Em
2014, se comemora os 20 anos do álbum de estreia do Oasis , “Definitely Maybe”
e como infelizmente não teremos uma turnê de comemoração, essa data não poderia
passar em branco, o documentário sobre a produção do disco homônimo está sendo
relançado.
Sinceramente,
devo dizer que esperava mais de um documentário que está sendo relançado pra
comemorar uma data tão emblemática para o rock mundial. O documentário é sim
interessante para os fãs da banda pois reafirma a posição de renovação que o
Oasis trouxe para a música e detalha a composição e produção do cd
detalhadamente. Porém, se não fosse o fator curiosidade e nostalgia que assola
os fãs da banda, o documentário poderia passar despercebido.
O
documentário tem sim preocupação em ressaltar os bastidores da produção do
álbum, as histórias por trás de cada música, ressaltando as dificuldades de produção
e adaptação da banda ao estrelado mas não sai muito disso.
Sim,
o diretor Dick Carruthers
lança mão de preciosas imagens de arquivo e tal, deixando qualquer fã da banda
empolgado. Mas Charruthers não ousa na estrutura do filme, se assemelhando a um
simples documentário ou mais parecendo um talk show americano, onde os
convidados respondem as perguntas mecanicamente.
Há sim, uma preocupação com a estética e a
montagem do filme, no sentido de ilustrar os depoimentos com as imagens de
arquivo e música mas, acaba sempre retomando aquele antigo formato padrão de
documentários pautado em entrevistas que cansa.
O documentário conquista o espectador pela
nostalgia (seu próprio formato e recursos utilizados evidenciam isto) mas
entretanto não se preocupa em conquistar novos fãs. Talvez isso seja um reflexo
da data de produção do filme(foi produzido em 2004, quando a banda ainda estava
na ativa), por isso não há a preocupação de mostrar o trabalho da banda a uma
nova geração.
Duas grandes sacadas do documentário são o de
exibir o contexto musical/ cultural na época do lançamento do álbum. E de
colocar os especialistas do mercado, equipe da banda e os –na época atuais integrantes
Andy Bell e Gem Archer.
O filme também peca por não dar o devido espaço a
Liam Gallagher, se centralizando no processo criativo de Noel. Dessa forma, o
documentário se revela um retrato belo mas desigual ao não considerar da
maneira correta a importância do vocalista.
Pois convenhamos, se Noel compôs as canções FODAS
desse álbum, foi a INTERPRETAÇÂO de Liam que contribuiu para eterniza-las no imaginário
popular. O diretor até tenta se redimir mais pro fim destacando a figura de
Liam Gallagher, não é o suficiente para alguém da sua magnitude.
“Definitely Maybe: The Documentary” é curioso e
interessante , mas é mais do mesmo.
“Open Windows” do diretor espanhol Nacho Vigalondo e protagonizado por Sasha Grey
e Elijah Wood.
“Open Windows”
trata do culto às celebridades e do voyeur que temos dentro de nós ao retratar
a relação de um fã, Nick Chambers(Wood) que se prepara para conhecer sua atriz
favorita Jill Goddard(Sasha Grey).
Nacho Vigalondo
mostra a intenção de sempre provocar e brincar com a mente do espectador logo
nos primeiros minutos da projeção. Ao iniciar seu filme de forma metalinguística
em uma realidade fictícia, o diretor quebra a “quarta parede” e a linha tênue
que separa a “realidade da ficção”(método que aliás, percorre todo o filme)
Vigalondo
surpreende pela forma que realiza a transposição da realidade fictícia para a
junket do longa metalinguístico ao saltar de uma realidade a outra em um piscar
de olhos. A forma com que o diretor trabalha as realidades paralelas que
permeiam seu longa é espetacular. Unindo metalinguagem, psicodelia e voyeismo
cibernético, ele consegue acoplar uma estética tridimensional ao longa.
Como as ações
narrativas do filme se originam de computador controlado por uma voz over,
Chord(Neil Maskell) que invade o sistema de Nick e o obriga a realizar uma
vingança contra Jill. Todas as ações se originam do ambiente virtual ganhando
vida através das ordens de Chord, o longa tem todo um aparato visual
tecnológico no qual o diretor acopla o universo virtual a narrativa, de modo
que o computador se torne um personagem do filme e os comandos ali realizado
ganhe vida.
A forma com que
coloca o espectador dentro da ação, incorporando o voyeismo existente no
ambiente virtual do filme(que tem câmeras escondidas acompanhando Jill) a sua
própria direção, Vigalondo mantêm sua câmera a espreita, sempre registrando as
interações cibernéticas Nick e as reações comandadas por Chord (Elijah Wood e
Neil Maskell, respectivamente.
Embora enfoque
muitos os closes no protagonista, a forma de dirigir de Vigalondo é sobretudo
subjuntiva, captando as ações dos personagens de forma muito sutil. Mantendo o
suspense e a adrenalina no limite, o cineasta converte e radicaliza a todo o
momento ao provocar mudanças drásticas na ação dramática , andando na linha
tênue entre os universos, vigalondo converge os universos cibernéticos
existentes, não apenas fazendo que os comandos virtuais ganhem AÇOES na forma
de cenas mas principalmente, o cineasta quebra todas as barreiras colocando o
espectador dentro da ação dramática.
Conversão
e transmutação de gêneros parecem ser as palavras que sintetizam “Open
Windows”. Ao converter o suspense com toques de high-tech, flertando com o
clássico “Janela Indiscreta”, Vigalondo converte seu longa em um thriller
de ação com cenas carregadas de adrenalina, fazendo um verdadeiro NÓ na
cabeça do espectador, supreendendo-nos a todo o momento.
Dois elementos enaltecem a atmosfera
high-tech e de suspense que o filme carrega. São eles, a fotografia de Jon D.
Dominguez aposta nas cores frias e na impessoalidade de forma a reforçar tanto
os universos virtuais que o longa aborda quanto o suspense que permeia a
narrativa. O uso das cores frias garante vida própria a esses universos tridimensionais
que o filme possui. Já a trilha de Magaz , composta principalmente por músicas
incidentais(com raras exceções), garante o clima de suspense que o filme
necessita. Vale ressaltar, a sutileza com que a música é utilizada no longa.
São muitos os méritos do diretor e
roteirista Nacho Vigalondo na construção do roteiro, de modo que será
humanamente impossível listar todos eles, mas eu vou tentar.
Primeiro, Vigalondo foi mestre em construir
uma narrativa onde há uma miscelânea de gêneros(Ficção cientifica, suspense...)
segundo, a forma com que ele desenvolve um argumento tecnicamente simples
convertendo-o em metalinguagem , suspense e ficção cientifica, quebrando assim
as barreiras que separam a realidade da ficção. A forma com que ele une esses
elementos ao mesmo tempo que desconstrói toda e qualquer linha de raciocínio que
o espectador possa construir, pois executa excelentes pontos de virada,rompendo
e transgredindo os limites da tela grande a todo o instante. A maneira com que
confere tons de psicodelia ao seu longa e torna isso crível. É impressionante a
veracidade e o realismo que o diretor imprime nos amplos universos ficcionais
que compõem seu filme.
Fazer o espectador embarcar na história e
mais do que isso, garantir veracidade a ela foi um êxito de Nacho Vigalondo
como roteirista. Contudo seu maior êxito a meu ver foi acoplar todos esses gêneros
em uma narrativa envolvente e que instiga. Seu radicalismo de romper e
transgredir os universos que constituem o filme. O fato de não existir limites
em sua mente criativa permite que a história surpreenda sempre, não existindo
tempos mortos, Vigalondo eleva sua insanidade a níveis inimagináveis mantendo
sempre o frescor e adrenalina da narrativa.
Interessante observar a maneira com que o
diretor/roteirista trabalha questões pertinentes nas entrelinhas, tais como culto
as celebridades,relacionamentos midiáticos e carreiras em declínio, além é
claro de flertar com o universo dos nerds e geeks, sendo o protagonista
interpretado por Elijah Wood um claro
exemplo dessa tribo.
Elijah Wood é a perfeita personificação do
Geek. A maneira com que o ator incorpora as nuances e os trejeitos do
personagem é espetacular, e o ponto de virada do personagem garante ao ator ótimos
momentos, sendo Wood capaz de demonstrar outra faceta desse amplo personagem
que caminha entre o desejo de conhecer sua atriz favorita com a culpa por
compactuar com o plano macabro.
Sasha Grey surpreende se revelando uma ótima
atriz ao compor as diversas nuances da jovem atriz Jill Godard. Caminhando entre
o estrelismo, a sensualidade e o medo, a atriz da conta do recado ao imprimir
nuances diferentes para cada momento da personagem.
Neil Maskell merece uma honraria especial. Afinal,
não é fácil construir um personagem quase que exclusivamente pela voz. Mas maskell
consegue imprimir uma identidade ao temido hacker em um trabalho de composição formidável
que consegue superar o trabalho de Scarlett Johansson no sci-fi “Ela”.
Nacho Vigalondo fez um filme
fodástico. Ao unir diversos gêneros e
elementos, Vigalondo provou que é possível ousar e transgredir. Romper
barreiras e os limites do chamado “Bom Cinema”. No fundo , o que Vigalondo fez
foi ousar, fugir do lugar comum. Se a máxima do cineasta espanhol é “Always
play with their minds”, eu te digo meu caro, eu quero mais do que tu anda
tomando.
Ps: Crítica realizada após conferir o filme no Fantaspoa
Superação. Esse é o principal tema de “O Vencedor” longa sobre a história real do lutador peso-médio Micky Ward (Mark Wahlberg) e a sua conturbada relação com seu meio-irmão Dicky Eklund (Christian Bale) enquanto luta para sair da sombra do irmão e chegar ao estrelado no boxe.
Dirigido por David O. Russel(Trapaça, O Lado Bom da Vida) “O Vencedor” tem uma energia única que garante muito da agilidade e do frenesi que garante muito do entusiasmo que o espectador sente ao assistir e torcer pelo personagem de Wahlberg.
Utilizando-se da metalinguagem “O Vencedor” começa como um documentário sobre a vida de Dicky(Christian Bale) mudando rapidamente para a relação de Micky com seu irmão e treinador e seus altos e baixos como lutador até o estrelado.
Russel conduz o filme de maneira ágil e frenética, dosando cenas curtas e longas com seqüência rápidas e cortes secos deixando assim, a tensão dramática elevada e os nervos a flor da pele.
Russel não perde tempo ele explora as cenas no seu objetivo e não exaustada mente. A câmera na mão de Russel confere uma imagem tremida e a agilidade necessária a narrativa. A forma com que Russel trabalha alinhado a montagem de Pamela Martin para demonstrar as trajetórias opostas dos irmãos. O diretor conduz o filme de maneira eletrizante, mantendo sempre um vigor no ar. Ao dosar seus cortes secos e uso apropriado da Dolly conferindo um ritmo mais orgânico e realista a ação dramática com zooms aumentando o frenesi e o entusiasmo em torno da trajetória dos personagens.
Mas David O. Russel também é um ótimo diretor de atores e sabe captar um olhar como ninguém ( quem assistiu “O Lado Bom da Vida” sabe disso) por isso, ele comanda as cenas de treino e lutas de Micky(Wahlberg) com agilidade, ritmo e sobretudo, de forma precisamente coreografada. Ao mesmo tempo, ele retrata a degradação de Dicky(Bale) na prisão. Este é um momento de extrema importância narrativa para o filme pois é neste momento que Micky(Mark Wahlberg) sai da sombra de Dicky(Christian Bale), seu irmão viciado em crack.
Nesse momento todos os elementos do filme(direção,montagem,roteiro, atores...) se alinham em uma simetria perfeita. Opção inteligente de mostrar o declínio de Dicky(Bale) e o sucesso de Micky(Wahlberg) paralelamente. Eu sei que não é nada original mas, foi muito bem construído pelo roteiro e executado de forma exemplar pela tríade(direção,atores,montagem).
O trio de roteiristas Scott Silver,Paul Tamasy e Eric Johnson fez um excelente trabalho de construção de narrativa e de personagens. Além disso, o trio imprimiu uma energia e atmosfera única a narrativa, tornado “O Lutador” um filme dotado de um tipo diferente de agilidade, é uma vibração e entusiasmo que o espectador sente a flor da pele, um frenesi de alto nível que foi brilhantemente transposto por Russel na sua forma de dirigir e incrivelmente impresso pelo elenco em suas performances especialmente Wahlberg e Bale.
A trilha sonora de Michael Brook consiste em músicas de blues, jazz e rock que juntos servem como um acompanhamento a trajetória de Micky Ward(Mark Wahlberg). Os três gêneros se fundem de maneira perfeita para representar sua escalada até o estrelato no mundo do boxe. Com ênfase para a canção “Here I Go Again” do Whitesnake que embala a vitória triunfal de Micky Ward.
Mark Wahlberg tem mais uma atuação memorável como Micky Ward. A vivacidade e energia que o ator imprime a cada frame, cada cena de sua atuação é impressionante. Wahlberg se entrega de forma impar a mais esse papel vivenciando cada momento de seu personagem com força e intensidade, se entregando de corpo e alma.
Christian Bale não fica atrás ao imprimir um realismo e impulsividade impressionantes como Dicky Eklund. A maneira com a qual sua interpretação evidencia a derrocada moral de Dicky merece elogios, assim como sua química com Mark Wahlberg.
Amy Adams tem uma performance graciosa, dotada de grande presença cênica como Charlene a namorada de Micky que o incentiva a crescer na carreira ao mesmo tempo em que sofre e peita o preconceito de parte da família do lutador.
Jack McGee e Melissa Léo têm belíssimas atuações como os pais de Micky(Mark Wahlberg). Enquanto mcGee exala doçura e fraternidade como o pai compreensivo e incentivador de Micky , Léo interpreta uma mãe dura que comanda a carreira dos filhos com mãos de ferro com clara preferência pelo mais velho. Quase uma Kris Jenner do mundo do boxe. Em atuação esplêndida, Léo foi merecidamente agraciada com um Oscar de melhor atriz coadjuvante.
“O Vencedor” é um excelente filme, onde tudo funciona perfeitamente desde do roteiro até as atuações. Mas, o filme é muito mais que isso, é vibrante, inspirador e emocionante, uma história de superação capaz de emocionar até quem não é fã de boxe como eu.
Chocante, essa é a melhor definição pra minha reação ao assistir ao ótimo documentário “Teenage Paparazzo” dirigido pelo ator e diretor Adrian Grenier sobre a rotina do jovem paparazzo Austin Visschedyk de 13 anos na época do filme.
A ideia de Grenier de inverter os papeis e realizar um documentário sobre a rotina do jovem foi ousada e perigosa. Ao mesmo tempo, em que subverte os papeis e se permite adentrar a rotina do garoto com uma relação completamente livre e não invasiva, embora a idéia a principio possa parecer exibicionista de utilizar a sua posição de “celebridade” para conseguir contato e uma relação profissional e pessoal com o seu entrevistado o diretor acaba por desconstruir qualquer imagem de superioridade que o seu status social possa lhe conferir. É impossível não fazer uma relação entre a figura do ator de Grenier e o interesse que provoca no público (em especial no jovem Austin).
“Teenage Paparazzo” é um documentário ousado pela sua proposta de retratar o cotidiano de uma figura no mínimo singular dessa “indústria da fama”, mas, sobretudo porque possui muitas nuances, o que o torna um material de análise extremamente rico do papel da mídia no momento atual. Grenier, não se preocupa apenas em registrar a rotina do jovem paparazzo-em um delicado trabalho de imersão- o que lhe permite entender o seu ator social mas sobretudo, ele quer chegar a raiz da questão e analisar todas as camadas que a amplitude do tema lhe permite.
Sendo assim, o diretor da voz a celebridades, profissionais da mídia e historiadores para entender a questão por diferente viés.
É notável e admirável a preocupação de Grenier em construir um documentário de valor e não somente um retrato fútil da indústria das celebridades. Sua preocupação em conhecer as diferentes vertentes daquele universo, torna seu documentário um material de riqueza imensurável, um estudo sociológico de primeira linha, pois “Teenage Paparazzo” não é só um documentário sobre a vida do paparazzo adolescente Austin Visschedyk mas é sobre as diferentes visões e perspectivas sobre a cultura da fama, o filme é sobretudo um estudo sobre o comportamento humano.
Grenier fez escolhas que enriquecem a discussão em torno de seu documentário. Uma delas é o fato de não julgar e sim tentar entender o jovem Visschedyk. Granier vai fundo na compreensão da magnitude e porque não dizer dignidade daquele trabalho. Explorando todas as vertentes, o diretor busca explorar não só o cotidiano daquele jovem mas também a relação entre os artistas e esses profissionais, o viés histórico dessa cultura e o sua própria representação naquela indústria.
Particularmente, eu nunca imaginei que esse documentário fosse mudar tanto a minha perspectiva sobre essa industria. Eu tenho curiosidade como todo mundo mas o “famous for being famous” me incomoda um pouco ao mesmo tempo em que atiça a curiosidade.
O documentário é dirigido de maneira exemplar por Adrien Granier que subverte a todo o momento a sua própria relação enquanto diretor com o seu ator social Austin Visschedik construindo uma relação fraternal de amizade entre eles e principalmente nos momentos em que Granier derruba qualquer linha que possa separar ele de Visschedik quando se propõe a duas experiências no mínimo bizzaras. Granier não se contenta em apenas acompanhar a rotina de Visschedyk e seus colegas de profissão mas quer estar na pele deles. Pra isso Grenier se disfarça de paparazzo, o acaba lhe permitindo ter um outro olhar sobre toda aquela situação. Em outra situação Grenier após entrevistar seus colegas de elenco da série “Entourage” e constatar que muitos deles foram vitimas de boatos, Granier ao lado de Paris Hilton se propõe a criar um falso boato de um possível relacionamento entre os dois e acompanha a relação da industria e do próprio jovem paparazzo a noticia.
Essa intenção de compreender o mecanismo da indústria e não exercer julgamentos estando do outro lado constitui muito da riqueza de “Teenage Paparazzo”. O que Adrien Granier se propõe aqui é provocar uma reflexão em torno dessa temática tão em voga nos dias de hoje.
O retrato dessa cultura das celebridades e toda a indústria em volta dela, bem como a posição das próprias ditas celebridades-artistas não os “famous for being famous” assim como a dos profissionais da indústria, promovendo discussões sobre o direito a privacidade e direitos e deveres de cada um nessa indústria. O filme nos leva a questionamentos muito pertinentes como “será que por ser artista, eles são obrigados a se permitir ser invadidos a todo o momento. Onde começa o trabalho do paparazzo e termina o respeito com o outro. Todas essas e muitas questões fazem de “Teenage Paparazzo” um documentário muito rico na amplitude de sua abordagem e nem um pouco vazio como a temática poderia ocasionar em um diretor sem sensibilidade e habilidade.
Porém, sensibilidade e habilidade Adrien Granier tem de sobra . Revelando uma faceta desconhecida(ao menos pra mim) a de cineasta. Granier revela-se tão talentoso como diretor quanto é como ator. O fato é que Adrien Granier conseguiu ir além e fazer de “Teenage Paparazzo” um documentário com viés crítico sem entretanto esboçar julgamentos. A crítica aqui é realizada através da reflexão, sendo o documentário capaz de mudar a perspectiva sobre a cultura das celebridades.
O Cinema francês é um dos meus favoritos. E uma das coisas que mais me encanta
nos filmes oriundos daquele país é sua delicadeza,sensibilidade e ternura. Mais
que isso, os filmes franceses se destacam por ter um incrível censo de
narrativa e saber que por trás daquela ternura, escondesse poderosas tensões
dramáticas.Um simples acerto de contas
familiar, com um ex-casal resolvendo as pendências de um divórcio doloroso e
amargo ao mesmo tempo. “O Passado”, filme do diretor iraniano Asghar
Farhadié tudo isso
e muito mais.Não conheço
os trabalhos anteriores de Farhadi mas, pude notar claramente o excelente
diretor de atores que é, tamanha a destreza que conduz a narrativa, se apoiando
quase que inteiramente no diálogo. Com habilidade realiza os planos contra
plano, utilizando-se de duas matérias primas básicas e primordiais a um bom
filme: um bom roteiro e bons atores.O fato de a
narrativa se pautar pelo dialogo, permitiu ao diretor construir as relações
entre os personagens com sensibilidade mas, como o próprio nome diz, “O
Passado” esconde mais que aparente trivialidade de sua trama possa aparentar.
Construído na forma de uma crônica contemporânea das relações humanas, o longa
se desenvolve como um bom novelo, exibindo o charme característico dos filmes
franceses e um que de mistério.Asghar
Farhadi parece ter prazer de provocar e irritar o espectador. Não contente em
estabelecer uma ótima direção de atores,apoiada principalmente no já citado
plano e contraplano , suas longas tomadas e cortes oras rentes ora bruscos, o
que me faz refletir se a montagem de seu filme não é defeituosa, o cineasta
deve no mínimo ter revisitado a diretora Sofia Coppola e seus cultuados
“Encontros e Desencontros” e “Um Lugar Qualquer” para provocar o espectador aos
mistérios da adivinhação e da leitura labial pra tentar descobrir a conversa
que os personagens Marie( a lindíssima e irreconhecível Bérenice Bejo) e
Ahmad(Ali Mossafa) e embora acreditem, eu tenha apreciado que o diretor tenha
bebido em fontes criativas quantos as de Coppola- e ele tenha ganhado inúmeros
pontos com este que vós fala só pela intenção de beber na mesma fonte de uma
diretora tão esplendida quanto Sofia devo ressaltar, o resultado atingido foi o
oposto e o cineasta submeteu o seu público a um teste de paciência que parecia
interminável.Apesar
disso, o diretor-roteirista construiu personagens essencialmente humanistas,
retratados em uma crônica cotidiana de forma terna, “O Passado” é um filme com
raízes calçadas na mais pura narrativa, e embora o diretor nos conceda o
direito de amar ou odiar tal personagem, o diretor se da ao direito de colocar
caraminholas na cabeça de quem assiste e de fato o diretor iraniano parece
gostar de provocar pois não se cansa de surpreender o espectador com inimagináveis
pontos de virada.Sua própria
forma de dirigir e a estética do longa com longos takes e cores quentes colocam
o espectador pra refletir sobre a tensão e as relações ali expostas, bem como o
peso de um segredo.
Tendo nos
papéis de Marie(Bejo), Ahmad(Ali Mossafa), Samir(Tahar Haim) , os três vértices
de um quadrilátero amoroso, formado ainda pela esposa do último e pela filha de
Marie, Lucie(Pauline Burieti), jovem atriz com grande atuação e ótima química
com Mossafa.
Sendo a
fotografia deMahmoud Kalarioutro grande trunfo de sua ternura e
poética fílmica, com Kalari dosando sabiamente as cores quentes e frias, “O
Passado” é um grande filme, com grandes exercícios de atuação e roteiro. Porém,
é esse mesmo roteiro e um leve descuido fatal que leva o longa a um final
decepcionante, a menos que a história deAsghar
Farhadinão termine
aqui, o que eu sinceramente espero que aconteça.
Demorei a gostar de “Embriagado de Amor”, essa comédia esquizofrênica de Paul Thomas Anderson,um dos meus cineastas favoritos. Mas bastou uma segunda visita a essa comédia esquisita, para perceber o quanto eu me identifico com esse filme.
Barry Egran(Adam Sandler) é um cara esquisito, cheio de manias. Berry possui uma incapacidade social,é estranho e mimado por suas sete irmãs mais velhas, porém todo esse mimo também o sufoca socialmente.
“Embriagado de Amor” é a primeira vista um filme estranho, esquisito com uma atmosfera muito “fria” e impessoal mas, toda essa estranheza é um reflexo da personalidade do protagonista Barry(Adam Sandler, em uma atuação estranhamente cômica).
Paul Thomas Anderson reflete a esquisitice do personagem com enquadramentos muito duros, closes dotados de um jogo de câmera com o propósito de causar um desconforto cômico como os embates de Berry com suas irmãs superprotetoras. Anderson foi inteligente ao deixar fluir todo o talento cômico de Sandler. O diretor fica ali a espreita captando todo o humor do personagem.
Em uma cena em particular, o cineasta utiliza de seu talento e destreza ao utilizar enquadramentos duros e repetitivos em diferentes posições ,focalizando o rosto de Sandler e captando assim, o sufoca mento e a inadequação social e afetiva do personagem.
Paul Thomas Anderson é mesmo um diretor e roteirista muito talentoso e com tamanha inteligência. Só com tamanho talento pra criar momentos cômicos non-sense sem cair no ridículo. Pelo contrario, Anderson cria e estrutura as situações de uma forma naturalmente cômica com exatidão e Adam Sandler numa excelente dobradinha ator-diretor realiza as cenas com uma naturalidade impressionante e principalmente sem cair no ridículo.
O diretor consegue estruturar seu filme com uma narrativa solida, fazendo de seu filme, uma comédia com conteúdo. Com cenas ora ágeis, ora longas, com direito a momentos de Barry em completo ócio e cortes secos, seguidos por travellings. A Relação de Berry com Lena(Emily Watson) é construída com um tom cômico naturalmente embutido.
Eu não sou muito fã de comédias, mas “Embriagado de Amor” me ganhou não só pela inevitável identificação com as esquisitices do personagem de Sandler mas sobretudo pelo afeto com que Paul Thomas Anderson construiu sua historia com inteligência, ressaltando o componente emocional da narrativa e do personagem principal. “Embriagado de Amor” sem dúvida, está longe de ser um filme vazio e caricato , pelo contrário, é um filme com alma.
Anderson construiu sua narrativa sob o personagem de Adam Sandler. O diretor/ roteirista não teve receio de construir as situações, pois certamente , tinha plena certeza de duas coisas: Do talento de Adam Sandler e que todas as situações não eram estapafúrdias, existia sim, uma veia cômica com alguns tons acima em muitas delas porém, tudo isso é justificável se analisarmos a incapacidade social e carência afetiva de Barry(Sandler).
A relação de Barry com Lena(Emily Watson) é construída gradativamente, com cuidado,sensibilidade e principalmente, humor. Importante ressaltar não só a liga entre os personagens Berry-Lena pois ambos se encaixam por serem “fora do padrão” comportamental aceito na sociedade. Talvez, por isso mesmo, Paul Thomas Anderson tenha escolhido uma atriz que foge do padrão estético comum. Emily Watson , é bonita sim , mas está longe de ser uma Julia Roberts por exemplo.
É melhor que a atriz seja assim, se fosse muito bonita, perderia a graça e ficaria inverossímil.
O único ponto fraco foi a inclusão do sub-plot “da máfia do tele-sexo”. isso sim, foi muito manjado e descartável. Mas , tem uma boa justificativa; Tenho certeza que Anderson criou esse plot com o único propósito de ter o seu ator-fetiche , o saudoso Philip Seymour Hoffman abrilhantando seu longa.
Um dos aspectos mais interessantes e que também contribuem para essa
estranheza inicial com o longa é a sua fotografia. A cargo de Robert
Elswit. Construída predominante com cores frias e uma contraluz natural
com luz solar rebatida e também estourada que realça e se justapõe a
interpretação dos atores na cena , garantindo algum equilíbrio ao tentar
quebrar aquela frieza do protagonista, ao mesmo tempo, essa alta
luminosidade nas raras cenas externas no inicio do longa , representa o
isolamento social de Berry(Adam Sandler). Interessante notar, que esse
artifício é quebrado com a chegada de Lena(Emily Watson).
A trilha dietética de Jon Brion é espetacular, trabalhando em duas
vertentes opostas que se completam na narrativa: Primeiro, um
instrumental (não é a toa, que Barry “toma” um piano pra si) que reflete
o isolamento social e o comportamento pelicular de Barry(Adam Sandler) e
o uso de tambores africanos , que representam a trajetória de
libertação social do personagem através do amor de Lena(Emily Watson). É
como se o amor fosse tratado não só como uma libertação mas como uma
razão para celebração.
Adam Sandler impressiona ao compor Barry com vários tiques e
esquisitices próprias do personagem e com uma comédia presente a todo o
momento, mesmo que nas entrelinhas. Sandler soube pontuar sua veia
cômica para que ela surgisse natural e espontaneamente. O ator soube dar
alma ao personagem e aos seus dilemas com carisma e afeto, tornando
fácil a identificação com o protagonista.
Emily
Watson faz de Lena a perfeita metade da laranja de Barry. A atriz
constrói sua personagem fora do padrão com leveza e encantamento ,além
de estabelecer. química cênica com Adam Sandler. Não conhecia o trabalho de Watson, mas a atriz me
lembrou Renée Zellweger em “Jerry Maguire”
Philip Seymour
Hoffman dispensa apresentações,até porque nem todos os adjetivos do
mundo juntos seriam suficientes para descrever o seu talento. Digo
apenas que sua atuação neste filme é a prova que um grande ator brilha
em qualquer papel. Não é difícil saber porque era o ator -fetiche de
Paul Thomas Anderson, pena que já não está mais entre nós.
Paul
Thomas Anderson fez em “Embriagado de Amor” uma comédia deliciosa para
nós os desajustados, engraçada mas principalmente com alma e coragem.
O Curta-Metragem “ Eu Não Quero Voltar Sozinho” conquistou tantos fãs
pela sua delicadeza, ternura e sensibilidade e tamanho o potencial da história
, que o caminho natural é que o inspirador Curta se torna-se um Longa-Metragem.
E foi o que aconteceu, “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” não é uma continuação
do curta, pelo contrário ,ele expande a narrativa recontando-a e tornando a trajetória
do adolescente Léo(Guilherme Lobo) em busca de suas descobertas e independência
enquanto tenta lidar com suas limitações por ser um deficiente visual muito
mais prazerosa e inspiradora de se assistir.
O diretor Daniel Ribeiro soube fazer a transposição e a conversão da
história de seu Curta-Metragem de maneira muito bem sucedida, evitando assim
que o filme perdesse a qualidade da trama original e principalmente, a sua essência.
Dotado de uma incrível sensibilidade, Ribeiro conduz seu filme com a
delicadeza esperada(e necessária). A forma com que as situações se formam na
tela é tão natural e genuína que é impossível o espectador não deixar emocionar
pela historia.
Como já disse, o diretor aposta na naturalidade e isso engloba tudo mas
principalmente na sua forma de dirigir que aposta em uma agilidade de planos muito
natural, de forma que as situações são construídas como uma crônica trivial, a sucessão
de planos ocorre sem grandes efeitos sonoros,ela simplesmente ocorre , é
natural como a vida.
Acho que isso diz muito sobre o trabalho de Daniel Ribeiro, o diretor
aborda as questões de forma muito sensível e deixa que as tramas brotem de
forma natural.
Natural também é a atmosfera fílmica que o diretor envolve o seu
elenco,extraindo assim ótimas interpretações de seus atores, Ribeiro sabendo da
preciosidade nas atuações de seu elenco concentra sua câmera em duas posições principais:
A espreita quase imperceptível, apenas acompanhando o desenrolar da narrativa e
apostando fortemente nos closes e plano-contraplano, o que permite ao diretor
extrair a ternura que permeia a narrativa e Ribeiro é extremamente habilidoso na
direção de atores captando as feições e nuances genuínas do seu talentoso
elenco.
A fotografia é um dos pontos altos do filme, pela forma que engrandece as
imagens e eterniza as cenas , conferindo-as uma beleza muito sutil. Apostando em
uma luz difusa dosada a uma contraluz , o diretor de fotografia Pierre de
Kerchove encontra
o equilíbrio perfeito para eternizar as cenas na memória e no coração de quem
assiste.
Como uma trilha magistral que fica na ponta da língua , a ponto de sair
da sala de cinema cantarolando é um elemento narrativo de grande poder pois
emana sentimentalismo ao longa.
O Roteiro de Daniel Ribeiro tem muitos atributos, pra começar, o
diretor-roteirista constrói uma história totalmente encantadora e inspiradora,
segundo, a forma genial com o que o cineasta aborda as temáticas das
diferenças, sexualidade , independência e bullying são muito criveis ,
contribuindo para desmistificar os tabus que infelizmente ainda existem em
nossa sociedade e acabar com o preconceito. O fato de Ribeiro não fazer da deficiência
de Léo(Guilherme Lobo) o plot principal da narrativa é uma grande evolução,
pois mostra que as diferenças são sim uma característica da nossa personalidade
mas de forma alguma define quem as pessoas são.
O único porém na transição do curta para o Longa-Metragem foi que a
narrativa perdeu um pouco do seu dinamismo que existia no curta, mas nada que
prejudique o potencial do filme, pelo contrario é um mero detalhe.
Guilherme Lobo , Fábio Audi e Tess Amorim dão conta da difícil tarefa de “comandar”
a narrativa, já que a trama do filme paira sobre os seus personagens, embora no
longa, esse triangulo amoroso se torne um quadrilátero com a entrada de Karina(Isabela
Guasco).
Guilherme Lobo merece honrarias pela forma com que reconstrói o seu
personagem, Léo dando novas nuances aos novos e antigos dilemas que o adolescente
enfrenta.
Lobo, Fábio Audi(Gabriel) e Tess Amorim(Giovana) não apenas reconstroem os
seus personagens de forma impar, dando vivacidade e esbanjando química cênica
mas exaltam sentimentalismo em seu estado puro emocionando o espectador e
fazendo do corriqueiro um grande acontecimento.
Dois atores também merecem menções especiais: a Presença luminosa da
excepcional atriz Selma Egrei como Maria, a avó do protagonista Léo(Guilherme
Lobo) e Eucir de Souza como Carlos, o pai de Léo que incentiva a independência do
filho. O ator tem uma performance maravilhosa, terna e graciosa. (emocionante a
cena em que Carlos ensina Léo a se barbear, química perfeita).
Daniel Ribeiro conseguiu o seu objetivo. Emocionou, tocou corações ,provocou
reflexões com um filme muito simples mas que se torna grandioso em sua simplicidade.
Tocando, mágico e encantador “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” é maravilhoso e
nada abalou seu potencial nem a quebra na dinâmica na transição curta-longa.
Ouso dizer que a história de Léo e companhia tem potencial pra ainda mais de
modo que torço pra uma continuação.
“Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” é a perfeita traide entre encanto,magia e
sensibilidade e um forte candidato aos melhores filmes do ano.