola (Márcio) e Rita Pokk (Aninha) atuam com uma naturalidade impressionante. Portadores da síndrome de Down eles garantem os trejeitos exatos á seus respectivos personagens. O fato de serem portadores da síndrome não diminui nem compromete suas performances cênicas em nada. Eles são atores e todos os três atuam de maneira genuína e ponto. A deficiência deles se torna apenas um mero detalhe quase imperceptível, tanto para os atores quanto para os seus respectivos personagens.

Lima Duarte (Arlindo) atua de maneira visceral no filme. Sua interpretação é construída de maneira afetiva. Isso contribuiu muito para o filme, visto que o personagem Arlindo possuiu uma função dramática muito importante no enredo: ele narra o filme.
Amélia Bittencourt (Esmeralda) é outra que ao lado de Lima atua de maneira coesa e com o naturalismo que o enredo e o personagem pedem.

A trilha sonora tem um efeito narrativo em “Colegas” e funciona muito bem como acompanhamento dramático. Aliás, por falar em acompanhamento é impossível deixar de citar a presença de Raul Seixas na trilha conferindo ao filme um efeito lúdico muito bem.

O resultado de “Colegas” é extremamente positivo. Ao desmistificar o diferente, o filme acaba proporcionando um espetáculo lúdico e poético, Além de ser um reflexo de dentro de nós mesmos ao proporcionar ao espectador se identificar com aqueles personagens.






segunda-feira, 4 de março de 2013

Foo Fighters:Back and Forth




O Foo Fighters é uma banda que nasceu da “Dor”. Da dor de Dave Grohl pelo fim do Nirvana (motivado pelo suicídio de Kurt Cobain em 1994) e pelas saídas dos outros representantes Nate Mendel e William Goldsmith de suas respectivas bandas. Tendo uma trajetória cheia de altos e baixos é natural que a banda tenha sua história contada em um documentário.

 É o que acontece em Foo Fighters: Back and Fourth dirigido por James Moll.
O filme é ancorado pelo Dave Grohl e retrata com veracidade o processo que levou ao Foo Fighters junto à reconstrução de seu vocalista como músico após a trágica dissolução do Nirvana.

O fato é que o Foo Fighters viveu em seus primeiros anos á “sombra” do Nirvana. A banda também sofreu inúmeras mutações internas até encontrar a química musical que tem hoje e todas essas “mutações” ocorreram aos olhos do público.

O diretor James Moll construiu uma narrativa intimista ao permitir ao espectador entrar na intimidade profissional e pessoal da banda sem restrições. Os integrantes se mostraram totalmente abertos ao expor seus conflitos musicais e inclusive pessoais. Moll se aproveitou dessa “abertura” dos músicos para traçar um panorama interessante do crescimento deles enquanto banda ao tentar encontrar o entrosamento musical e pessoal que os une hoje (o que acabou incluindo algumas trocas de integrantes).

O documentário é bem sucedido ao enfatizar as origens da banda liderada por Dave Grohl. Porém peca ao dedicar tempo excessivo da projeção nos bastidores profissionais da mesma, parecendo um “Big Brother” do Foo Fighters. Mas talvez, isso seja inevitável, pois a banda cresceu aos olhos do público (com todos os pós e contras que isso acarreta).
Mas não pense que “Back and Forth” é somente conflitos deixando a parte musical de lado, pelo contrario o filme expõe muito bem o processo criativo e inspirações para que o Foo Fighters acontecesse musicalmente falando.

Um aspecto muito bem evidenciado em “Back and Forth” é a liderança de Dave Grohl. Não só como frontman, mas também como uma espécie de diretor criativo. Somando isso ao grande talento e presença de palco de Grohl, foi realmente difícil para Dave aprender a dividir e a agir como uma banda, um grupo. Isso, por outro lado oprimiu os demais integrantes que frente ao talento incontestável de seu líder, precisaram encontrar seu lugar naquela dinâmica já pré-estabelecida por seu vocalista, ao mesmo tempo em que Dave aprende a fazer concessões.

O filme pode ter demorado a tratar especificamente do aspecto musical performático da banda, mas quando o faz compensa a demora excessiva. O diretor James Moll estabeleceu um dinamismo e uma abertura para que demais linguagens artísticas possam coexistir dentro do documentário, o que acabou conferindo ao filme uma vitalidade impressionante.

Ao expor a escalada gradativa da banda rumo ao topo, James Moll prepara o espectador para o verdadeiro espetáculo cênico que o Foo Fighters faz no palco. A banda liderada por Dave Grohl tem uma incrível presença de palco realizando sempre uma atuação visceral. Nesse ponto, o diretor imprime a grandiosidade da presença de palco do Foo Fighters em suas lentes.

O documentário permitiu ao espectador colocar os olhos sobre o “Buraco da Fechadura” da sua banda preferida ou conhecer suas origens (como foi o meu caso) e passar a admira-la. Entretanto, o documentário não traduz a banda e sua música na totalidade, mas certamente é um caminho para conhecê-los e entende-los.





























segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

As Sessões





Mark O´Brien (John Hawkes) convive com as limitações impostas pela poliomielite desde os seis anos. Com dificuldades físicas e principalmente respiratórias. Vive praticamente ligado a um aparelho de respiração mecânica 24 horas por dia ou então a um respirador portátil, o que lhe garante uma sobrevida.
Mark é um poeta brilhante, porém aos 38 anos existe ainda um campo a ser explorado: o sexo. Mark é virgem, mas com a ajuda da terapeuta sexual Cheryl (Helen Hunt), Mark vai conhecendo o corpo feminino, enquanto redescobre o seu próprio.


Inspirado em um uma história real, “As Sessões” trata de temas ainda considerados tabu na sociedade moderna infelizmente: O sexo e as diferenças humanas.

“As Sessões” é um filme meramente simples dos pontos de vista técnico e narrativo. E ai está o ponto forte do filme.

Após um breve prólogo muito bem executado, o filme se converte basicamente nas lembranças do personagem principal, de modo que há a partir desse momento a intersecção de “presente passado”, sem, entretanto confundir o espectador.

Dono de uma direção intimista, Ben Lewin mantêm seus atores em perspectiva, apostando em planos mais fechados e closes. Principalmente do protagonista Mark (John Hawkes) já que ele é o narrador da trama.

Apesar de ser basicamente apoiado em flashbacks, “As Sessões” também tem momentos no “tempo presente” para que o Mark (John Hawkes) recorda-se de suas sessões com Cheryl (Helen Hunt). Também para que o diretor possa trabalhar os demais plots, usando sempre agilidade na troca de planos.

Por falar em narração, o tipo de narrador utilizado é “Over”. Assim “evocando” o pensamento do protagonista Mark O´Brien (John Hawkes).

A fotografia tem um papel sutil, mas essencialmente de transição no filme. À noite , quando Mark se encontra sozinho em seu aparelho mecânico, a fotografia faz mais uso de sombras, resaltando a solidão do personagem. De dia, a fotografia adquire um aspecto mais solar e convidativo, justamente quando Mark redescobre a vida.

O roteiro de “As Sessões” foi construído de maneira simples e sutil. Focado principalmente na construção de personagens e na trajetória deles. O diretor e roteirista Ben Lewin deu contornos muito humanos a todos os personagens, até os coadjuvantes. Dessa maneira todos os personagens tem seu devido espaço na narrativa.

O elenco é relativamente pequeno, o que garante a todos os atores o seu devido espaço e momento de destaque no filme.

John Hawkes interpreta Mark O´Brien com uma atuação intimista e mais cerebral. O que de fato é esperado, já que Mark é paralisado fisicamente enquanto seu cérebro funciona a mil por hora. John atua com desenvoltura e soube conferir ao personagem trejeitos perfeitos, bem como demonstrar sua evolução gradual.

Helen Hunt garante um humanismo interessante a sua personagem, a terapeuta sexual de Mark Cheryl. Interessante observar a química cênica que ela e John Hawkes apresentam quando juntos.

Porém, a personagem é quase que inexistente em momentos “solo”. Não por falta de talento da atriz Helen Hunt, mas por falta de storyline mesmo. Por este motivo acho equivocada a indicação de Hunt a melhor atriz no Oscar 2013.

William H. Macy interpreta o Padre Brendon amigo e confidente de Mark com desenvoltura e afinco. É no mínimo engraçada a evolução do personagem. Como na cena em que aparece na casa de Mark (John Hawkes) com visual de motoqueiro e com caixas de cerveja a tiracolo. Um dos melhores momentos do longa.

  Moon Bloodgood que interpreta Vera, a principal enfermeira de Mark é um talento a parte no longa. É uma pena que atriz não ganhe mais destaque. O pequeno destaque que lhe foi dado, ela executou com afinco. É de lamentar que uma personagem boa com uma premissa de storyline interessante foi usada apenas para “encher linguiça”.


Se a intenção de Ben Lewin foi realizar um filme despretensioso, afirmo que ele cumpriu seu objetivo. É justamente nessa “despretensão” que o filme mais ganhe pontos com espectador, tornando-se agradável. Embora, o filme poderia render muito mais do que rende, mas ainda assim é uma experiência satisfatória.


    


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Apenas o Fim



Cinema é uma arte que se aprende na raça, entretanto as escolas e universidades de Cinema podem ser um terreno propicio a experimentação, da onde podem sair bons filmes. Esse é o caso de Apenas o Fim, filme de Matheus Souza feito com alunos da PUC-Rio.  Rodado na própria universidade que ultrapassou a barreira experimental e foi parar nas telas dos cinemas premiando seu jovem e talentoso diretor.

O enredo do filme é centrado no casal Adriana (Erika Mader) e Antônio (Gregório Duvivier) no que era pra ser um dia comum na universidade onde ambos cursam Cinema. Era, porque Adriana diz a Antônio que vai embora, terminando o relacionamento. Assim, ambos passam o dia juntos discutindo a relação que tiveram.

Dirigido e roteirizado por Matheus Souza, o filme parte de uma premissa bastante comum: um casal que resolve discutir a relação. Porém a direção ágil e um roteiro extremamente bem estruturado, cheio de referencias a cultura pop elevam o potencial do filme.

Rodado inteiramente em planos sequência, com pequenas e breves intersecções de flashbacks dos momentos passados do casal, constituídos de maneira avulsa e em preto e branco, o que da ao filme um aspecto mais documental nesse momento.

Mantendo a câmera na maioria das vezes bastante próxima aos seus atores, garantindo assim um tom intimista ao longa. Matheus opta por se render a experimentação, como por exemplo, ao utilizar o plano americano, acompanhado do usual Travelling. Travelling que alias permeia toda a narrativa.  

O roteiro de Matheus Souza é extremamente bem construído, como falei acima. Além disso, explora muito bem as típicas situações cotidianas da vida do casal protagonista. Diálogos rápidos e cheios de referencias pop dão um colorido todo especial a narrativa. Somando isso a personagens comuns com personalidade e características próprias, fugindo assim do habitual clichê comum nos filmes do gênero. Parte disso se deve as inúmeras referencias e citações a personagens e produtos da cultura pop que aliado a o texto e ritmo ágeis do diretor funcionam na tela.

A fotografia de  Julio Secchin, marca presença, sobretudo nos flashbacks da vida do casal, onde nos é permitido conhecê-los mais intimamente. A fotografia em preto e branco confere ao flashback um tom documental e experimental, estabelecendo assim um interessante contraponto ao “Tempo corrente” do filme.

A trilha sonora exerce aqui, uma função antes de tudo sensorial no sentido de que estabelece na tela a gênese da relação do casal protagonista.

O filme é quase totalmente ancorado no casal interpretado por Erika Mader e Gregório Duvivier. Sendo assim, as chances dos atores trabalhem as nuances de seu personagem com afinco foi bem maior, o que reflete na tela.

Gregório Duvivier interpreta Antônio com uma vivacidade impressionante. Gregório interpreta Antônio resaltando com maestria os divertidos trejeitos do personagem Nerd em uma espécie de humor negro. Além disso, Gregório demonstra aqui uma incrível veia cômica (o que já é habito do ator, diga-se de passagem) com uma sincera disposição de rir de si mesmo.
 
Erika Mader da a sua personagem Adriana a jovialidade, o carisma e a beleza necessário para o papel. Já que Adriana pode (e deve) ser considerada a “Musa” de Antônio. Erika imprime perfeitamente a ambiguidade daquela personagem que sente que já fez a boa ação da vida ao namorar o Nerd por tempo demais e é hora de seguir em frente.

O Resultado de “Apenas o Fim” foi extremamente feliz. Não só porque jogou luz no Cinema universitário Independente, mas também porque nos apresentou ao seu talentoso realizador Matheus Souza, cuja carreira hoje está em franca ascensão. A partir de agora irei acompanhar todos os trabalhos desse jovem talento e sugiro que vocês façam o mesmo.








domingo, 10 de fevereiro de 2013

O Mestre






A Cientologia é uma religião envolta em popularidade e mistério. Popularidade pelo fato de muitos famosos como Tom Cruise e John serem adeptos da seita e ajudarem a propagar seus ideais. Mistério porque suas origens e métodos são para grande parte das pessoas desconhecidos.
Dado a sua popularidade, já era de se esperar que ela rendesse um filme “inspirado” é claro, pois os cientologistas certamente não gostariam de ver sua seita assim tão difundida.

Esse filme é “O Mestre” de Paul Thomas Anderson que foca em seu enredo principal, a criação da seita fictícia “A Causa” (uma alusão a Cientologia).

Regresso da segunda guerra mundial, Freddie (Joaquin Phoenix) encontra conforto e abrigo na figura de Lanchester Dodd (Philip Seymour Hoffman), um estudioso que é criador de uma seita religiosa chamada “A Causa”. Conhecido como o Mestre. Dodd acolhe Freddie em seu seleto grupo e faz dele seu principal aprendiz e propagador de suas ideias. Entretanto diferenças de pensamento acabam por afastar essas duas pessoas.

Paul Thomas Anderson confere ao filme, ambientado nos anos 50 uma direção magistral dotada de cortes precisos e sobreposições narrativas. O diretor comanda as cenas de forma coreografada, apostando em planos mais fechados, closes e elipses, construindo assim a atmosfera intimista do enredo.

A fotografia tem papel essencial em um filme de época como “O Mestre” que se passa no inicio dos anos 1950. Contribuindo para ao lado da montagem, fazer do filme algo de extrema grandeza, tal como é.

No prólogo ocorrido na segunda guerra mundial a fotografia de Mihai Malaimare Jr é dotada de um granulado forte, o que transporta de certa forma o espectador para o ambiente de horror da segunda guerra mundial.

No segundo ato do filme em diante, onde Freddie (Joaquin Phoenix) já encontra o “Mestre”, Lanchester Dodd (Philip Seymour Hoffman), a fotografia deixa de lado o granulado que marcou o primeiro ato e assume um tom escuro, tom esse que irá perdurar até o fim do filme.

A fotografia é no filme, sem dúvida um elemento de transição.


O roteiro de Paul Thomas Anderson constrói a relação dos personagens de Philip Seymour Hoffman (Lanchester Dodd) e Joaquin Phoenix (Freddie) de maneira gradativa e convincente. Assim como mostra o aumento da popularização da “Causa”, que toma proporções assustadoras.

Entretanto, o roteiro encontra seu “calcanhar de Aquiles” no uso demasiado de elipses que prejudicam a compreensão do espectador em alguns momentos.


Apesar de possuir um grandioso elenco, Paul Thomas Anderson centraliza a narrativa de seu filme na relação entre os protagonistas Freddie (Joaquin Phoenix) e Lanchester Dodd (Philip Seymour Hoffman), o que proporcionou aos dois atores inúmeras chances de brilhar com suas interpretações meticulosas de seus personagens.


Joaquin Phoenix construiu seu personagem freddie de maneira gradativa, o que acabou resultando em freddie ser o exemplo legitimo do “cristão novo” da seita religiosa retratada no filme. Seu personagem é aquele que reticente a se comprometer com a “Causa” e quando o faz é com inúmeras resalvas.

Assim, Joaquin Phoenix empresta ao seu personagem uma atuação contida, minimalista.

Porém, Phoenix entrega toda a sua energia e furor cênico nas cenas que exigem tal enfoque e realiza essa peripécia cênica com perfeição. Como quando seu personagem, freddie é obrigado a correr de um lado para o outro da sala e assim sucessivamente. O ator nessa cena especificamente expõe toda a descarga dramática de seu personagem com louvor.

Em um contraponto interessante ao seu companheiro de cena, Philip Seymour Hoffman garante uma interpretação expansiva e cerebral ao seu personagem Lanchester Dodd. Dodd é cerebral quando está em volta de suas experiências e “testes” da sua seita. Porém é extremamente expansivo e dotado de senso de humor nos momentos íntimos e familiares.

Phillip soube exprimir com exatidão as nuances de seu personagem, transpondo em cena todas as facetas de um personagem tão controverso.

A música possui em “O Mestre” uma função de extrema importância narrativa. Diretamente associada à tensão dramática exercida pelo filme.

A música lírica predomina no filme, estando diretamente ligada com os acontecimentos da trama. Dessa maneira, a música se eleva principalmente nos pontos de virada do enredo. Do contrario, exerce o papel de acompanhamento narrativo.

O resultado de “O Mestre” é um filme extremamente reflexivo, pois abre caminho para uma discussão muito aprofundada sobre religiosidade, não só sobre a cientologia em que o filme é aparentemente inspirado.

Paul Thomas Anderson entregou com “O Mestre” um ótimo trabalho, beirando a excelência. Um filme com uma direção extremamente marcante e atuações impares.