sexta-feira, 18 de abril de 2014

Embriagado de Amor



Demorei a gostar de “Embriagado de Amor”, essa comédia esquizofrênica de Paul Thomas Anderson,um dos meus cineastas favoritos. Mas bastou uma segunda visita a essa comédia esquisita, para perceber o quanto eu me identifico com esse filme.

Barry Egran(Adam Sandler) é um cara esquisito, cheio de manias. Berry possui uma incapacidade social,é estranho e mimado por suas sete irmãs mais velhas, porém todo esse mimo também o sufoca socialmente.

“Embriagado de Amor” é a primeira vista um filme estranho, esquisito com uma atmosfera muito “fria” e impessoal mas, toda essa estranheza é um reflexo da personalidade do protagonista Barry(Adam Sandler, em uma atuação estranhamente cômica).

Paul Thomas Anderson reflete a esquisitice do personagem com enquadramentos muito duros, closes dotados de um jogo de câmera com o propósito de causar um desconforto cômico como os embates de Berry com suas irmãs superprotetoras. Anderson foi inteligente ao deixar fluir todo o talento cômico de Sandler. O diretor fica ali a espreita captando todo o humor do personagem.

 Em uma cena em particular, o cineasta utiliza de seu talento e destreza ao utilizar enquadramentos duros e repetitivos em diferentes posições ,focalizando o rosto de Sandler e captando assim, o sufoca mento e a inadequação social e afetiva do personagem.

Paul Thomas Anderson é mesmo um diretor e roteirista muito talentoso e com tamanha inteligência. Só com tamanho talento pra criar momentos cômicos non-sense sem cair no ridículo. Pelo contrario, Anderson cria e estrutura as situações de uma forma naturalmente cômica com exatidão e Adam Sandler numa excelente dobradinha ator-diretor realiza as cenas com uma naturalidade impressionante e principalmente sem cair no ridículo.

O diretor consegue estruturar seu filme com uma narrativa solida, fazendo de seu filme, uma comédia com conteúdo. Com cenas ora ágeis, ora longas, com direito a momentos de Barry em completo ócio  e cortes secos, seguidos por travellings.  A Relação de Berry com Lena(Emily Watson) é construída   com um tom cômico naturalmente embutido.


Eu não sou muito fã de comédias, mas “Embriagado de Amor” me ganhou não só pela inevitável identificação com as esquisitices do personagem de Sandler mas sobretudo pelo afeto com que Paul Thomas Anderson construiu sua historia com inteligência, ressaltando o componente emocional da narrativa e do personagem principal. “Embriagado de Amor” sem dúvida, está longe de ser um filme vazio e caricato , pelo contrário, é um filme com alma.

Anderson construiu sua narrativa sob o personagem de Adam Sandler. O diretor/ roteirista não teve receio de construir as situações, pois certamente , tinha plena certeza de duas coisas: Do talento de Adam Sandler e que todas as situações não eram estapafúrdias, existia sim, uma veia cômica com alguns tons acima em muitas delas porém, tudo isso é justificável se analisarmos a incapacidade social e carência afetiva de Barry(Sandler).

A relação de Barry com Lena(Emily Watson) é construída gradativamente, com cuidado,sensibilidade e principalmente, humor. Importante ressaltar não só a liga entre os personagens Berry-Lena pois ambos se encaixam por serem “fora do padrão” comportamental aceito na sociedade. Talvez, por isso mesmo, Paul Thomas Anderson tenha escolhido uma atriz que foge do padrão estético comum. Emily Watson , é bonita sim , mas está longe de ser uma Julia Roberts por exemplo.
É melhor que a atriz seja assim, se fosse muito bonita, perderia a graça e ficaria inverossímil.


O único ponto fraco foi a inclusão do sub-plot “da máfia do tele-sexo”. isso sim, foi muito manjado e descartável. Mas , tem uma boa justificativa; Tenho certeza que Anderson criou esse plot com o único propósito de ter o seu ator-fetiche , o saudoso Philip Seymour Hoffman abrilhantando seu longa.



Um dos aspectos mais interessantes e que também contribuem para essa estranheza inicial com o longa é a sua fotografia. A cargo de Robert Elswit. Construída predominante com cores frias e uma contraluz natural com luz solar rebatida e também estourada que realça e se justapõe a interpretação dos atores na cena , garantindo algum equilíbrio ao tentar quebrar aquela frieza do protagonista, ao mesmo tempo, essa alta luminosidade nas raras cenas externas no inicio do longa , representa o isolamento social de Berry(Adam Sandler). Interessante notar, que esse artifício é quebrado com a chegada de Lena(Emily Watson).


A trilha dietética de Jon Brion é espetacular, trabalhando em duas vertentes opostas que se completam na narrativa: Primeiro, um instrumental (não é a toa, que Barry “toma” um piano pra si) que reflete o isolamento social e o comportamento pelicular de Barry(Adam Sandler) e o uso de tambores africanos , que representam a trajetória de libertação social do personagem através do amor de Lena(Emily Watson). É como se o amor fosse tratado não só como uma libertação mas como uma razão para celebração.



Adam Sandler impressiona ao compor Barry com vários tiques e esquisitices próprias do personagem e com uma comédia presente a todo o momento, mesmo que nas entrelinhas. Sandler soube pontuar sua veia cômica para que ela surgisse natural e espontaneamente. O ator soube dar alma ao personagem e aos seus dilemas com  carisma e afeto, tornando fácil a identificação com o protagonista.


Emily Watson faz de Lena a perfeita metade da laranja de Barry. A atriz constrói sua personagem fora do padrão com leveza e encantamento ,além de estabelecer. química cênica com Adam Sandler. Não conhecia o trabalho de Watson, mas a atriz me lembrou Renée Zellweger em “Jerry Maguire”

Philip Seymour Hoffman dispensa apresentações,até porque nem todos os adjetivos do mundo juntos seriam suficientes para descrever o seu talento. Digo apenas que sua atuação neste filme é a prova que um  grande ator brilha em qualquer papel. Não é difícil saber porque era o ator -fetiche de Paul Thomas Anderson, pena que já não está mais entre nós.



Paul Thomas Anderson fez em “Embriagado de Amor” uma comédia deliciosa para nós os desajustados, engraçada mas principalmente com alma e coragem.











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domingo, 13 de abril de 2014

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho


O Curta-Metragem “ Eu Não Quero Voltar Sozinho” conquistou tantos fãs pela sua delicadeza, ternura e sensibilidade e tamanho o potencial da história , que o caminho natural é que o inspirador Curta se torna-se um Longa-Metragem.


E foi o que aconteceu, “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” não é uma continuação do curta, pelo contrário ,ele expande a narrativa recontando-a e tornando a trajetória do adolescente Léo(Guilherme Lobo) em busca de suas descobertas e independência enquanto tenta lidar com suas limitações por ser um deficiente visual muito mais prazerosa e inspiradora de se assistir.


O diretor Daniel Ribeiro soube fazer a transposição e a conversão da história de seu Curta-Metragem de maneira muito bem sucedida, evitando assim que o filme perdesse a qualidade da trama original e principalmente, a sua essência.

Dotado de uma incrível sensibilidade, Ribeiro conduz seu filme com a delicadeza esperada(e necessária). A forma com que as situações se formam na tela é tão natural e genuína que é impossível o espectador não deixar emocionar pela historia.

Como já disse, o diretor aposta na naturalidade e isso engloba tudo mas principalmente na sua forma de dirigir que aposta em uma agilidade de planos muito natural, de forma que as situações são construídas como uma crônica trivial, a sucessão de planos ocorre sem grandes efeitos sonoros,ela simplesmente ocorre , é natural como a vida.

Acho que isso diz muito sobre o trabalho de Daniel Ribeiro, o diretor aborda as questões de forma muito sensível e deixa que as tramas brotem de forma natural.

Natural também é a atmosfera fílmica que o diretor envolve o seu elenco,extraindo assim ótimas interpretações de seus atores, Ribeiro sabendo da preciosidade nas atuações de seu elenco concentra sua câmera em duas posições principais: A espreita quase imperceptível, apenas acompanhando o desenrolar da narrativa e apostando fortemente nos closes e plano-contraplano, o que permite ao diretor extrair a ternura que permeia a narrativa e Ribeiro é extremamente habilidoso na direção de atores captando as feições e nuances genuínas do seu talentoso elenco.

A fotografia é um dos pontos altos do filme, pela forma que engrandece as imagens e eterniza as cenas , conferindo-as uma beleza muito sutil. Apostando em uma luz difusa dosada a uma contraluz , o diretor de fotografia  Pierre de Kerchove encontra o equilíbrio perfeito para eternizar as cenas na memória e no coração de quem assiste.  

Como uma trilha magistral que fica na ponta da língua , a ponto de sair da sala de cinema cantarolando é um elemento narrativo de grande poder pois emana sentimentalismo ao longa.

O Roteiro de Daniel Ribeiro tem muitos atributos, pra começar, o diretor-roteirista constrói uma história totalmente encantadora e inspiradora, segundo, a forma genial com o que o cineasta aborda as temáticas das diferenças, sexualidade , independência e bullying são muito criveis , contribuindo para desmistificar os tabus que infelizmente ainda existem em nossa sociedade e acabar com o preconceito. O fato de Ribeiro não fazer da deficiência de Léo(Guilherme Lobo) o plot principal da narrativa é uma grande evolução, pois mostra que as diferenças são sim uma característica da nossa personalidade mas de forma alguma define quem as pessoas são.

O único porém na transição do curta para o Longa-Metragem foi que a narrativa perdeu um pouco do seu dinamismo que existia no curta, mas nada que prejudique o potencial do filme, pelo contrario é um mero detalhe.


Guilherme Lobo , Fábio Audi e Tess Amorim dão conta da difícil tarefa de “comandar” a narrativa, já que a trama do filme paira sobre os seus personagens, embora no longa, esse triangulo amoroso se torne um quadrilátero com a entrada de Karina(Isabela Guasco).

Guilherme Lobo merece honrarias pela forma com que reconstrói o seu personagem, Léo dando novas nuances aos novos e antigos dilemas que o adolescente enfrenta.

Lobo, Fábio Audi(Gabriel) e Tess Amorim(Giovana) não apenas reconstroem os seus personagens de forma impar, dando vivacidade e esbanjando química cênica mas exaltam sentimentalismo em seu estado puro emocionando o espectador e fazendo do corriqueiro um grande acontecimento.

Dois atores também merecem menções especiais: a Presença luminosa da excepcional atriz Selma Egrei como Maria, a avó do protagonista Léo(Guilherme Lobo) e Eucir de Souza como Carlos, o pai de Léo que incentiva a independência do filho. O ator tem uma performance maravilhosa, terna e graciosa. (emocionante a cena em que Carlos ensina Léo a se barbear, química perfeita).


Daniel Ribeiro conseguiu o seu objetivo. Emocionou, tocou corações ,provocou reflexões com um filme muito simples mas que se torna grandioso em sua simplicidade. Tocando, mágico e encantador “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” é maravilhoso e nada abalou seu potencial nem a quebra na dinâmica na transição curta-longa. Ouso dizer que a história de Léo e companhia tem potencial pra ainda mais de modo que torço pra uma continuação.


“Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” é a perfeita traide entre encanto,magia e sensibilidade e um forte candidato aos melhores filmes do ano. 


segunda-feira, 31 de março de 2014

Tudo por Justiça



“Tudo por Justiça” bem que poderia se chamar “Alta Tensão” , tamanho o nível de dramaticidade que o filme possui e provoca esse sentimento a flor da pele do espectador.


“Tudo por Justiça” aborda a relação entre os irmãos Russel(Christian Bale) e Rodney(Cassey Affleck). O primeiro, seguindo a trajetória do pai doente é um trabalhador braçal em uma siderúrgica. O Segundo é um jovem problemático que é um lutador ferroz das rinhas ilegais. Mas quando tudo parece estar perdido e os irmãos só tem a eles mesmos, Russel desenvolve seu próprio censo de justiça.


Em primeiro lugar, “Tudo por Justiça” é um daqueles filmes que deixam o espectador inerte, pelo fato de que além da tensão ser elevada ao limite a todo o momento provocando o espectador, o elemento surpresa torna tudo mais imprevisível. 


O diretor Scott Cooper ciente do alto nível de tensão que o enredo possui , se preocupa em canalizar esta força sobre-humana que paira sobre o longa, construindo uma atmosfera fílmica que deixa sempre espaço para o descontrole, para o embate.
O próprio prólogo do longa é um exemplo da violência que esta por vir. Cooper situa esses personagens em um ambiente hostil, colocando-os em posição de explodir a todo e qualquer momento.

Cooper incita o público , ao mesmo tempo que os personagens são incitados a usar de força bruta(de modo que se você tiver coração fraco, este não é um filme que eu recomendaria). Dotado de extrema inteligência e destreza fílmica, o diretor provoca a ação , a explora e depois a corta pela metade em um hábil uso das elipses e do corte seco , só pra depois voltar a explora-la com a devida tensidade dramática.

Sempre com sua câmera a espreita a espera de captar reações de seus atores, Scott Cooper é provocador ao mesmo tempo em que se revela um excelente diretor de atores. Se de um lado ele investe nos closes, no jogo de câmera e no corte seco para incitar a tensão , ele ainda conduz os atores a um trabalho corporal em busca da sua brutalidade.

E você pensa que Cooper se deu por satisfeito com o ALTO nível de tensão dramática e a raiva saindo pelos poros? Não. Ele ainda converte todos os outros elementos, principalmente o espaço fílmico como forma de aumentar ainda mais o nível de dramaticidade.

Utilizando-se de força bruta e intelectual, o diretor molda seu filme como um filme muito masculino e viril. Os próprios universos, espaço e personagens tem essa masculinidade aflorada ou ela esta a espreita de aflorar.

O trabalho de conversão dos elementos fílmicos feito pelo diretor torna “Tudo por Justiça” um filme muito sensorial , no sentido de que a atmosfera e principalmente a música carregam a tensão dramática.


Dotado de um trabalho de edição primoroso, o filme usa da montagem para evidenciar a ligação e as diferenças entre Russel (Christian Bale) e Rodney(Casey Affleck). Através da montagem paralela, o diretor ilustra as personalidades distintas dos dois irmãos bem como a ligação emocional que eles carregam. Usando do jogo de trucagens, o diretor brinca com os momentos tensos de cada um, deixando o espectador sem fôlego.


A Música tem alto poder dramático nesse filme, carregando a tensão eminente, ela age de forma sensorial, através de uma trilha instrumental que potencializa a dramaticidade fílmica e tem seu ápice na canção “Release” da banda Pearl Jam que abre e fecha o filme.



Christian Bale e Casey Affleck estão estupendos- pra dizer o mínimo em suas interpretações como os irmãos Russel e Rodney. A forma como expressam as nuances cheia de fúria de seus papeis, não só interpretando mas sim VIVENCIANDO isso a flor da pele é absolutamente sensacional. Os atores carregam as emoções esboçam a carga dramática capaz de deixar o espectador estarrecido. Se Affleck surpreende pela vivacidade de seu papel desde o inicio, Bale, em uma performance absolutamente memorável , o responsável por deixar o espectador vidrado e de coração na boca pela brilhante forma que realiza a curva dramática de Russel.


Eu não esperava muito de “Tudo por Justiça”. Ledo engano, trata-se de um drama forte, emocionante, violento, sanguinário e muito masculino, de modo que você precisa ter sangue no olho pra assistir.












domingo, 30 de março de 2014

Análise Visual: O Cozinheiro , o Ladrão, sua Mulher e o Amante


O filme “O cozinheiro , O Ladrão , Sua Mulher e o Amante” de Peter Greenaway , não é um dos filmes mais fáceis de se assistir, entretanto, o espectador é brindando com três aspectos excelentes(Uma direção excelente,atuações devidamente teatrais e uma rica direção de arte). Munido de um excelente trabalho de composição é na direção de arte que se encontra a força narrativa do longa e é ela que evidencia através de mudanças drásticas no aparato visual do filme(que aliás não se restringe apenas aos objetos de cena mas ao uso de cores e a vestimenta dos atores) As mudanças de cores evidenciam a curva da tensão dramática , podemos reparar pelo uso de cores vivas , fortes e vibrantes que o diretor escolheu como uma forma de usar metáforas e simbologias através do uso da cor não só para reforçar a tensão dramática e dar força e energia as cenas de forma a aumentar a tensão iminente e não permitir que o filme caia no lugar comum de forma que não soe repetitivo. “O Cozinheiro, O Ladrão, Sua Mulher e o Amante” é um excelente exemplo de que construção fílmica se da pela união e harmonia de todos os elementos presentes e nisso , o filme de Peter Greenaway.


Abaixo 5 cenas de belíssima união plástica e narrativa. 


1-5:15 a 6:31: ambiente nada sofisticado, representa visualmente a pobreza daqueles que ali trabalham de forma exaustiva, aparentemente sendo massacrados pelo Sr Albert Spica, a Criança na cena simboliza a miséria e o alto fardo de trabalho. O fato dela cantar , representa sua esperança.
A cor na cena predominante é um verde musgo e muito mal aparado. Os próprios objetos de cena, como utensílios de segunda mão são reluzentes naquele ambiente pobre,é uma das poucas coisas que dão vida a cena(embora aja ausência de cor) refletindo as péssimas condições de trabalho. O único componente vivo da cena é a cortina da cor verde que representa o espetáculo promovido pelo Sr com sua chegada, demonstrando temor e hierarquia.


 2-A conversa de Albert  com o chef de cozinha Richard se passa em dois ambientes onde o verde musgo também predomina , embora aqui já aja maior presença da cor e uma cortina branca que serve para dar um equilíbrio á tensão dramática que predomina na cena. Esse equilíbrio ocorre porque o chef tem a ousadia de não se rebaixar a figura de dominância do Sr. Spica.










3-
8:02 a 9:48 acontece um apagão devido a megalomania do Senhor Spica de trazer um letreiro colorido ao restaurante. Neste momento há uma ausência quase que total de cor mas ao contrário da segunda cena há os figurinos vivos , e velas que ajudam a dar um pouco de vida ao ambiente.



4- 9:49 a 10:33 A luz volta e com ela toda a preparação para o jantar de Albert Spica. Há um requinte na construção dos mínimos detalhes da cena, Velas, talheres, utensílios caros, representado por um vermelho vivo. A cena simboliza dois pontos importantes: A grandeza social do senhor Spica(que condiz com a sua prepotência, com a qual maltrata a mulher Georgina) e retrata o embate entre Sr. Spica e o chef Richard que ousa a criticar a postura arrogante do patrão incomodado com o tratamento que ele da a sua mulher. 














5-10:35 a 13: retoma a situação do homem agredido por Albert  Spica , mas dessa vez há uma maior luminosidade na cena e ela é bem reveladora , no sentido que a câmera do diretor nos permite observar outras pessoas na mesma cena como uma açogueira , um chef e o jovem menino que volta a pedir paz. Predomina cores fortes e bem vivas como o verde reluzente e o vermelho sangue.


domingo, 23 de março de 2014

Não Estou Lá



Encantado. Essa é a melhor definição que eu consigo encontrar pra traduzir a minha reação ao drama biográfico “Não Estou Lá”.


Dirigido por Todd Haynes, o filme dramatiza diversas fases da vida do ídolo folk Bob Dylan. De beleza estética impressionante e uma história riquíssima , o filme consegue ir muito além de uma mera biografia.

O  filme é um exímio exercício de construção de um universo fílmico múltiplo e ainda complementar no qual, na conjunção desses universos formam-se um retrato da persona de seu biografado Bob Dylan. Utilizando uma poética encantadora , o filme consegue desmistificar e conquistar o espectador com as mais variadas vertentes do cantor Folk. Nesse ponto, merecem honrarias os roteiristas Todd Haynes e Oren Moverman por conseguir costurar múltiplos enredos e mais do que lhe garantir a simetria devida fazendo com que todos os plots se unem se tornando uma só narrativa. Embora eles demorem um pouco para unificar esse enredo múltiplo, mas quando o fazem , realizam esse feito com maestria.


Um enredo tão grandioso como esse cabe performances memoráveis. Mas o que se encontra neste glorioso longa é um exercício performático de primeira grandeza no qual 6 atores(Marcus Carl Franklin, Ben Whishaw, Christian Bale, Heath Ledger, Cate Blanchett e Richard Gere.)  Esses atores realizam um exercício performático de retorno a teatralidade carregando as devidas nuances de seus “Personagens” que na realidade são tudo a faceta de uma só pessoa: Bob Dylan.

Todos os atores que interpretam o astro merecem honrarias pelo minucioso trabalho de composição de personagem, sobretudo porque o roteiro e a montagem tem idas e vindas constantes no tempo fílmico , o que faz que os atores revivam a “sua fase” do personagem constantemente durante todo o filme.

“Eu Não Estou Lá” é um filme de conversão. Conversão no sentido de que a estrutura narrativa do filme é mutável quanto as fases que o longa aborda. Podendo ser um Road Movie como a faceta de Dylan defendida por Richard Gere como “Billy The Kid” , se convertendo não só num Road Movie mas assumindo todas as características de autentico faroeste. Ou então, o filme pode assumir uma faceta documental como na fase defendida por Cate Blanchett que dá vida a fase mais excêntrica do cantor como “ Jude Quinn” ou ainda em um filme metalinguístico como Robbie Clark um ator, personagem esse defendido brilhantemente por Heath Ledger que entrega uma interpretação fascinante e deveras difícil considerando que interpreta uma versão de Dylan dentro de um filme onde o personagem interpreta outra versão do cantor em um filme fictício. De perder o fôlego não?


A música de Bob Dylan da o tom a narrativa, tornando-a uma narrativa intimista que através das canções transbordam lirismo e poética , garantindo assim um aspecto transcendental ao longa, mantendo o espectador inerte aquela magia exercida sobre a tela.

A belíssima fotografia de Edward Lanchman também é peça fundamental no efeito inebriante que o filme causa no espectador. De natureza múltipla, a  fotografia se adéqua as diferentes fases, passando do granulado da primeira fase ao contraluz e a belíssima fotografia nas fases defendidas por Christian Bale e Cate Blanchett respectivamente.


“Eu Não Estou Lá” é um grande filme, exímio em concepção e realização cinematográfica, o longa consegue ser altamente multifacetado em sua estrutura transbordando magia, poesia e encantamento , tudo para homenagear as diferentes fases de um artista tão multifacetado quanto Bob Dylan.



  


sábado, 22 de março de 2014

Os Famosos e os Duendes da Morte



A adolescência é um período de transformações , de se encontrar a sua própria individualidade mas também pode ser muito solitária. É sobre esse doloroso rito de passagem vivido por muitos- e eu falo por experiência própria que trata “Os Famosos e os Duendes da Morte”.


Dirigido por Esmir Filho baseado no livro de Ismael Caneppele(que co-assina o roteiro e faz uma participação no longa). O Longa trata do Menino sem Nome que se auto intitula Mr Tamborine Man( em homenagem ao seu ídolo Bob Dylan.


“Os Famosos e os Duendes da Morte” é um filme de contemplação. O diretor com sua narrativa intimista nos convida a penetrar na mente do Menino sem Nome(Henrique Larré) e conhecer seu universo particular, seu mundinho, vulgo seu quarto e sua mente onde quiser.

O longa tem uma poética muito particular , possuindo força no aspecto psicológico e intimista dos anseios do jovem protagonista. Não por acaso, o filme possuiu uma estética onírica , de contemplação do sonho (nos quais o diretor Esmir Filho faz um excelente trabalho de construção e condução desse universo paralelo do protagonista , servindo como uma metáfora para os seus medos e anseios).

Dessa forma , o filme faz o processo inverso , de dentro pra fora. A maior parte da ação dramática ocorre dentro da cabeça do Tambourine Man e se tornando um filme muito mais introspectivo e onírico a medida que avança com um fluxo de consciência que faz que o universo particular do jovem( seu quarto, seu blog, seu computador suas músicas) tome forma visual e “salte” da sua mente.

A narrativa tendo esse lado introspectivo e poético muito forte, cabe a Esmir Filho manter a sua câmera a espreita apenas contemplando , registrando e traduzindo em imagens a força dos pensamentos do protagonista. para isso investe em poucos movimentos de câmera como closes e planos detalhe.

O Roteiro escrito a quatro mãos pelo autor do livro Ismael Caneppele e pelo diretor Esmir Filho é dotado de uma poética que impressiona pela extrema sensibilidade que constroem o universo particular do protagonista conseguindo traduzir em imagens seus medos, anseios e principalmente o sentimento de estar perdido do protagonista(Henrique Larré). 
Mas os méritos do roteiro não param por ai, não posso deixar de citar a brilhante forma com que usam a mente do protagonista e sua visão interna para expor seus sentimentos(contando com o incrível talento de Larré capaz de atuar por gestos e poucas falas). Fora isso é admirável a destreza dos roteiristas por unir e transpor os universos onírico e real numa simetria perfeita além de usar metáforas e principalmente fazer um retrato real do jovem contemporâneo.



Henrique Larré arremata o filme como o “Menino sem Nome” ou “Mr Tambourine Man”. Larré é o destaque supremo do longa tendo em vista que a narrativa é construída toda em cima de seu personagem e o ator não decepciona sendo completamente entregue ao seu personagem de forma sutil mas visceral.

Samuel Reginatto e Ismael Canappele se destacam de maneira marcante no longa. Reginatto é Diogo o único amigo do protagonista com o qual ele pode partilhar seus anseios a respeito do futuro. O ator imprime um humor mordaz em seu personagem bem próprio da juventude e interpreta seu papel com veracidade esbanjando ótima química com Henrique Larré.

Ismael Caneppele tem uma atuação decisiva para o desenrolar da narrativa do longa interpretando Julian um personagem singular, uma incógnita que a meu ver seria uma representação da figura paterna para o menino, embora o filme não deixe isso claro.


A trilha sonora é um show á parte recheada de hinos da música folk como a faixa titulo de Bob Dylan “Mr Tambourine” conta com canções do cantor  Nelo Johann.  A trilha de certa forma sintetiza a  introspecção e o universo particular do protagonista bem como seus medos e anseios.


É difícil traduzir o efeito de “Os Famosos e os Duendes da Morte” em quem assiste. Só posso enaltecer a delicadeza , a poesia e a magia que o filme transmite. É um filme feito com o coração como poucos hoje em dia, e pensar que perdi a palestra do Caneppele na minha faculdade. Mas uma coisa é certa: estou com vontade de ler o livro e rever o filme muitas vezes ainda. Já vai pro top 10 de filmes da vida.


  


quarta-feira, 12 de março de 2014