Em 2006 o documentarista Eduardo Coutinho colocou um anuncio no jornal
convocando mulheres a compartilhar suas historias de vida para a lente de uma
câmera. Historias essas que seriam encenadas por atrizes traçando assim um
paralelo entre o real e o fictício. O resultado é o documentário “Jogo de
Cena”.
Os depoimentos foram colhidos pelo próprio Eduardo Coutinho que assume
aqui a postura de entrevistador utilizando-se de um ambiente naturalmente neutro
(o teatro Glauce Rocha no RJ) para criar um documentário pessoal e livre no
processo criativo no que diz respeito às depoentes e as atrizes
respectivamente.
A liberdade de criação que Eduardo Coutinho da a suas atrizes na hora de
dramatizar os relatos das entrevistadas garante ao espectador a possibilidade
de perceber nuances dramáticas e performáticas daquela atriz em questão que
antes talvez passasse imperceptível.
Fatores como os dispositivos de criação dramática daquelas atrizes. Como
elas fazem para atingir aquele ápice dramático e emocional naquela cena. E se o
fato de se tratar de uma história real influencia no dispositivo de criação das
atrizes. O componente emocional também é um fator bastante explorado por
Coutinho tanto pelas depoentes quanto pelas atrizes. De forma bastante
delicada, o diretor permite que a depoente reviva livremente aquele fato
principalmente agora que ele é dramatizado. E quanto às atrizes Coutinho
investiga o quanto dramatizar aquele fato que lhes foi contado mexeu com o seu
emocional. Pois como todos sabem a matéria-prima do ator é a emoção. É daí que
saem as respostas mais surpreendentes desde aquela que atua da forma mais
visceral possível até aquela que se esforça para separar as emoções e não
esboçar uma reação descontrolada.
De novo retornamos a questão do método de criação que por sinal é um tema
recorrente que percorre todo o filme. O fato de o diretor proporcionar as
atrizes um método livre de composição de personagem abrindo assim espaço para
as mais variadas versões da mesma história e mais ele quer saber da própria atriz
a sua visão daquele relato o que acaba por se tornar um aspecto interessante
para o espectador de percepção da autoficção.
O detalhe de extrema importância no documentário é a montagem (ou a falta
dela). Digo isso porque Coutinho começa intercalando um depoimento e uma
dramatização de repente isso muda e ele começa explorar outras vertentes do
mesmo esquema. De certo por ter consciência de que esse esquema poderia cansar
a certo momento.
“Jogo de Cena” é um excelente documentário de Eduardo Coutinho que
realiza aqui um trabalho primoroso de investigação da alma humana. “Jogo de
Cena” vai além, pois abre espaço para uma discussão valiosa sobre o processo
criativo e dispositivos de criação performáticos e cinematográficos que é de
suma importância.
Quatro anos após a última aventura na Tailândia Phill (Bradley Cooper), Stu
(Ed Helms), Alan (ZachGalifianakis) e Doug (Justin Bartha) estão de volta à estrada.
Dessa vez não há despedida de solteiro, mas isso não significa o fim das confusões,
pois quando o “Bando de Lobos” coloca o pé na estrada tudo pode acontecer.
Após um segundo capitulo que deixou a desejar, a franquia “Se Beber Não
Case” encontra ares de renovação ao retornar aos seus primórdios nessa
terceira- e derradeira aventura.
O diretor Todd Philips estabelece um clima de dinamismo e frenesi
constante ao filme- isso se deve em parte ao roteiro enérgico e frenético escrito
por Philips e Craig Mazin. Phillips aproveitando a energia inserida no filme,
trabalha bem os planos garantindo assim um aspecto livre ao longa permitindo
que as situações se desenrolem de maneira orgânica á narrativa. O diretor
conferiu uma agilidade natural aos takes utilizando-se de sobre e justaposições
de forma a estruturar a viés cômico da narrativa. As situações sobre o comando
de Philips se desenrolam de forma rápida e dinâmica assim os planos se sobrepõe
em um ritmo frenético na primeira metade do longa, o que não impede o diretor
de trabalhar bem as cenas e as situações, a opção de diminuir um pouco o ritmo
na segunda metade do longa não prejudica a narrativa de nenhuma maneira.
Pelo contrário,
Phillips nos mantêm entretidos, ou melhor, vidrados no filme (e rindo muito,
diga-se de passagem). O ato de diminuir
o ritmo permite ao espectador entrar em contato com o lado humano dos
personagens especialmente Alan (ZachGalifianakis).
A montagem exerce aqui um papel importantíssimo. O de estruturar a
narrativa de maneira coesa em meio ao frenesi narrativo em que o filme se
encontra trabalhando como um poderoso aliado da direção de Todd Philipps.
Phillips, aliás, executa um excelente trabalho no que diz respeito à inserção
de flashbacks sobrepostos sobre as cenas que aqui funcionam como uma espécie de
tributo aos fãs da franquia além de refrescar a memória do espectador afinal faz
quatro anos desde que o primeiro filme foi lançado.
O roteiro escrito pelo diretor em parceria com Craig Mazin demonstra ares
de renovação. Phillip e Mazin encontraram o timming perfeito da comédia ao
construir situações que por mais non-sense que possa parecer arrancam
gargalhadas escrachadas dos espectadores às vezes de uma situação aparentemente
comum. E o melhor, os risos acontecem de maneira natural e não de maneira
forçada como no segundo filme. Eis uma evolução.
É uma pena que a música apareça timidamente nesse filme (e quando aparece
destoa das situações), o filme poderia ter crescido muito com o acréscimo
musical como pano de fundo das cenas.
O elenco arrasa mais uma vez. Bradley Cooper (Phill), ZachGalifianakis (Alan) e Ed Helms (Stu) esbanjam um perfeito
entrosamento cênico sendo o trio dotado de um perfeito timming de comédia
garantindo a graça do filme. Mas justiça seja feita, todos estão ótimos, mas, ZachGalifianakis rouba a cena com o seu Alan finalmente saindo da síndrome de
Peter Pan. Os melhores momentos do filme acontecem por causa e através do Alan
que é um personagem deliciosamente infantil, mas muito sábio nas mãos do
excelente ator que é Galifianakis.
Se Beber Não Case 3 é uma conclusão épica e humana para a franquia de
humor que infelizmente deixa seus fãs órfãos e com vontade de mais.
O funk é um
ritmo musical que veio das comunidades, das favelas. Contudo, sofre com o
preconceito e tarja de vulgar e de que faz apologia ao sexo. Para acabar com
esses preconceitos e tarjas que os mc´s carregam a cineasta Denise Garcia
dirigiu o documentário “Sou Feia mas Tô na Moda” em que mergulha no universo do
funk carioca em seu próprio território com o objetivo de dar voz a essas
pessoas marginalizadas e quebrar tabus.
Ancorado
por Deise Tigrona, o filme adentra a comunidade Cidade de Deus com o objetivo
de desmistificar os preconceitos que rondam o universo do funk tais como a
marginalidade e como dito acima se as músicas fazem ou não apologia ao sexo.
Entretanto, uma questão maior e mais importante é levantada: Se essas mulheres
que cantam sexo sem cerimônia seriam as representantes de um feminismo moderno.
A diretora
Denise Garcia de posse da sua câmera nervosa acompanha a rotina desses mcs e
moradores da Cidade de Deus no Rio de Janeiro assim contextualizando o terreno
de onde versos marginalizados (porém escutados em qualquer classe social foram
criados).
Denise fez
duas escolhas que foram essenciais para o sucesso do seu documentário.
Primeiro: colocou a funkeira Deise Tigrona como ancora fato esse que ajudou a
“quebrar o gelo” entre os outros mc´s moradores da comunidade e garante ao
filme um aspecto muito pessoal e próximo do espectador. Segundo: A “Sujeira
visual” que as imagens possuem contextualiza a raiz das letras. Como eles
mesmos dizem “a gente canta o que a gente vive” seja o sexo exacerbado de
grupos e Mcs como Tati Quebra Barraco, Deise Tigrona e o grupo Gaiola das
Popozudas ou os funks de protesto como é o caso da dupla Cidinho e Doca do hit
“Rap da Felicidade“.
Um ponto
interessante que o documentário aborda com propriedade (e nesse sentido é
preciso parabenizar a documentarista Denise Garcia por evidenciar os diversos
lados da cultura do funk) é que o filme evidencia a evolução do gênero não só
no Brasil, mas principalmente ao redor do mundo. Nesse quesito a presença do DJ
Malboro é essencial, pois sendo ele a figura responsável por levar o gênero ao
maior nível de reconhecimento (inclusive no âmbito internacional como é
mostrado no documentário).
A proposta
da diretora Denise Garcia é extremamente bem-vinda. Principalmente por quebrar
barreiras, desfazer a imagem negativa que essas pessoas tem aos olhos dos
outros, são realmente marginalizados. Acredito que o documentário faz muito
mais do que entreter e desmistificar os funkeiros. Abre caminho para uma
discussão política, social acerca de temas como as favelas e o feminismo muito
importantes nesse momento.
Durante a sua fase Trovador Solitário as letras de Renato Russo se
destacavam por serem narrativas, contando histórias. Uma das maiores letras é Faroeste
Caboclo que conta a saga social de João de Santo Cristo e Maria Lúcia. Era
desejo de o próprio Renato levar sua mítica música ao cinema, agora “Faroeste”
finalmente chega aos cinemas pelas mãos do estreante René Sampaio.
Em “Faroeste Caboclo” (o filme) prima pela desconstrução da lendária música
da Legião. O diretor René Sampaio opta por desfragmentar a letra inserindo o mítico
personagem João de Santo Cristo (Fabrício Boliveira) no cenário brasiliense dos
anos 80.
Com um prólogo inicial com ares de Road Movie e esteticamente belo devido
a uma fotografia elegante e a um travelling bem orquestrado, o inicio já é
prejudicado pela narração maçante do protagonista. Nada, porém, que prejudique
o desenrolar do filme, mas é um elemento realmente chato.
Sampaio soube utilizar a energia da música (que já é cinematográfica por si
só) a favor dos belos takes. Ele faz mais, introduziu ao filme um vigor e uma
agilidade rítmicas além de induzir o suspense inerente à narrativa muito por
causa da trilha sonora composta por Phillipe Seabra vocalista da Plebe Rude (que
inclusive está presente na trilha).
O diretor alia a sua agilidade com flashbacks muito bem orquestrados que
aumentam a tensão dramática além de colocar o espectador pra dentro da ação do filme,
contextualizando as ações do protagonista João (Fabrício Boliveira).
O fato de João e Maria Lucia pertencerem a mundos opostos que se
convergem é exemplificado pela montagem de Marcio Hashimoto. A opção pela
montagem paralela conduzindo as narrativas dos protagonistas simultaneamente
até o surpreendente encontro.
A montagem também engrandece os flashbacks que já são muito bem dirigidos
de maneira rítmica e intensa pelo diretor René Sampaio. A opção do diretor pelo
corte seco e sobreposições de planos antes ou depois dos flashbacks é um
recurso que se revela bastante hábil à medida que revela ao espectador mais
sobre a trama e os personagens, além de que o diretor soube contrabalançar os altos
e baixos do protagonista bem como os lugares que ele frequenta.
A fotografia a cargo de Gustavo Hadba se destaca pelo forte granulado que
imprime as imagens reforçando assim os aspectos de “Road movie” e saga social
que o filme apresenta. A fotografia de Hadba destaca as belas imagens captadas
pelo diretor especialmente no que diz respeito ao travelling e planos aéreos que
o diretor utiliza. Só é uma pena que Hadba em algumas ocasiões opte por
escurecer demais determinadas cenas tornando os atores quase invisíveis.
O roteiro de Marcos Bernstein e Victor Altherino desconstrói a música
desfragmentando-a para depois recompo-lá em cenas. É visível a preocupação dos
roteiristas em contextualizar as motivações do protagonista João de Santo Cristo
(Fabrício Boliveira). Os flashbacks, por exemplo, são utilizados principalmente
por esta razão.
Os roteiristas dão o embalsamento dramático necessário aos personagens da
mítica letra de Renato Russo além de inserir novos. Nas mãos da dupla
Bernstein/altherino os personagens e as situações da epopeia dramática ganham
força alem da música que inspira o filme.
Os roteiristas reforçam a todo momento as diferenças sociais que separam
os protagonistas João (Fabrício Boliveira) e Maria Lucia (Isis Valverde). Além de
destacar a rivalidade social e econômica que separam os traficantes Pablo (César
Trancoso) e Jeremias (Felipe Abib) que se transformará em uma disputa amorosa
por Maria Lucia.
A trilha de Philipe Seabra e Lucas Marcier utiliza-se de diversos gêneros
para compor a saga de João de Santo Cristo. A música dotada de certo lirismo dão
o tom de Road movie que o filme necessita em muitos momentos.
O elenco possui boas atuações ao todo com atores que se destacam por
menor que seja a sua participação. Fabricio Boliveira soube carregar esse
personagem tão mítico na cultura popular e que é o reflexo social do Brasil.
Boliveira trabalhou as nuances do seu personagem bem como as suas motivações para
torna ló crível. Um talento.
Ísis Valverde é uma grata surpresa
na pele de Maria Lúcia. Tenho que admitir que fui contrario a ideia da atriz
interpretar a personagem imortalizada na letra de Renato Russo, mas Isis arrebata
o público ao imprimir força na patricinha brasiliense e a atriz foge de todas
as armadilhas (e olha que são muitas que seu papel desencadeia). Assim, a atriz
foge do lugar-comum ao dar ao seu papel nuances desafiadoras e de bravura
extrema.
Felipe Abib constrói Jeremias como um playboy mimado, inconsequente,
violento e acima de tudo viciado. Jeremias é dotado de um sentimento de posse e
controle sentimentos que Abib imprime ao seu vilão com maestria.
Marcos Paulo que fez sua ultima participação no cinema (ele faleceu em
novembro do ano passado) tem uma participação de suma importância na história
como Ney, o senador Pai de Maria Lucia (Ísis Valverde). Marcos empresta ao
personagem uma grandeza social quase aristocrática sendo responsável pela divisão
social que separa Maria Lucia de João (Fabrício Boliveira).
César Trancoso dá vida a Pablo o primo traficante de João que o acolhe e
o introduz no tráfico assim que ele chega a Brasília. César insere trejeitos ao
traficante de gosto duvidoso, tendo o ator uma imensa presença cênica que
abrilhanta o filme. A própria dicção do ator de sotaque espanhol da um tom
caricatural que é muito bem vindo ao personagem.
A saga social de Renato Russo finalmente ganha um filme a sua altura com
uma produção elegante e audaciosa. Tão audaciosa que arrebata o público que
implora para que não acabe.
Quando um filme faz sucesso é natural que se explore esse mesmo filão
cinematográfico ao máximo transformando o filme em uma franquia, copiando
ideias ou até mesmo fazendo versões. Esse é o caso de “21 And Over” versão
juvenil de “Se Beber Não Case”.
Escrito e dirigido pelos roteiristas do primeiro filme da franquia
estrelada por Bradley Cooper “21 and over” trata da premissa de um jovem Jeff
Chang (Justin Chon) que acaba de fazer 21 anos e é praticamente intimidado
pelos seus amigos Miller (Milles Teller) e Casey (Skylar Austin) a sair pra
comemorar. O problema é que Jeff Chang precisa estar sóbrio e mentalmente capaz
de realizar o seu exame de admissão de medicina na manha seguinte.
Vendido como “uma versão juvenil de “Se Beber Não Case” 21 and Over” é o
primeiro trabalho á frente das câmeras dos roteiristas da famosa franquia de
humor Jon Lucas e Scott Moore que também assinam o roteiro desse filme.
A inexperiência da dupla de diretores/roteiristas na direção
cinematográfica é algo evidente durante todo o filme. Entretanto Jon e Scott
primam pela agilidade apostando no frenesi cênico causado pelas aventuras dos
três amigos possam conquistar o espectador.
Lucas e Moore fazem algumas tentativas ainda que tímidas de mostrar seus
talentos como diretores. Essas tentativas se revelam falhas á medida que a
dupla investe em alguns vícios diretivos como o uso exacerbado e sem sentido do
slow motion com a clara intenção de dar um tom iminente de comédia ás cenas.
Se essa é a intenção da dupla de diretores devo dizer que eles atingiram
seu objetivo, mesmo que ás custas das situações sem sentido na maioria das
vezes. Investido na agilidade tanto cênica quanto narrativa, Jon Lucas e Scott
Moore constroem seu filme (ainda que em uma base tão pouco sólida).
O roteiro de Jon Lucas e Scott Moore revela situações e piadas sem
sentido, mas que pinceladas pelo talento da dupla ganha algum brilho sem capaz
de provocar risos involuntários se você está disposto a rir de si mesmo.
A agilidade com que Jon e Scott conduzem as situações assim como os
diálogos é algo realmente impagável (com destaque para as cenas da fraternidade
latina). Os roteiristas conseguem construir uma narrativa divertida e
envolvente que mais prima pela falta de noção de que pela coerência. Não é nada
extraordinário nem que alcance um triz da genialidade de “Se Beber não Case”,
mas ainda assim garante boas risadas. O melhor acerto da dupla está em
construir a relação entre o trio protagonista. Pois, à medida que eles vão
conhecendo as mudanças no velho amigo, conhecem a si próprios.
A música tem um papel de extrema importância em “21 and Over”, pois ela
serve para a transposição do espectador para dentro da história servindo como
pano de fundo além de ser responsável por grande parte do frenesi causado no
espectador.
O trio principal Justin Chon (Jeff Chang), Milles (Milles Teller) e Casey
(Skylar Austin) revela um entrosamento cênico além de um ótimo timing pra
comédia. Justin, Milles e Skylar também se revelam atores despudorados ao não
ter pudores e a habilidade de rir de si mesmos.
Poucos outros atores ganham destaque nesse longa além dos protagonistas. Dos
que conseguem se sobressair podemos destacar Sarah Wright que interpreta Nicole
a amiga descolada de Jeff Chang que é alvo da paixão de Casey (Skylar Austin).
Sarah atua com graça e uma dose escrachada de sensualidade além, de possuir um
talento natural para a comédia o que lhe garante algumas das melhores tiradas
do filme.
Jonathan Keltz atua como Randy, o namorado de Nicole e a perfeita personificação
dos valentões que encontramos no ambiente escolar. Keltz é responsável pelo
antagonismo presente em “21 and Over” ainda que sua participação seja pequena
infelizmente.
“21 and Over” é capaz de divertir o espectador que abandonar o senso
crítico durante o filme. Á custa de uma comédia escrachada e sem sentido Jon
Lucas e Scott Moore pouco mostraram á frente das câmeras nesse filme. Mas é
justamente a inexperiência da dupla aliado a um roteiro que provoca risos
involuntários e ao carisma dos protagonistas que garante o “plus” do filme. Não
é nada engrandecedor no nível do primeiro “Se Beber não Case”, mas garante boas
risadas se o espectador se permitir a isso.
Os Rolling Stones é uma das principais bandas de rock inglesa (se não a
maior) tendo alcançado sucesso mundial em proporções gigantescas. Dada a sua
magnitude foi temas de diversos documentários incluindo esse “Shine a Light”
dirigido por ninguém menos que Martin Scorsese.
Tendo como foco principal documentar as apresentações da banda no The
Beacon Theatre em Nova York o documentário de Scorsese vai além.
Desconstrói a própria
imagem da banda com os bastidores das apresentações, revelando ao público o
que acontece por “trás das cortinas” além de desconstruir a linguagem
cinematográfica se posicionando como um “personagem ativo” no documentário
colocando o espectador a par da preparação para que o filme se tornasse possível.
Se analisarmos com a devida atenção percebemos que há em “Shine a Light”
um processo de desconstrução mutuo.
Ao mesmo tempo em que o diretor nos revela os bastidores da sua
realização cinematográfica ele permite aos fãs da banda inglesa penetrar no
backstage e conhecer o “outro lado” da banda.
Falando em conhecer o “outro lado” da banda inglesa é exatamente com esse
propósito que o rico e extenso material de arquivo que o documentário
apresenta. Munido desse material (e através dele) que Martin Scorsese permite a
banda desfazer a imagem de “garotos maus” que os perseguiu ao longo das décadas.
O extenso material de arquivo também permitiu ao diretor Martin Scorsese construir
um painel atemporal para a banda podendo linkar as entrevistas antigas como
quando por exemplo perguntam a Mick Jagger e seus companheiros como eles se
imaginam daqui a 20 anos e dadas a suas respostas de que “não existiriam nem
pelos próximos 2 anos” é mostrado à performance atual da banda provando sua longevidade.
Realmente, uma grande sacada do diretor Martin Scorsese.
O diretor privilegia o uso de planos mais abertos e closes muito bem
orquestrados com o intuito de captar a energia e vitalidade performática (e
também instrumental) da banda em sua totalidade, revelando assim a sua
magnitude. Ao privilegiar a banda Scorsese dá ao espectador a dimensão exata da
magnitude da banda inglesa ao fazer uso de grandes takes com o objetivo de
captar o palco e o espetáculo em sua totalidade.
“Rolling Stones- Shine a Light” não é só o documentário definitivo sobre
os Rolling Stones. Ele vai além. Ao desconstruir a imagem da própria banda e
revelar os bastidores do documentário Scorsese desconstrói a imagem da banda e
do próprio filme.
Se Brasília foi o
epicentro do Rock Brasileiro dos anos 80 Renato Russo foi sem dúvida o seu
principal catalisador. Dono de um legado impressionante é natural que sua
história um dia fosse contada, especialmente os seus primeiros anos visto que
sua formação musical fazem parte da história cultural, social e política do
nosso país.
Focado na adolescência de Renato
Russo e na formação do Aborto Elétrico e da Legião Urbana o longa se revela um
retrato intimista de um artista e de uma era. Centrado na transformação
artística e pessoal de Renato Manfredini Júnior em Renato Russo (Thiago
Mendonça) e a formação da cena de rock brasiliense tendo como pano de fundo a
pressão que sofria a pressão da ditadura militar.
O diretor Antonio Carlos da Fontoura
buscou traduzir em imagens a agitação e efervescência musical que ocorria
naquele período. Para isso Antonio Carlos da Fontoura utiliza planos curtos e
uma elipse até excessiva para induzir a rapidez narrativa. Esta opção está longe
de prejudicar a narrativa, mas o diretor poderia ter aproveitado melhor os
planos dando-lhes maior embalsamento, mas por outro lado a opção pelo corte
seco reflete a intensidade momentânea da adolescência vivida pelos personagens.
De certa forma a decisão de
Antonio Carlos foi a mais acertada, pois sua direção transparece vigor,
vitalidade e energia incomparáveis permitindo ao espectador construir um
retrato intimo do ídolo e a desconstrução de Renato Russo como um mito inalcançável.
Fontoura confere ao seu elenco
uma direção de atores cuidadosa, especialmente nas cenas de musica e do
desabrochar artístico de Renato Russo (Thiago Mendonça) e de seus parceiros da
“turma da colina”. Atribuindo a estas cenas uma direção coreografada resultando
de perfeito entrosamento cênico entre os atores.
O roteiro a cargo de Marcos Bernstein
foca principalmente na trajetória evolutiva de Renato Russo (Thiago Mendonça),
mas não deixa de privilegiar o enredo em primeiro lugar. O protagonista
“apenas” conduz as demais tramas que giram em torno dele. Os demais personagens
se encaixam no espaço narrativo que lhes cabe, permitindo assim que os atores
se destaquem com suas atuações.
Há também um cuidado na construção
dos diálogos e da reconstrução de eventos reais por parte do roteirista Marcos
Bernstein. Os diálogos são de uma linguagem beirando o coloquialismo (o que
facilita a identificação do público jovem de hoje que não tem ideia da
grandiosidade daquele movimento). A reconstrução de fatos reais impressiona
pela verossimilhança. Há um cuidado histórico na feitura das cenas (o show de
Patos de Minas e o derradeiro fim do Aborto Elétrico são exemplos disso).
.
O elenco inteiro atua com uma
naturalidade impressionante. A começar por Thiago Mendonça que interpreta
Renato Russo de maneira transcendente. Thiago explora as nuances de seu
delicado personagem de forma crescente. Assim ator e personagem vão evoluindo
lado a lado. Thiago explora a sensibilidade aguçada de Renato Russo ressaltando
o emocional do personagem até que ator e personagem chegam ao seu ápice: A fase
“Trovador Solitário” de Renato Russo. Ali, Thiago nos entrega uma atuação
magnânima. Sergio Dalcin, Bruno Torres e Daniel Passi que interpretam
Petrus e os irmãos Fê e Flávio Lemos respectivamente se sobressaem na
respectiva parte do enredo ao que se refere às bandas do Renato. Dalcin
interpreta Petrus com o vigor e a fúria que o personagem exige.
Bruno Torres tem uma presença
marcante em cena desde o inicio e seu personagem Fê tem um crescimento cênico
muito interessante ao ponto de que a dado momento ele e Renato (Thiago
Mendonça) se tornam completos opostos e Bruno soube trabalhar o processo
evolutivo de seu personagem com perfeição atuando de maneira verdadeira e
convenente.
Daniel Passi que interpreta
Flávio Lemos atua construindo seu personagem de maneira carismática e
verdadeira. Flávio ocupa no filme a função de apaziguar os conflitos entre seu
irmão Fê (Bruno Torres) e Renato (Thiago Mendonça). O ator desempenha esse
papel um tanto quanto ingrato de maneira verdadeira emprestando seu carisma
para o personagem. Ao mesmo tempo em que esbanja força e energia inquestionável
nas performances de seu personagem com perfeição.
A turma de amigos de Renato
também se destaca pelo entrosamento e naturalidade em que pautam suas atuações.
Laila Zaid (Aninha) tem um papel essencial no filme. Laila atua de maneira
natural resultando em uma das mais belas atuações do longa. Olivia Torres e
Bianca Comparato que interpretam Gabi e Carmen Teresa respectivamente se
destacam pela simplicidade de suas ações ao passo que a primeira expõe com
veracidade a evolução de sua personagem.
A música não só da o tom das cenas
como contextualiza o momento retratado agindo como fio condutor da narrativa.
Assim, tanto a trilha como as performances musicais atuam de maneira
determinante na construção da “realidade fílmica” do longa. Ao mesmo tempo em
que podemos constatar o surgimento e o contexto social em que muitas músicas de
Renato e companhia. Clássicos como “Geração Coca-Cola”, “Veraneio Vascaína”,
“Que Pais é este?” e “O Concreto já Rachou” são aqui contextualizadas social e
artisticamente.
Um dos pontos altos de “Somos
Tão Jovens” é a fotografia assinada por Alexandre Ermel que atua com dois princípios
plásticos distintos, porém complementares. De um lado Alexandre imprime em suas
lentes “sujeira visual” que havia naquele cenário dos “filhos da revolução”.
Optando por resaltar a força visual e estética daquele cenário agregador. Por
outro lado há o uso de um granulado forte que se intensifica conforme o
protagonista Renato Russo (Thiago Mendonça) vai evoluindo. A força do granulado
é um contraste interessante com o efeito quase “puro” e de desfoque das
primeiras cenas do Aborto Elétrico. O desfoque provocado pelo uso de granulado
expõe aqui um magnetismo visual intenso e é um símbolo de transição do seu
protagonista Renato Russo (Thiago Mendonça).
Somos tão Jovens” é um retrato
intimista não só do nascimento de um artista mas de toda uma geração. É uma
produção cuidadosa e simplista que encontra no desafio de retratar uma geração
perdida seu maior desafio e êxito pois se a proposta do diretor Antonio Carlos
da Fontoura foi fazer um filme agregador das massas ele cumpriu sem objetivo
com louvor. O Retrato do tempo perdido.